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O carteiro electrónico de L.
Artemisa, nome
de guerra ou código de rebelião, sempre cumprira o destino
das suas convicções, mesmo por entre a contingência
dos acasos. Decide, assim, responder àquele que assina com a
letra 'L', e que talvez seja Luís, Leonardo ou nem uma coisa
nem outra. Que importa um nome?, pensa Artemisa, enquanto inicia a sua
prosa. Que nome temos? Que nome usamos contra a usura dos tempos?
'Caro L., recebi certamente por engano a sua mensagem, que muito provavelmente
se dirigia a alguém cujo endereço-mail deve ser parecido
com o meu. Porém, e pedindo antecipadamente desculpas pela intromissão
peço-lhe que me escute'.
Artemisa esforça-se para que a prosa evite sortilégios
desnecessários. Tratar-se-á de uma mera brincadeira, dessas
brincadeiras que trespassam todas as formas de comunicação
humana? A vida é séria demais para que não possamos
brincar, e a realidade é tudo o que sentimos, e da forma como
sentimos para além dos sentidos. Em verdade ou em mentira, tudo
é virtualmente real e realmente virtual. Artemisa aprendeu a
brincar com as palavras.
Apelidamos de realidade uma manhã de sol, um pássaro ou
uma árvore, mas a beleza disso tudo está no íntimo
de quem passou uma noite sossegada entre lençóis. Para
o alucinado sem sono o sol pode parecer uma infâmia, um anúncio
da crueldade de tudo, das cidades e dos jardins, dos pais e chefes-de-família
e dos publicitários. Tudo tem a mesma marca, a ditadura das rotinas
que também se erguem invioláveis e certas pelas manhãs
como o sol e os pássaros...
'Deixe-me entrar directamente no assunto, sem pretender constituir-me
como seu carteiro electrónico ou confidente interina. Certamente
escreveu para quem diz estar totalmente incontactável, conforme
refere. O senhor L. (tenho que o tratar desta maneira), espera ser lido
pela sua amiga quando esta regressar de férias, e então
será tarde demais, como muito bem sabe. Perdoar-me-á,
desta maneira, a impertinência de lhe comunicar que se enganou
no endereço da sua querida destinatária. No entanto, não
posso deixar de aproveitar este delicioso logro para lhe transmitir…'.
Artemisa hesita. O que deve transmitir a um desconhecido? Retira 'este
delicioso logro'. Reescreve 'este seu engano'. Sublinha 'como muito
bem sabe'.
'… para lhe transmitir o quanto persistem razões de vida. Creio
sinceramente que deve reconsiderar a data anunciada do seu suicídio
para a terça-feira da semana que vem. Em primeiro lugar, permita-me
que lhe diga, escolher matar-se no aniversário de um beijo é
um mau princípio, como se esse beijo constituísse uma
recordação horrenda. Em segundo lugar, o amor já
é uma ideia suficientemente má e triste, para quê
acrescentar a esse seu amor os danos irreversíveis da morte e
da culpa? Antes estivesse apaixonado e sentisse o esplendor de um simples
olhar, pois o amor traz amarras demais que despedaçam qualquer
capacidade humana de sonhar'.
Já chega, pensa Artemisa, ou devo insinuar algum delírio
de sensualidade? Um homem tem que esperar o momento da sua corte libidinosa,
é isso que ainda os faz viver em secreto triunfo.
'A terceira e última razão para, pelo menos, adiar a data
desastrosa do seu suicídio tem a ver com a faculdade de eu o
querer conhecer, pessoalmente. Por ironia do destino, a sua mensagem
cativou uma jovem alma feminina. Se o senhor está disposto a
matar-se seguramente que (me) suportará'.
'Alma jovem', Artemisa medita nesta expressão sem sentido. Como
pode uma alma ser jovem, se sobreviveu a tantas ignomínias humanas?
Provavelmente após tanto tempo (milénios de mortos povoam
a terra e os céus) ninguém pode empregar a expressão
'alma jovem'. É tudo tão perto e inacessível, como
no tempo em que se divorciou e escandalizou os amigos... 'Quando eu
tinha saúde', pensa Artemisa.
Ri de forma bárbara e genuína. 'O senhor L. não
merece conhecer uma mulher careca'. Ainda ri, quando de forma trémula
e acossada pelo cancro, pressiona a tecla de 'enviar mensagem'.
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