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O Senhor Administrador e eu
Cretino e insolente, é isso que o senhor é. Cretino e
insolente. Idiota também, e isto apesar de me considerar pouco
hábil no manejo das palavras. Idiota e parvo, já cá
faltava esta. Parvo com todas as letras. Quando o senhor coloca o cigarro
na boca e o deixa levemente descaído a um canto dos lábios,
eu sei que o senhor faz isso em sinal de desprezo. O senhor fuma em
sinal de desprezo. No fundo, o senhor despreza os seus empregados. E
odeia-os, é verdade. O seu gesto severo de riscar o fósforo
também fala por si. Quanto mais o conheço, senhor, mais
o odeio. Evitando que este ódio se confronte existe apenas um
gabinete com paredes envidraçadas, de onde o senhor espia o nosso
mínimo gesto. O senhor está igualmente ao corrente de
tudo o que pensamos. Essa é a tarefa dos seus informadores que,
aliás, o senhor também despreza. São-lhe apenas
duas vezes mais úteis, duas vezes mais dóceis que os outros.
E andam tristes, como os outros, e de olhos baixos. De olhos baixos,
porque a mínima arrogância ser-lhes-á uma distração
escandalosa. Só o senhor pode ser arrogante. Um dia há-de
dizer-me porque anota nesse pequeno bloco o nome dos empregados que
chegam tarde ao escritório. Nisso, o senhor não me pode
culpar. Sou pontual. Começo a odiá-lo pontualmente às
nove da manhã.
Se eu tivesse uma faca ia aí retirar-lhe as tripas para poder
elaborar um Relatório Sobre o Estado de Saúde do Senhor
Administrador. Exibiria as suas tripas por todas as Secções,
visitaria mesmo as suas fábricas espalhadas pelo país.
Meus senhores, diria eu, tenham calma, isto são as tripas do
senhor administrador que, por óbvios motivos de saúde,
lamenta não poder acompanhar-me nesta digressão pelas
suas fábricas. Mas façam o favor de regressar ao trabalho.
Isto é uma ordem! Não existem motivos para a produção
de manilhas não prosseguir a bom ritmo. O que é que as
tripas do senhor administrador têm de extraordinário para
interferir com a vossa amável disposição para o
trabalho? Por favor, digam-me o nome dos atrasados e também daqueles
que não sabem calar-se e não perdem o hábito de
falar de política e de greves. Garanto-lhes que o senhor administrador,
mesmo privado das suas tripas, aguarda a minha comunicação
com a máxima das urgências, e exige que eu lhe apresente
os Resultados de um Inquérito minucioso sobre este e outros assuntos.
O senhor administrador quer saber quem é casado, solteiro ou
divorciado. Quem tem filhos para sustentar e quantos são ao todo
lá em casa incluindo os animais de estimação. Mesmo
o anúncio das mortes passadas não deve ser descurado e
se as razões das mortes de parentes foram a fome ou os desentendimentos
domésticos ou doença prolongada.
O senhor administrador gosta de agraciar as famílias mais pobres
ou que foram assaltadas por desgraças comoventes, e mesmo que
neste momento o senhor administrador se encontre em estado terrivelmente
débil os prémios de produção mantêm-se
para todas as fábricas. Para comprovar a debilidade do senhor
administrador acedi a trazer as suas tripas. Rezem pelo vosso administrador,
pois é ele que vos paga os ordenados. E continuem a trabalhar
em silêncio respeitoso. Acreditai-me que o dinheiro dos vossos
ordenados lhe custa muito a ganhar, uma dúzia de telefonemas
e reuniões com banqueiros e todos eles importantes e influentes.
Já deveis saber que os tempos são de crise. Infelizmente,
e supondo que o senhor administrador não se encontre a recuperar
do seu estado febril, pois não pode viver sem as suas tripas,
temo que os ordenados não sejam pagos este mês. Mas que
relevância particular isso pode ter neste mundo? E com a crise
existem seguramente muitas dificuldades em muitas empresas, e aqui temos
que louvar o senhor administrador que mesmo neste estado lastimoso continua
a deslocar-se às suas fábricas para animar os operários.
