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História lusitana da traição
Solitário
no seu posto, o guerreiro observa a água que brota misteriosa
por entre o granito. O guerreiro recorda a deslealdade de Sérgio
Galba, o tremendo morticínio daqueles que confiaram na palavra
dos romanos e se ofereceram desarmados para um suplício insuspeitado.
Os mortos nunca mais regressam, lamenta-se. Onde estão os seus
precursores, quem ouve ainda os ecos da batalha de Ocilis e os chacinados
de Galba? Mortos, todos mortos, pensa o guerreiro. No vale que o guerreiro
agora observa a luz é de amêndoa, a luz lá ao fundo,
para onde as águas correm. Para onde vão os mortos?
A traição faz mover o mundo, ou a vingança. Três
anos após a chacina de Galba, o pretor Vetílio negociou
a paz da consciência romana em troca de terras. Viriato, liderando
hostes sanguinárias e eleito em nome da vingança de Galba,
prendeu e matou Vetílio atraindo-o para uma cilada sob mudos
céus nos desfiladeiros de Ronda. Sucessivos chefes militares
romanos, Caio Polâncio, Cláudio Unimano e Caio Nigídio,
e incontáveis legionários conheceram o desespero da sua
espada e a indiferença da sua ira. Mil fascios e togas coloridas
Viriato colocou sobre os montes como símbolo do seu destemor.
Não há outra razão para viver ou morrer.
Apenas a lei natural do sangue, da espada ou também (quem o saberá?)
a lei da paixão. A paixão é a outra força
telúrica que deve homenagear um guerreiro, um arrebatamento idêntico
à loucura das batalhas. O dote da filha do rico Astolpas não
seduziu o guerreiro, mas a sua beleza por algum tempo o fez hesitar
da razão das guerras. Serviliano, o novo cônsul, quase
venceu as tribos lusitanas. Viriato humilhou o cônsul, mas longe
da ânsia sanguinária de outros tempos e da glória
da guerra deixou-o regressar a Roma com a ventura de um armistício.
Apenas por breves instantes, nesta vida, se pode duvidar da inevitabilidade
da guerra ou do ódio. Um homem pode deliciar-se com o amor e
uma terra plena de amendoeiras, mas a guerra transforma um pastor em
herói, em dono do seu destino e de vastos territórios.
O tempo é que não pode ser vencido nem se podem vergar
os horizontes da traição. A vida corre sem retorno como
as águas que se perdem sob o olhar do guerreiro.
O pastor Viriato encontrou hostes mais sanguinárias que as suas,
e abandonou a Andaluzia derrotado por Cipião, irmão de
Serviliano, daquele cônsul a quem tinha perdoado não ser
um vencedor. A paz seria possível se os assassinos se reconhecessem
mutuamente, e entre si perdoassem o facto de viverem. Viriato, o pastor
e caudilho, julgou ter dado o seu testemunho. Mas o guerreiro está
cansado da guerra, no momento em que começa a perder as batalhas.
Viriato aguarda a sua derradeira hora com a certeza de quem não
tem um reino para perder, mas o fascínio das pedras e o mistério
da água. Deverá esperar a noite? Adormecer, para facilitar
a tarefa de seus companheiros? Contempla ainda as águas quando
três companheiros o rodeiam. "A vida é como um rio
que não se sabe para onde corre", afirma Minuro, o primeiro
a aproximar-se. "O sol é uma lágrima dos deuses",
diz poeticamente Andas, o segundo companheiro que o cerca. "A luz
sobre as amendoeiras guarda o segredo do nosso nome", diz finalmente
o terceiro, Ditalco.
"Amigos, não saberei dormir para aplacar o vosso medo, não
estamos todos cansados da guerra?", exclama Viriato. "Estamos
cansados da guerra, devias ter-te dedicado aos teus rebanhos, não
passas de um pastor", respondem os três companheiros. "Para
onde vão os mortos? Nisto meditava eu há momentos",
confessa Viriato. "A morte é um grande rio por entre as
estrelas, um leito negro, agora mesmo o saberás", acordam
os três companheiros e Viriato não oferece resistência
aos punhais dos seus amigos.
É tradição antiga que um conto lendário
deva ter uma moral. Os lusitanos dizem ser um povo de poetas, porque
a poesia os distrai do remorso de serem assassinos sem escrúpulos.
A poesia serve para ocultar a mesquinhez e disfarçar, para todos
os séculos, a vergonha daqueles que matam o seu semelhante.
a João
Ameal, que escreveu com as cores do poente
a História de Portugal e a derrota de Viriato
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