 |
A teoria da cristalização cósmica
(chystallu universalle)
Nils Hoorg. é um cientista de boa reputação em
vários domínios do
saber, desde a astronomia às ciências dos fenómenos
mais intangíveis
e que apenas encontram ilustração na psique dos indivíduos.
É um
agitador por natureza, defensor em centenas de obras afamadas de um
novo paradigma da complexidade científica que tenta compreender
o
incomensurável e unir as pontas das realidades mais distanciadas:
o
cosmos, absurdamente tido como infinito, e a psique humana, o que de
mais íntimo e ínfimo houver das consequências da
nossa existência
humana.
Com
frequência e veemência, apenas toleradas a um cientista
de
renome, Nils Hoorg. discursa para os meios de comunicação
social,
onde é zelosamente traduzido da aspereza da sua língua
nórdica (Nils
Hoorg. quase sempre se recusa a falar em inglês ou francês,
«essas
línguas com que os falsos eruditos disfarçam a sua barbárie!»).
Nils
Hoorg. refuta em absoluto a teoria do big bang - insiste em apelidar
esta teoria de «grande estrondo», na sua língua de
origem. Esta
teoria baseia-se numa suposta explosão primacial e defende, por
consequência lógica, que o universo se encontra em expansão.
«Mas
expansão para onde, se o tempo provoca por natureza a rigidez
das formas e o encontro com a morte?», grita Nils Hoorg. nas suas
inúmeras conferências, insinuando-se em descrições
sobre a perda de
velocidade da luz, os buracos negros e a tendência geral para
a
fixidez estrutural, mesmo que o universo esteja ainda em
movimento, «um dia isto tudo vai parar!». E remata com ironia
para
uma audiência de jovens universitários e gentes de diversas
profissões: «a teoria do grande estrondo, ou a ter acontecido
esse
big bang, apenas poderia provar duas coisas: a surdez de Deus e,
também, a sua inabilidade científica!».
Em
virtude dos tradutores atarefados, nesta sala holandesa de
conferências onde agora me encontro, eu sou testemunha da tremenda
influência que Nils Hoorg. exerce sobre as audiências, pela
beleza e
congruência do seu discurso e não só. Ei-lo que
na sua gordurenta
massa desce neste momento para junto das primeiras filas da
audiência: solicita a gente anónima que lhe desenhe um
cristal.
Triunfante e feliz, regressa ao pódio onde a sua voz troante
anuncia: «fizeram outra vez o mesmo desenho triangular e estúpido!»,
ri-se a ponto de enervar a audiência e confundir os tradutores,
mas
logo recupera a serenidade para enfatizar o seu postulado sobre a
perinormalidade psíquica: «a mente comum pressente a tragédia
cósmica, também as pirâmides do Egipto tinham esta
forma e eram
formas de prece e cemitérios que acusavam os céus!».
Parte
da audiência emudece e a outra parte começa a retirar-se
refreando o pânico ou o riso, duas formas de escapar ao confronto
com
a realidade que Nils Hoorg. insiste em sufragar do alto da sua
cátedra. «O universo está a contrair-se, e vai formar
arestas, planos
e pontas, apenas o nosso inconsciente pode registar esta ameaça
por
um qualquer mistério psíquico ou divino, de qualquer maneira
já todos
perceberam que as gerações vindouras estão condenadas!».
Nils Hoorg.
disserta assim sobre a parte mais controversa da sua teoria, com
cuidada teatralidade (porque a ciência é sobretudo uma
forma de
linguagem e de manipulação do real).
Continua
a discursar sobre o paradigma da complexidade e de como tudo
está ligado a tudo numa teia universal que tende para a extinção.
Neste ponto, sou forçado a admitir que esta oratória me
perturbou.
Saio apressadamente da sala já quase vazia e telefono ofegoso
para a
redacção do meu jornal: «ele diz que as pessoas
desenham os cristais
daquela forma, um acto tão compulsivo como inconsciente, e que
o
cosmos vai ficar pontiagudo a cravar-se sabe-se lá onde! Diz
que o
cristal cósmico é o fim da humanidade e do universo, mas
da morte de
tudo emergirá um outro universo e até um outro Deus mais
sábio
cientificamente e sem remorsos pelo disparate que este fez!».
|