O que importa realmente é que continuem a trabalhar. É
a crise, o que é que vocês querem? Os banqueiros dificilmente
confiarão num administrador sem tripas. Acabou-se o crédito,
o que vai ser de nós? Por isso apelo veemente para que não
deixem de trabalhar! Segundo os Relatórios cada fábrica
produz em média 927 manilhas por dia. Fabriquem mais, que o país
vai precisar de substituir as canalizações antigas, e
se os responsáveis públicos não têm dinheiro
é uma boa ocasião para subornarmos a simpatia dos políticos,
para podermos fazer outros negócios mais lucrativos. Fabriquem
o dobro das manilhas de ontem! Nenhum operário sai daqui sem
ter produzido o dobro de ontem! Exijo Relatórios diários
sobre os desempenhos individuais. Ó meus amigos, eu também
em cada dia me esforço mais que no dia anterior! Pelas santas
tripas do senhor administrador eu vos rogo! A empresa é a nossa
vida, caramba! É aqui que passamos a maior parte das nossas vidas,
e ai de vocês quando deixam de estar em condições
de produzir!
A empresa tem todo o interesse em que se mantenham fortes e saudáveis,
ou que façam sacrifícios para que o vosso entusiasmo não
esmoreça e o melhor exemplo de dedicação total
a esta empresa vem na figura, ou no que resta dela, do senhor administrador!
São podemos ser ingratos! É também graças
à empresa que muitas vezes temos feito um regime de emagrecimento
e cumprido uma equilibrada dieta. Acreditai-me que ser gordo é
um desgraça, é ser deformado na cintura! Os operários
desta empresa têm feito todos os sacrifícios para serem
elegantes. E alegrai-vos, porque novos sacrifícios vos esperam
assim como mais duras privações. O senhor administrador,
para dar o exemplo, cedeu gentilmente as suas tripas! Estas tripas foram
arrancadas por amor ao próximo! Perdoai-me a linguagem rude e
um tanto precipitada que emprego, mas assim tenho a certeza de ser compreendido
em toda a vastidão do meu pensamento. No entanto, os tempos são
de crise e estas tripas, quer queiramos ou não, provam a total
indisponibilidade do senhor administrador para enfrentar as dificuldades
do presente. (Tenho a certeza absoluta que se tivesse uma faca... o
senhor arrepender-se-ia de ter acendido esse cigarro. Só porque
não gosto da maneira como o senhor acende os cigarros. O senhor
brinca com o fogo, é o que eu lhe digo!).
Porque é que o senhor vale mais do que eu? O senhor não
é um cretino? O senhor quer dizer-me que não é
insolente nem idiota? Nem parvo, já cá faltava esta. A
sua presença enoja-me, sinceramente. Sinto-me mal quando olho
para si. Se o senhor ainda quer um dia vir a ser útil para a
humanidade habitue-se à ideia de se transformar, por meio de
algumas habilidades químicas, em estrume para as couves. Eu sei
que não somos mais nobres que o senhor. Eu sei que a nossa sobrevivência
depende do ordenado ao fim do mês, que depende de si. Quem disse
que somos diferentes? O senhor ocupa uma posição diferente,
isso sim.
A diferença está aí, na posição que
o senhor ocupa. O senhor não é igual a mim porque está
sentado numa cadeira especialmente aí colocada para um administrador.
O senhor é administrador, e o rabo de um administrador merece,
sem discussões, o último modelo da moda em conforto de
assentos. O senhor domina. A sua cadeira domina. Eu sei que a sua secretária
tem que ser assim plana e obscura, para dar um toque de sóbria
neutralidade funcional. Mas a sua cadeira tem que se impor. Para começar,
a sua cadeira não é uma cadeira, é um trono. O
senhor quando se senta não pode ser em qualquer lado.
Este diálogo de surdos começa a enlouquecer-me. Já
estou aborrecido de escrever sobre o senhor administrador. O senhor
é diferente de mim, porque eu não passo a vida a anotar
quem é que chega atrasado. Eu passo a vida a fazer tudo o que
o senhor quer, e para que o meu modesto nome não conste desse
bloco eu sou assíduo e levanto-me cedo. O senhor é tão
diferente de mim que eu posso escrever sobre o senhor, ouviu? E posso
escrever o que quiser acerca do senhor sem que o senhor tema particularmente
por isso. O senhor pertence à classe dos cretinos que mandam,
e eu à classe dos cretinos que obedecem. A humanidade é
um acervo de cretinos sob o incomensurável cosmos, já
se vê.
