A teoria do caos


É noite. A pele encrespada do rio denuncia a aproximação dos ventos. O poeta colecciona na margem paisagens de zinco e mariposas com asas de chuva, jornais com palavras esventradas ou veias alucinadas de mártires, tudo se confunde na sua cabeça. Pássaros refugiados em luas frias, postes de rede eléctrica e prostitutas com lábios de papoila, atmosferas de maçã e as cordas retesadas dos suicidas.

Quantos poemas vale um desejo ou uma canção desesperada? Eu sou um poeta, dizia, um traficante do amor. No alto da avenida ela devia tocar piano, na grande casa abandonada. Na sala destinada para os adolescentes, último testemunho da luz. Quando o amor não conhecia fronteiras éramos jovens, assim, com uma venda de seda nos olhos. Haviam muitos corpos, cinturas e redutos cegos, ele acariciava os cabelos de E., conhecia-a quando ela o segurava por uma mão e lhe mordia devagar os dedos. Ele percorria o seu corpo, premia os lábios contra os mamilos de E., deixava-se escorrer lentamente abandonando-se no ventre e entre as coxas, essências de vida.

Sabes como gostamos, convidava ela docemente e recusar seria uma ofensa. Nada de ciúmes, banimos a propriedade privada das almas e dos corpos, somos livres sem o erro de vigiar os afectos. J., o poeta, escutava a canção que nunca saberá reproduzir. De olhos vendados sabia que E. o amava, conhecia-a pelo aroma dos cabelos e das coxas e a macieza dos lábios. Manhãs subterrâneas respiravam na ponta dos dedos, nas orelhas e nádegas, pulsações ou marés de rosa. E. sabia que J. a amava, de olhos vendados. Somos dois entre tantos, cuidado não te abandones a outro amor nesta sala.

Devias regressar para o piano e tocar Chopin sob um luar de prata, retirar a venda para olhar tantos corpos nus inventando o amor na rendição dos afectos. Todos jovens e sem destino. Jovens sem nome, com excepção de E. e de J., que se tinham nomeado para o breve êxtase do sexo. Ainda fazemos amor, diz E. para J., ela sentia por mais tempo a ternura por ser mulher. Qual o teu nome verdadeiro? Não sei, brincava ela, e ele troçava inventando outro nome. Cuidado não te percas nesta sala, não te percas no amor com os olhos vendados.

É noite. A pele encrespada do rio denuncia a aproximação dos ventos. Tudo se confunde na cabeça do poeta: hordas de pássaros e pianos fechados. A paixão seria perfeita se não deixasse memória.