A mulher das pernas perfeitas
na manhã sem nome


No comboio descendente o homem sentado a meu lado comentava a triste sina dos escravos da modernidade, trabalhando com contratos temporários, sem horários definidos, sacrificando o afecto familiar. O homem, com voz pausada, dizia-se revoltado, era 'uma injustiça', tossia civilizadamente erguendo o punho à altura dos lábios, à altura da tosse e das palavras, tremia com o pé direito num ritmo incessante, marcando o ritmo de música nenhuma.

Uma mulher afagava-lhe a mão (a mão que não se fechava quando tossia), rendia-se às suas breves palavras sábias, olhava-o com admiração. O homem concluía que essas pessoas vivem como animais atrás da sobrevivência e mirei por momentos a contracção das suas sobrancelhas, a irritação ao canto da boca que se propagava ao pé nervoso marcando o ritmo, uma mão cerrada socializando a autorização para tossir e a outra, peluda e inerte na coxa daquela mulher, recebendo o seu afago samaritano.

O homem revoltado surpreendeu-se com o revisor, rogando-lhe a exibição do título de transporte, mas respondeu com despropositada cortesia, como se evidenciasse uma compaixão infinita pelo revisor, jovem ainda (que jovem que era!), um escravo dos tempos modernos. Depois, e nos quinze minutos que o comboio demorou a encontrar o seu destino final, o homem revoltado permaneceu calado, sentado e ofegante, batendo o pé, libertando-se da mão daquela mulher rendida para lhe acariciar a coxa, apertando-lhe ligeiramente a carne até a mulher esboçar um gemido, um 'ai!' contorcido no vermelho dos lábios e nos olhos doces, pintados de azul celeste com uma estrela prateada a definir toda a exuberância de um amor.

O comboio chegou ao destino e os passageiros dispersaram-se como pássaros inquietos esvoaçando sobre um bosque em chamas. A mão do homem revoltado abraçou a mulher rendida, os seus dedos tactearam a curva das suas nádegas, um beijo rápido de despedida selou a manhã numa vitrine intransponível e perdi de vista o homem revoltado e a mulher de pernas perfeitas. Nesta manhã sem nome compreendi então, fugazmente e por sinais que não consigo recordar, porque as revoluções estão extintas e a história dos povos se tornou insípida.