Trinta minutos passei na casa de banho, e sei que o senhor tomou disso
conhecimento. Mal eu me levantei o senhor olhou para o relógio
numa atitude de intimidação. O senhor não tem mais
nada que fazer na vida do que chatear os outros? Digo-lhe que nos trinta
minutos que passei na casa de banho muita coisa passou por esta minha
mente. Fisicamente apercebi-me que estamos enjaulados. Fiz, ainda, outra
descoberta terrível: eu preciso do senhor para escrever. É
debaixo do seu focinho que eu gosto de escrever. Preciso que o senhor
esteja aí para eu o poder denunciar. Fiquei realmente consternado
ao verificar que, quando regressei da casa de banho, o senhor tinha
tido o descaramento de se ter ausentado. Como vou distribuir o correio
pelas diversas Secções sem a sua supervisão?
Estas Folhas de Caixa são azuis, todos os documentos são
azuis, as capas dos Relatórios são azuis. E as dívidas,
desesperadamente azuis, até o céu é azul, e Deus,
o Grande Ausente, tem olhos azuis. Escrevo isto com relativa serenidade.
O que é que eu estou a escrever? O senhor interroga-se, desde
o seu umbral envidraçado, sobre o que é que eu estou a
escrever? Eis uma pergunta à qual muito gostava de responder.
Mas não respondo, porque o senhor não me apoiaria na prosa
insanável sobre os documentos azuis que circulam por esta empresa.
No fundo, invejo-o e odeio-o.
Invejo-o porque o que quer que o senhor escreva nesse pequeno bloco
tem um efeito tremendo sobre os seus funcionários, e odeio-o
por isso mesmo: o senhor poderia ser mais do que um escritor, tudo o
que escreve produz consequências terríveis. E eu sei que
todos somos escritores, porque todos escrevemos alguma coisa, só
que uns são invejados e odiados e os outros não. Mas o
senhor também me odeia? Obrigado, mas o meu ódio é
maior que o seu, porque o senhor tem que repartir o seu ódio
por centenas de escriturários e de operários, e eu tenho-o
só a si para odiar. E acho mal que neste ponto da nossa discussão
o senhor aproveite para acender outro cigarro, sabe como isso é
irritante. O senhor obstina-se em não me ouvir, e olhe que disse
coisas pouco simpáticas as seu respeito. Aflorei mesmo a hipótese
de lhe arrancar as tripas sob estes mudos céus e perante atordoados
funcionários.
Exibiria as suas tripas de fábrica em fábrica, e receio
até que o meu nome fosse indicado para o substituir. Afinal,
diriam, este não é melhor que o outro. Merece ser respeitado.
Merece um gabinete envidraçado, de onde domine e espie os gestos
e as consciências alheias. Este homem não serve para nada,
assegurariam ainda, temos que lhe ceder um trono para lhe entreter a
existência. Homens assim, rematariam, precisam de um trono para
não se tornarem criminosos.
Contudo, pensando melhor, quem me diz a mim que o senhor, nesse pequeno
bloco, não esboça um admirável romance? Talvez
me tenha enganado a seu respeito. Talvez o senhor seja digno da sua
ostentação. Os escritores são imbecis e tranquilos.
Toda a gente é imbecil e tranquila. O senhor é imbecil
e tranquilo. Por favor, queira aceitar as minhas mais sinceras desculpas.
Eu não sei o que digo, a loucura protege-me da humanidade.
Acabei de almoçar dois salgados com carne e um punhado de salada
e espero impacientemente que o senhor regresse ao escritório...
Mas afinal, a que horas o senhor entra? Porque não está
no seu posto anotando o que é da sua obrigação
num pequeno bloco? A minha indulgência tem limites, fique sabendo!
Estou a começar a formar novamente uma má opinião
sobre o senhor, oxalá saiba emendar-se a tempo. Então
o senhor tem o descaramento de me entrar no escritório às
quatro horas da tarde? E ainda por cima faz cara de sonso? Exijo uma
explicação, já! O senhor está a passar das
marcas, e tem o condão de me enervar, e isso não é
bom. Não diga nada, o senhor não tem o direito de me falar
dessa maneira, ponha-se no seu lugar! Estou a perder o meu precioso
tempo com o senhor. Por favor, se ainda quer salvar o seu lugar dentro
desta empresa pondere as suas palavras, tente corrigir a sua conduta!
Vou deixar passar esta impertinência, mas é a última
vez. Vá para o se lugar, sem mais discussões, ali mesmo
ao fundo e pegue no seu pequeno bloco – mas lembre-se que o seu gabinete
é envidraçado e que eu o estou a espiar, ou ainda não
tinha reparado?
(Esta é uma adaptação do primeiro conto do
autor. O único, até ao presente, publicado em papel, no
ano distante de 1986)
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