A luz corrompe as crisálidas


A mudança da forma designa-se por metamorfose. Orlando recorda as lições do velho mestre, enquanto observa as mariposas que saúdam o sol e os aromas das flores. Apesar do colorido e da atmosfera de luz, a vida revela um saldo trágico que Orlando pesquisa no voo das mariposas. Voos errantes e breves. Também o tempo dos humanos é composto por trajectórias silenciosas em espaços definidos. Existe o lugar em que tudo é doméstico e privado, e os sítios onde se trabalha, os locais de convívio e os destinos de fim-de-semana. Círculos desenhados ou estruturas do caos definidas pelos séculos ou o gosto popular do grotesco. Tudo se reproduz e a maior parte do tempo é passado, Orlando conforma-se às teorias da evolução ensinadas pelo velho mestre. Mas o passado de Orlando é habitado por constantes sobressaltos, horas povoadas de medo.

Recorta-se contra o fundo da memória as figuras iradas das gentes perseguindo Madrigal no adro. Apedrejada até à morte nunca alguém da aldeia foi acusado pela morte daquela a que chamaram de bruxa. Contam que o padre atiçou parte da população contra Madrigal, porque ela era bela e o tinha recusado um dia. Lendas que o povo inventa para confirmar quem é da terra e quem é não é, pois estas lendas continuam a unir, sob o luar limpo de Verão, homens e mulheres num tal enxame de vozes que veda o território aos estranhos. Orlando aprendeu, assim, a respeitar a opinião colectiva que se diz e não se discute, provincianamente convencido de que a força está no que perdura e vence o remoinho dos tempos.

Orlando tem que distrair a sua memória. Enquanto aguarda o velho mestre, entre as flores, Orlando lembra ainda os rios tingidos e povoados com espessas bolhas estranhas. Tudo isto acontecia por culpa das fábricas de lanifícios, sabe Orlando tão bem como tem ainda dentro da cabeça o ruído de centenas de teares mecânicos. Por isso lhe parece mais belo este dia de sol em que mariposas e insectos desafiam a existência. Alguns tipos de insectos vivem apenas um dia ou o tempo suficiente para a reprodução. Embelezam-se e morrem, é a lei da natureza que não se compadece com mais artes de sedução. Nenhum insecto é capaz de compor uma poesia ou de racionalizar sobre o estado da natureza selvagem. Nem mesmo a mais colorida mariposa sabe o que é a arte ou a simetria das manchas que cobrem as suas asas. Nenhum animal, enfatiza sempre o velho mestre, tem a liberdade sexual que desfruta o ser humano. Nenhuma espécie aceitaria esta situação insólita que é a pura paixão pela beleza, sem o propósito do acasalamento e da reprodução. Por isso o velho mestre ama-me, pensa Orlando, porque sou um testemunho vivo da sua liberdade.

As vaidades corrompem os meninos bonitos, diziam na aldeia distante. Vozes perdidas que já não cerram fileiras em redor de Orlando. Vozes de assassinos, de Madrigal e de toda a beleza. Que fizeram com a minha mãe?! - grita Orlando entre as flores e os insectos, no momento em que o velho mestre desce a escadaria do seu jardim e vem consolar Orlando dos pesadelos de infância.