O Papamoscas de Burgos

Na
imponente Catedral de Burgos habita o único gnomo de comprovada existência,
na Europa do Sul. Com efeito, o narrador desta história habituara-se
a considerar os gnomos, seres minúsculos e com dons especiais, apenas
dignos de povoarem as florestas europeias do Norte. Aí, julgava o narrador,
os mistérios foram preservados por entre árvores milenárias, reservas
de azoto e refregas de taberna. Mas
na majestática Espanha de El Cid insinua-se um ser patético, que abre
mecanicamente a boca a cada badalada, em cada hora que passa. Em
cada hora que passa desde o século XV, repete o narrador para desistir
de contabilizar o número de vezes que o gnomo de Burgos, conhecido como
papamoscas, abriu a boca. Agora mesmo, o narrador olha para o seu relógio
e imagina em Burgos o papamoscas abrindo e cerrando a boca mecânica:
são onze horas da manhã. Mais onze vezes o papamoscas entra em acção,
por entre turistas pasmados e frias estátuas de apóstolos e santos: El
Papamoscas soy yo y el Papamoscas me llamo; este nombre me pusíeron hace ya quinientos años.
Em
tempos de peregrinação a Catedral devia saturar-se de beatos suados
a caminho de Santiago, arrastando moscas atrás de si. Contudo, sem o
contingente de moscas e de peregrinos de séculos passados (como se sabe,
moscas e peregrinos são duas espécies em estreita correlação) o papamoscas
ensina, ainda, ao bom observador uma lição sobre a natureza frugal do
tempo. O
papamoscas, filósofo cínico a maior parte do tempo (à míngua de moscas
e de peregrinos), prescreve que o tempo é uma boca mecânica, um saco
roto: sem princípio nem fim. Assim, porque não tem princípio nem fim,
o tempo pode acumular toda a vileza humana sem que se interrompa o mecanismo
do Universo. A
cada vilania humana (como se fosse uma badalada) Deus também abre e
cerra a boca desconhecendo-se se o faz por devaneio se para afugentar
os insectos que povoam os confins do Universo. Seja qual seja a razão,
os humanos bem podem observar em cada hora que passa e nos limpos céus
Deus abrindo e cerrando a boca, estupidamente, e recitando como o papamoscas
de Burgos: Desde
esta ojiva elevada contemplo la gente loca que corre apresurada para verme abrir a boca. Pero
no es el Papamoscas el que sólo hace la fiesta, también los que estáis abajo y tenéis la boca abierta.
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