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A canção de Ur no país das
origens
No
deserto do Iraque, na misteriosa Ur rodeada de pó e de fantasmas, Vicente
de Calatrava (que alí viveu escondido durante duas décadas, para apreciar
a solidão e tornar-se filósofo) confessou-me que decifrou uma canção
antiga, talvez a primeira canção escrita pelo ser humano. Escavando
durante vários dias e noites sem parar, impulsionado por uma força oculta
que não me conseguiu descrever, alimentando-se de um fio de água que
misteriosamente, três vezes por dia, escorria dos céus, Vicente sentiu
as unhas quebrarem-se de encontro a uma rocha mergulhada nas profundezas
das areias. Indiferente
à dor e sem poder utilizar as mãos, limpou os últimos vestígios de areia
com os pés e com as coxas até se ferir na nudez da pedra e dos relevos
do que afirmou ser a primeira canção da humanidade. Familiarizado com
a primeira escrita do mundo, depois de uma convivência de duas décadas
com as cobras e o enigma dos caracteres gravados em velhos muros, Vicente
argumentou ter descoberto a sonoridade cantada daquelas palavras libertadas
do fundo das areias pelas suas mãos, pés e coxas feridas. Em seguida,
adormeceu durante dias e quando acordou destruíu, com pedras arrancadas
dos muros, a primeira canção do mundo porque os homens não a mereceriam. Vicente
confessou, no entanto, que se sentiu tão comovido com aqueles linhas
melodiosas descobertas no fundo dos séculos e das areias que chorou,
durante horas vagueando pelos desertos, o crime de ter apedrejado aquele
singelo testemunho da fé humana até não restar mais nada que uma mossa
feita de raiva e silêncios. Chorava ainda a sua insensatez quando, nos
desertos, foi recolhido por uma tribo de homens que o espancou e o abandonou
às portas de Bagdad, mais morto que vivo e com mais fome que nunca.
Mendigou durante alguns meses, mas o seu aspecto ocidental parecia suspeito
quer aos olhos dos nativos quer aos olhos dos poucos turistas europeus
que dormitavam pelas esplanadas. Uma
tarde, em ruas mal frequentadas, conheceu um árabe de meia-idade, um
homem que possuia a robustez no corpo e no espírito, sólido e violento
nas maneiras de mostrar o seu afecto ou de dirigir os negócios ¾ negócios
que tinham a ver com o petróleo, como era de esperar, mas também com
armas, géneros alimentares e produtos medicinais. Vicente nunca aprendeu
a pronunciar correctamente o nome do seu benfeitor árabe, mas aprendeu
a satisfazer todos os prazeres masculinos e a ser submisso o suficiente
para continuar a sobreviver. Julgo que Vicente se deve ter acostumado
à sua nova condição, aceitando-a sem revolta, pois apenas três anos
depois se refugiou numa embaixada europeia revelando a sua identidade.
Nunca saberei se Vicente o fez em função da sua dignidade se do fulgor
do ciúme por ter sido trocado por um rapazito árabe, mais jovem e esbelto. A
carta que me enviou, pouco antes de partir da insondável Bagdad, referia
apenas de passagem estes episódios, mas demorava-se a falar da magnanimidade
daquele texto musicado, encontrada nas areias de Ur ¾ a primeira canção
da humanidade. Essa canção relatava a origem da chuva e apresentava
os seres humanos como criaturas de um ser hermafrodita, nostalgicamente
habitando nas nuvens ou dormitando debaixo das dunas do deserto. Aguardava
com impaciência a chegada de Vicente de Calatrava (e da memória da primeira
canção do mundo) quando, já no aeroporto de Madrid, soube da notícia
do abate do avião onde ele regressava ¾ por um míssel americano disparado
por engano. Uma hora depois desmentiriam a paternidade americana do
míssel, atribuíndo-a ao Iraque, mas confirmariam não haver sobreviventes. Regressado
a Lisboa, de mãos dadas com a minha antiga companheira, contei a desgraça
de Vicente de Calatrava. Em plena praça do Rossio ela compreendeu porque,
embora eu procurasse o amor, tinha vivido calado tantos anos e não soubera
expressar os meus sentimentos. "Falta uma canção no mundo e é como
se faltasse toda a música no universo, como podes tu expressar-te sem
admitires o logro?". E assim me desculpei de não saber cantar.
Um dia, dissémos sem grande convicção, viajaremos para Ur.
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