Orfeu ou o paraíso distante da música

Um homem corre para apanhar um navio, atravessa as ruas duma forma desastrada, pautas e notas musicais esvoaçam entre os semáforos. Um homem corre e tem o corpo manchado de suor, um ácido quente arde-lhe nos olhos. Este homem é o maestro. Ele corre para o navio que vai partir e sente o tempo esgotar-se, o mundo é um destino tarde demais. Mas o homem não desiste, a sessão municipal vai iniciar-se e é a vez do maestro alienar a música em favor da política. Que tem um maestro para dizer a uma assembleia de políticos? Que tem um homem para falar?

A mulher saiu mais cedo, cumprimentou a tarde luminosa com o sorriso habitual, comprou um presente para o maestro, uma pequena lira de oiro. No navio senta-se à janela, no lugar do costume. Chama-se Eurídice. Mas o homem não a pode ver. O maestro nem repara nos rumores da tarde, no vento que varreu as suas pautas de música, no bramido dos deuses sobre os céus ou nos últimos pássaros regressados das margens. O cais está longe. O homem tem o nome de Orfeu, e isto é certo ou julga-se real.

A mulher olha para o cais, invertendo os desempenhos mitológicos dobra-se para a retaguarda, assegurando-se que o homem que corre ainda conseguirá apanhar o navio. O homem exausto chega finalmente ao cais, mas os portões estão fechados. O navio parte e o maestro permanece, o coração a explodir, o discurso para a assembleia perdido como a música que não há. O homem que agoniza vê o navio partir e o aceno desesperado de Eurídice. O maestro que morre olha para uma plateia receosa e estupefacta. Os homens nunca entenderam a morte. Durante horas o corpo de Orfeu, coberto por uma manta, aguardará o delegado público e a confirmação do óbito.

Eurídice deixa cair às águas escuras a lira de Orfeu. A lira perder-se-á para sempre no fundo do rio. Eurídice chegará atrasada à sessão, assaltada por maus pressentimentos. Recolhe o comunicado do Partido à chegada. O comunicado tece já louvores ao homem que morreu.

à memória de Jorge Peixinho