A cozinheira Juliana


Antecipando um qualquer juízo sobre a sanidade mental de Jeremias Santos e a sua robustez de carácter a Dona Artemisa, empregada de limpeza, assegura que o 'senhor doutor Jeremias' nunca tomou refeições no seu gabinete. Com efeito, Artemisa confirma a ausência de nódoas na alcatifa e o facto de nunca ter aspirado migalhas de pão ou restos de comida. Jeremias Santos invariavelmente por volta das doze horas, afirmam os seus colegas, saía do seu gabinete (que tinha o cuidado de fechar à chave) e esgueirava-se solitário ao restaurante da esquina, porque desprezava o convívio ruidoso no refeitório da empresa. Além disso, conforme o próprio declarou aos agentes da autoridade, a sua rotina gastronómica em pedir uma simples omolete não seria bem compreendida pelo pessoal subalterno das cozinhas. Declarou, no entanto, por precaução jurídica desconhecer a cozinheira Juliana.

Juliana era uma empregada exemplar, que apenas exagerava na proporção de cenouras, a acreditar em vários testemunhos. Além disso parecia exibir constantemente as suas grandes unhas vermelhas, aproximava-se com alguma ligeireza do balcão (apesar da sua evidente gordura) e marcava, com os seus dedos gordos e salpicados de vermelho, um ritmo enervante e estrategicamente territorial. Em função disto, os empregados abstinham-se de pedir doces e frutas e circulavam rapidamente para a secção do café. Mas Jeremias Santos não referiu estes pormenores de náusea, até porque não era um frequentador do refeitório.

A polícia criminal descobriu, contudo, que Jeremias e Juliana se conheciam e tinham mantido um caso secreto durante alguns anos. Fotografias antigas de Juliana encontradas em casa de Jeremias não ofereciam margem para dúvidas. Confirma-se que Jeremias, justificando a sua natureza reservada, fora um estudante muito pobre nos tempos da sua juventude. A única refeição de que podia dispor, nesses tempos que prefereria esquecer, era o almoço servido na cantina Universitária onde trabalhava a então sua vizinha Juliana que, condoída da situação do jovem Jeremias, guardava-lhe as "sobras". Jeremias tomava, assim, clandestinamente a sua refeição nas traseiras da cantina, longe da azáfama e dos olhares indiscretos dos seus colegas de turma. O jovem estudante, gratificado, retribuía a amabilidade com uma espécie de namoro dominical, até porque as fraquezas masculinas necessitavam de saciar outros apetites, em gestos cada vez mais despudorados.

Contudo, Juliana, evidenciando já uma certa propensão para engordar, procurava compensar as desigualdades intelectuais em relação a Jeremias alimentando-se com doces e chocolates. Outras vezes, engolia uma série de cenouras seguidas para preservar os seus lindos olhos verdes, dizia então, com a gentileza de quem acredita ter alguma influência no mundo ou, pelo menos, na cor dos olhos.

Ambos se habituaram a um namoro tacitamente secreto, durante a licenciatura de Jeremias. Sob o apelo do futuro senhor doutor, Juliana aceitou nunca falar com Jeremias no recinto universitário e até, residindo na mesma área, pactuou em fingir não o conhecer. Existe, sem dúvida, uma lenda de fracasso e de mútuo afastamento em cada relação amorosa, e literaturas sem fim poder-se-iam tecer sobre os amorosos do mundo e a regra básica da traição, quase sempre masculina. No caso de Jeremias tudo começa com umas explicações de matemática que nos anos terminais do curso começou a dar a várias colegas, tendo-se apaixonado invariavelmente por cada explicanda, trimestralmente, o que indicia para os cientistas sociais um qualquer bioritmo da paixão.

A solícita empregada do refeitório, Juliana, tornou-se um empecilho a aguardá-lo em fins-de-tarde cada vez mais espaçados e com as faces cada vez mais inchadas e vermelhas. Depois, aquelas mãos sapudas... e um dia, quando Juliana o convidou para ir viver em casa dela, Jeremias aceitou para não ter de pagar a renda do quarto onde nem sequer podia comer em paz. A dona do quarto nutria um verdadeiro pavor pelas baratas que, de acordo com as suas alegações, seriam misteriosamente atraídas pelas migalhas de pão do senhor Jeremias e pelas nódoas de gordura. Jeremias guardaria para sempre as recomendações da dona Gertrudes, dona do quarto, e adoptaria a partir daí uma conduta exemplarmente higiénica.

A vida em concubinagem, termo comum que empregaria mais tarde nas suas confissões, foi estoicamente suportada por Jeremias. Este recordou no julgamento os momentos em que Juliana, por baixo dos lençóis, começava a aproximar-se dele. A aversão à gordura provocava-lhe sensações de choques eléctricos num simples roçar de joelhos. Os joelhos de Juliana, acrescentou sem qualquer sinal de remorso, pareciam-lhe tão ásperos como lixa.

Juliana tinha, entretanto, trocado o emprego na cantina da Universidade por um outro na cantina do Ministério para os Assuntos Sérios. A juventude que lhe emprestara algum brilho aos olhos começava a escassear e restava-lhe exibir toda aquela gordura e flacidez que, subtilmente, se tinha espalhado pelo seu corpo. Mas o novo emprego revelou-se crucial, pois Juliana tinha feito despertar junto das funcionárias públicas de longa data uma certa comiseração em relação à sua gordura. Também, por causa da mania das cenouras consideravam-na totalmente inofensiva, uma recém-nomeada totalmente desprovida da necessidade de parecer eficiente.

Mas logo nas primeiras semanas no Ministério soube da abertura de um concurso qualquer. Talvez, pensou, Jeremias pudesse saber de mais alguma coisa ao contactar os serviços de Pessoal. O que é certo é que dois meses depois Jeremias era apurado para um cargo importante, embora tivesse concorrido sem grande convicção. O acordo mudo e tácito da juventude foi retomado sem esforço e ambos continuaram a fingir que não se conheciam. Evitando mesmo qualquer traição do olhar papudo de Juliana o "senhor doutor Jeremias", como agora era designado, não frequentava o refeitório do Ministério.

Preferia, antes, almoçar fora com uma jovem estagiária a quem prometia uma carreira certa, se as burocracias não atrapalhassem os planos de Jeremias. Juliana suspeitava de algo e sentia Jeremias cada vez mais distante e calado, já quase nem se falavam em casa. Jeremias insistia, aliás, na necessidade de viverem separados, pois pretendia escolher um apartamento mais digno da sua nova posição. Mas cada vez que Jeremias manifestava esta intenção, Juliana irrompia num choro lancinante. Os sons agudos de Juliana conservavam noites seguidas, dentro de casa, uma estranha ressonância atmosférica que tirava o sonho a Jeremias.

Mas naquela manhã de Páscoa, terna de sol, Juliana foi surpreendida com um inesperado convite para passear, até Cascais. Chegados à Boca do Inferno Jeremias atrasou o passo, com a desculpa de que avistara algum vulto conhecido ao longe. Juliana aguardou Jeremias com a alegria salpicada de vermelho no rosto, mas temendo do alto os mistérios de um mar infinito. Culpe-se a ternura por desequilibrar, facilmente, os corpos mais pesados. Apenas um leitor ingénuo não sabe já o fim desta estória, o que comprova a habituação humana à arte da tragédia. A sequência não é, aliás, de difícil adivinhação e repete-se provavelmente ao longo dos séculos.