O jovem casal e o seu carro novo


Esta história é curta e tem a duração de uma vida ou de uma tarde de sol. Em Lisboa, perto da estátua do tirano com um Leão, um jovem casal rodopiava com o seu carro novo. O condutor na sua felicidade inconsciente, afagando a barba e agitando os cabelos ao som tribal de uma música moderna invadida por gemidos e tambores incompreensíveis, diz para a sua jovem esposa visivelmente entediada com a situação: "E se déssemos mais dez voltas à porcaria desta estátua, sem obedecer aos semáforos?".

Não se sabe o que respondeu a jovem esposa, mas nem deram mais uma volta completa ao impassível Marquês quando foram tragados pela vertigem metálica de um enorme autocarro, o que muito irritou o motorista fardado. Porque a sua folha-de-serviços registaria, para sempre, este incidente espectacular que logo atraiu dois operadores de câmara de uma televisão privada que, por acaso, tinham testemunhado o ocorrido e que acompanhavam a sua colega jornalista, loira e bonita e que estava, também por acaso, a ser cortejada por ambos os pretendentes. Os planos de filmagem foram precariamente discutidos e a captação do som foi experimentada de forma a permitir realçar a voz doce e comovida da jornalista.

Enquanto os corpos gemiam à beira do último suspiro e alento humanos, a jornalista loira impecavelmente vestida de vermelho, contra o mármore da estátua em fundo, discorria sobre a frugalidade dos tempos que correm e a irresponsabilidade juvenil. ‘A vida não é mais que um círculo fechado, donde a única saída parece ser uma tangente que tem a cor da morte!’ ¾ a jornalista rematava, filosoficamente, puxando para baixo com uma mão pudica a saia curta e apertada. Para quê pensar na morte quando se tem a visão de uma jornalista tão bela interessada em dissertações filosóficas e indiferente às agonias alheias? A indiferença, já o sabíamos, é o último testemunho da beleza e a prova real da sua existência. O mercado da cosmética precisa, acima de tudo, desta indiferença olímpica e sorridente encurralada entre a morte e o mármore.

A notícia chocou a nação, porque a agonia em directo de um jovem casal, retorcido entre ferros, e a exuberante jornalista de pernas perfeitas e luminosas compunham uma imagem desequilibrada sobre a realidade e a transitoriedade da beleza. Este choque psicológico e colectivo teve que ser regulado pelos mecanismos do Estado e da política. Uma hora depois do trágico acidente, o Presidente da República deslocou-se ao Marquês com o seu semblante grave e adequado à situação, trajando um fato escuro mas evidenciando, num propósito estudado, uma garrida gravata – porque, afirmava a cada momento, "é preciso combater as lamúrias e as queixas dos portugueses" – e debitou para todas as cadeias de televisão os males da juventude, o desnorte da sociedade do consumo e as falsas euforias, encenando uma lágrima logo corrigida por um breve gesto de mão. A nação rendeu-se e os portugueses tiveram uma overdose de emoções só comparável a uma final de futebol ou a dez massacres em locais distantes.