No sótão é mais perto do céu


Cansado da vida, como só um poeta sabe ser, Alexandre deixa-se conduzir para um jogo alucinado sobre o tempo. O que conta é a tua imaginação, segreda-lhe Marta enquanto sobem para o sotão. Por diversas vezes Alexandre aludira à curiosidade de regressar, por breves momentos que fossem, a tempos antigos onde as guerras tinham todo o sentido das palavras proibidas: futuro, humanidade, fraternidade! Estranho falar-se assim de uma guerra, mas as palavras eram, naquele tempo, uma frente de batalha.

No sotão, Marta, ainda fascinada pela sua audácia, reserva para Alexandre o segredo de todos os passados recentes. Espera, brada ela, não abras ainda os olhos! Vou contar até vinte, como as crianças que jogam às escondidas. Um, dois, três... vinte! Vê como o tempo está de novo suspenso da palavra, da tua palavra! Alexandre abre os olhos no mesmo instante em que a froixa luz de um candeeiro ilumina uma velha máquina de escrever. A mesa é de madeira autêntica e a cadeira aparenta mesmo um desconforto antigo. Senta-te, pede-lhe Marta, e escreve um poema sobre a guerra, a tortura das consciências, a frente comunista em Espanha, a derrota da irmandade dos povos. Essa guerra já acabou, confessa Alexandre, e perdemos. Está calor neste sotão, diz para se distrair.

Marta quer continuar a surpreender o velho escritor: vou ligar isto! A ventoinha tem um ruído monótono, diz, uma cadência certa que faz enlouquecer os sentidos. De facto, é quase um milagre que ainda funcione. Bem, abandono-te à voragem do século que te viu nascer, lembra-te que estás incomunicável num pobre sotão, agora podes ser outra vez escritor. Alexandre lamenta-se: já não sei escrever com palavras, as palavras estão tão gastas! Não, revolta-se Marta, as palavras têm agora de novo o seu fulgor exacto, a guerra sobre a qual escreves não tem importância alguma, demasiados mortos aguardam de ti a palavra correcta e justa!

Mas eu já não sou poeta, e Alexandre aproxima o rosto de Marta, repara como envelheci! Acaso te secou o sangue nas veias? Acaso o mar aquietou as marés com o tempo? Não sabes da vingança dos vulcões extintos? Alexandre não se comove com a imaginação de Marta. Convoca as musas perdidas, as tempestades dos céus, mas descobre a palavra que os soldados cumprem no último suspiro, que os seres exalam quando os lábios calam, qual é essa palavra?

Essa palavra não existe, diz Alaxandre abandonando-se como pode na cadeira desconfortável, alguns dizem minha mãe, outros meu deus, mas julgo que vai dar ao mesmo, e outros menos dados a místicas dizem asneiras ou simplesmente sentem pena por morrerem sós e dizem acudam, não me deixem morrer assim, ou digam à minha família que...

Nas trincheiras há milhares de ratos, diz Marta em pleno delírio, e olhos humanos espreitam os mudos ceús, tantos deuses e todos mortos! Todos mortos, avança Alexandre, e por isso de nada serve escrever um poema, é como julgar que o planeta gira com a força desprezível do nosso passo, já tentaste? Pára de andar e o planeta continua a girar, nada depende de ti. Marta senta-se na borda da mesa, provoca o poeta que deixou de ser: onde está a palavra, a senha que há-de estacar os exércitos, que há-de corromper a ira e refazer os laços de amizade? Não sei de que laços falas, nem que amizade é essa, tudo são sentimentos inventados e amamos a paixão para aliviar a rotina, para encantar as nossas vidas que são o nada e o nulo somados com coisa nenhuma.

Marta beija Alexandre pela primeira vez desde que se conheceram, há trinta anos atrás. Nunca fui tua amante, por isso podemos falar à vontade. Se mais tarde escrever sobre este dia, diz Alexandre, nada direi sobre estes anos que passaram, para que os leitores continuem a atribuir-te um corpo belo e jovem. Este beijo é breve, como a vida, concluiu ele ou ela, não sei qual dos dois arriscou colocar o epitáfio sobre aquele momento mágico.

É improvável que a palavra milagrosa tenha sido descoberta naquele dia. Nenhum poema tem o efeito inesperado, e a guerra continua.