 |
Cristalizações
Lefty olha obstinadamente
para o pedaço de carne. Um pedaço mole com nós
de sangue, e isto espera ainda uma série de transformações
químicas… Não posso comer isto, um nojo de comida, pensa,
momentos antes da grande revelação. O verdadeiro criador
é também um matador por natureza, um destruidor de equilíbrios.
Há muito que o velho mágico o sabe. O truque não
está nos dizeres mágicos, tão oportunos para encantar
as audiências.
Lefty precisa apenas de olhar e desejar sem rancor. Sim, tem que ser
assim, sem a antiga tensão das exibições de feira,
sem nervosismos ou manifestações de triunfo. Com determinação,
sem uma palavra ou pensamento razoável o pedaço de carne
desapareceu, depois tudo o que estava sobre a mesa e também a
mesa deixou de existir.
A verdadeira magia, que os deuses inspiraram, nada tem de espectacular.
Escapa simplesmente a qualquer contabilidade patrimonial, pois vem de
antes das coisas terem sido. É uma força que não
se pode convocar em benefício próprio. Assim é
pelos tempos sem mácula.
Lefty sente-se no caminho da grande revelação, não
no bom ou no mau caminho, mas na direcção de alguma coisa
que está para além do bem e do mal. É preciso desejar
que as coisas se libertem, pois também por esse mecanismo de
diluição total a humanidade se libertará.
Sem grande surpresa, um a um todos os objectos da casa desapareceram,
bastava que Lefty pensasse neles como coisas que não lhe faziam
falta, coisas que não lhe pertenciam mais e que precisavam ser
libertadas. A matéria é uma clausura terrível,
matéria muda e surda. Tantos mundos houve por todos os tempos
para se chegar a isto… a lei da evolução favorece a sociedade
humana. Mas como viverão os humanos sem os acessórios
do domínio doméstico, sem os instrumentos da ordem quotidiana:
sem sofás, sem estradas, sem janelas, sem casas, sem automóveis,
sem pontes?
A mesa desapareceu, a casa desapareceu, já nada espanta o velho
Lefty. Agora não tem onde apoiar os cotovelos ou deitar a cabeça
para adormecer. As coisas não voltam, essa é também
a maldição do tempo, olha-se para trás e a morte
conquista todos os direitos.
Lefty, sem no entanto saber se continua a sonhar, decide fazer desaparecer
os semáforos, os pássaros e os jardins à volta,
os anúncios pendentes dos edifícios e os próprios
edifícios. Tudo o que faz o poeta escrever: a cidade e a natureza,
ou apenas cristalizações em formas diferentes. Hesita
no acto supremo de aniquilar a última rosa.
Tudo o que não foi extinto no mundo existe agora numa única
praça, a cólera e o povo, o mágico e a rosa. Para
as gerações que hão-de vir resta o mágico
por trás de uma rosa, e a multidão para povoar a solidão
do mundo.
|