O homem da longa cicatriz


José Abel tinha uma característica que o diferenciava dos outros camponeses: uma enorme cicatriz atravessava-lhe o peito, e ele chamava-lhe a 'tatuagem' porque tinha ouvido essa palavra não sabia onde. O certo é que José Abel não procurava esconder a cicatriz, gravada na pele como um relâmpago negro, antes a expunha com desdém, quase com orgulho, e repetia para quem ainda não soubesse:

– Foi uma picareta – e contava toda a história, insistindo nesse momento culminante em que tinha sentido uma explosão interior, como se algo de muito frágil se tivesse quebrado com violência.

– E saltou muito sangue? – perguntava-lhe o companheiro pela miléssima vez, o que resultava num fingido interesse de que José Abel não se importava.

– Sangue? Eu não tenho sangue! Por dentro é tudo rijo! – e ria-se maliciosamente. O companheiro limpava o suor e olhava para a montanha, recebia da montanha essa inspiração mística que antecede sempre as grandes revelações:

– Se Deus existe porque não te livrou da picareta? – mas José Abel não sabia o que responder. O companheiro continuava a olhar para a montanha. Deus e a montanha pareciam-lhe coisas inúteis e grotescas.

– Eia! Upa! – os torrões da vinha eram virados a um ritmo diabólico. Varrer a vinha é um trabalho menos penoso que a cava, e são precisos menos homens: basta virar os torrões e sepultar bem as ervas.

– Eia! Upa!

– Só nós dois chegamos para isto! – sentenciava o companheiro.

– Ninguém dá valor a este trabalho! – lamentava-se José Abel, afagando a sua longa cicatriz.

– Isto é um trabalho como outro qualquer! – retorquia o companheiro, porque precisavam de uma resposta tola em que acreditar.

– Eia! Upa!

José Abel, diziam na aldeia, era um homem dividido em duas metades, por causa da sua longa cicatriz: metade homem e metade diabo, porque foi uma metade do diabo que alí lhe coseram. O resultado deveria ser aquela contida loucura de se imaginar eterno e sem limites de qualquer espécie.

– Nem a picareta me matou! – e a verdade é que José Abel trabalhou nos campos durante oitenta e cinco anos, não se tornou mais sábio por isso e nunca enriqueceu. Morreu um dia destes, como qualquer homem, coberto de arrogância e dores.