Os predadores


A chuva devia restituir à cidade o privilégio do sonho e do mistério, os seres tornam-se afavelmente solidários sob uma pequena intempérie. Mas na avenida vislumbram-se apenas corpos apressados, homens e mulheres que se refugiam sob os toldos ou correm para dobrar a esquina ou desaparecer nos subterrâneos. Abrigos subterrâneos, é isso que Isaura pensa sobre as entradas para o metropolitano. A chuva convida-a à poesia ou ao delírio, ninguém pode estar inocente nem a cidade ocultar as marcas da guerra. Os predadores lá fora conquistam todos os direitos ao prazer supremo e à felicidade. Isaura não esta só com estes pensamentos, na mesa ao lado, por exemplo, os jovens devem ter suspeitado algo.

Isaura está de ombros curvados, disfarça o riso ocultando-o atrás das mãos. Não consegue articular as palavras certas para pedir um chá, um chá chamaria muito as atenções. O empregado aproxima-se e Isaura ri-se distraída com a música, a música que Isaura guarda dentro de si. O pé marca um ritmo qualquer, um gesto que se repete, o empregado afasta-se felizmente, o dono do café não quer escândalos com os clientes.

A toalha sobre a mesa é branca, e pendem flores bordadas nas pontas. Isaura sente a textura dessas flores, nós pacientes de linho sob os seus dedos esguios, afaga as pétalas do que deve ser uma rosa. Os jovens parecem mais desconfiados e o empregado observa-a desde o balcão. Todos os seres são predadores, ou não suportariam a insensibilidade do mundo.

Deveria amanhecer lá fora, uma manhã clara sobre os montes, o orvalho iluminaria as teias de aranha entre os arbustos, labirintos de luz descobertos para a novidade do sol. Sim, Isaura compreende a magia do orvalho e tem estudado longamente as teias de aranha. Naquela manhã, longe dos predadores, deveria caminhar serenamente ao longo das margens como quem entende a magia da criação.

Mas os jovens da mesa ao lado inquietam-na com o ruído de um olhar reprovador, os olhares povoam a atmosfera como insectos atrás de si, Isaura protege a nuca. Sai para a rua disfarçadamente, o rosto inexpressivo, eles não vão perceber. Assim deve Isaura imaginar o seu rosto, como uma rosa branca de linho.

Refugia-se no abrigo subterrâneo. Basta uma pequena vontade, porque vigiam-na nos pensamentos. Sente ainda a multidão, dedos e olhares de espanto. Isaura enganou-os… não caminhou serenamente ao longo das margens. Isaura disfarçou-se com o silêncio dos náufragos, ainda o mundo não sabe calar um coração extinto.

(à memória de T.C.)