Os inimigos na vila do sol nascente

Naquela manhã, a luz inundava a praça. Os pássaros… um rumor de primavera ferido pelos olhares suspeitosos nas janelas. A luz desmaiava aos pés de Santiago Crespo. Estava só, surpreendido pela manhã na praça da vila, aguardando a hora da sua vingança. Do outro lado do coreto viu surgir o rosto, enegrecido pelas sombras de um chapéu largo, do seu rival Manuel Carpim.

À medida que o corpo de Manuel se aproximava de Santiago os rostos crispavam-se na paralisia do ódio, fixando os olhares num ponto infinitamente pequeno e distante para lá dos horizontes e dos corpos, das árvores e das casas. Santiago levou a mão ao bolso e sentiu o conforto da navalha, o instrumento da vingança e da honra dos homens da vila.

Manuel estacou a cerca de dois metros de Santiago, mais mudo que os céus e até os pássaros ficaram estranhamente calados. "Que tens para me dizer?", interrogou Santiago, na sua voz firme e seca. "Não tenho nada para te dizer, a culpa não foi minha!", sentenciou Manuel, e antes de admitir qualquer réplica, num gesto ligeiro e retorcido como o voo dos insectos, bramiu o machado que ocultara atrás das costas e rachou a cabeça de Santiago. Os pássaros iniciaram-se no seu pranto e dizem as más línguas da vila que depois deste triste episódio o sol nasce mais vermelho que antes, manchado pelo sangue de Santiago Crespo.