 |
O matador de coelhos
António
Arsénio de Sousa recorda a sua juventude feliz e provinciana,
na grande casa da vila. Lembra-se dos longos concílios familiares,
aos Domingos. Apesar da sua condição burguesa e esmerada
educação católica abandonava a sala sem explicação,
por entre tios boquiabertos e primas enternecidas. Descia então
a comprida escadaria de pedra e misturava-se com o velho Abel Pirralha,
fiel servidor da família e que cuidava do jardim e da criação
de coelhos. Era o momento mais aguardado pelo jovem António,
o instante crucial, a fina película que separa a vida da morte.
Sem palavras, o jovem António agarrava um coelho e exibia-o para
Abel como um trunfo necessário duma estranha camaradagem entre
criado e filho do patrão. Os dois envolviam-se então numa
secreta orgia de morte, o coelho era amarrado pelas patas traseiras
a um arame da roupa e ficava assim, de cabeça pendente, durante
algum tempo. Ambos procuravam então entre a madeira o instrumento
certo e derradeiro do ofício, o coelho deveria sucumbir com um
único golpe misericordioso.
António Arsénio recorda com um rigor místico aquela
manhã. Abel, temendo que o jovem ainda inexperiente não
executasse com mestria o único golpe necessário e fizesse
sangrar o animal, sugeriu inesperadamente que se utilizasse um plástico
como meio de asfixia e de morte limpa. O jovem António ainda
se lembra das palavras exactas, contraditórias e incipientes
de Abel, ainda o sol não se tinha erguido completamente sobre
as laranjeiras. Uma sentença breve e emocionada (como poucas
Abel terá pronunciado na sua existência): 'porque a natureza
é feliz, a morte tem que parecer autêntica'.
Mas o jovem António gostava de sentir a atmosfera entre a vida
e a morte como um ritual antigo, disfarçava sempre uma ordem
em súplica inocente: 'deixa-me ser eu, já aprendi a matar
e não foste tu que me ensinaste'. As primas Anastácia
e uma outra mais jovem ocupavam o seu posto na estufa onde se guardavam
flores e pássaros, costumavam observá-lo da janela por
entre corolas amarelas, e admiravam-no por ser um 'matador de coelhos'.
António tinha crescido, a sua destreza e força tornara-se
mais apurada e exigente. Repetia para si mesmo 'eu sei como se faz,
a morte autêntica'. Então começou por asfixiar o
velho fiel seu criado com um saco de plástico. Enquanto Abel
se contorcia António desferiu-lhe um único golpe impiedoso,
a cabeça da vítima baloiçou com a violência
do impacto e o jovem sentiu nessa manhã o domínio sobre
os seres e as coisas e o êxtase do dever cumprido.
Destinou-se ao velho Abel uma morte descuidada, sob a verdade das escadarias
de pedra. António de Sousa recorda tudo isso, enquanto afaga
os cabelos da filha. A filha interroga-o sobre os coelhos, a propósito
de um trabalho escolar: 'pai, os coelhos reproduzem-se muito, não
é?'. António recuou para aquela manhã de sangue.
Casou com a prima Anastácia que espreitava por detrás
das flores amarelas, a outra enlouqueceu para vergonha familiar e o
seu nome, como o do criado, foi esquecido para sempre.
|