Um homem não tem salvação
no mundo dos batráquios

Sempre pelas manhãs ele regressava ao mesmo lugar. Parecia sorrir para o mundo, apesar da sua cegueira e tristeza. Decerto não acreditava que não houvessem outras cores: julgo que todas as coisas tinham para ele a intensidade do amarelo.

Feria com sua bengala os espaços vazios, mas sabia da existência do lago pelo testemunho das rãs que se lançavam às águas ante a proximidade dos seus passos desajeitados. Quando o fiz segurar uma das rãs confessou-me que a viscosidade da pele arrepiava-o. Não se imaginava a pintar uma rã. Por isso seus pincéis reproduziam na tela pássaros de muitas cores, apenas as flores grandes eram amarelas, e as nuvens prateadas. Contudo, duvidava sempre de sua obra como de seu nome. Não podia assinar, porque refutava essa herança que nos prende à humanidade desde o baptismo. Por felicidade tinha esquecido a casa paterna e todas as mortes que um nome familiar pode conter.

Aceitou, por desprezo, cumprir um destino comum ao lado das rãs que detestava. E mesmo naquela manhã, em que rogou que o afogasse, não conseguiu lembrar-se de uma carícia de sua mãe. Por muitos outros motivos esqueceu o passado.

Mas antes de submeter-se ao martírio, entre aves exóticas e flores amarelas inventou um nome para si no fundo da tela.