O cego de Landim

O evento inscreve-se numa tarde calma. Em Agosto do ano de 1863. O escritor, olhando para o canapé do seu escritório pressentiu, não sabe porque razão, que alguém o iria visitar. Folheou alguns livros, por casualidade de cegos por excelência e de histórica publicidade, confessaria mais tarde. Obras de Tobias, Homero, Milton, entre outros. Naquela tarde, os velhos pinheiros cercavam a casa sem surpresa nem alarde. Levemente agitados pelo vento, não eram figuras ameaçadoras como num outro tempo e lugar Macbeth temera. Por ironia natural e sem atender à dramaturgia erudita, o escritor registaria aquela paisagem: 'pinhais gementes que, sob qualquer lufada, desferem suas harpas'. Que interessava o fulgor das palavras ou o uivo dos céus? O canapé continuava vago, aguardando a visita. Tudo ou nada seria revelado naquela tarde.

Um pêndulo de prata marcava na sala a intangível realidade do tempo. Talvez o relógio não existisse. O escritor, naquela tarde, começou a duvidar até da sua própria existência. Há demasiados mistérios por compreender quando não se escreve. Alguém deveria suprimir as distâncias, naquela precisa tarde de Agosto de 1863. O escritor tinha quase a certeza do seu estranho encontro. Exigiria para si próprio o momento solene de todas as revelações. Estava cansado de fingir. A vida tinha reconquistado o tédio de coisa nenhuma e, no entanto, aguardava ansiosamente a visita. A última vibração da esperança ou a promessa da pólvora. Quem se aproxima providentemente, para visitar o escritor?

Um homem trajado de negro. Cego. A casaca abotoada comprimindo as espáduas largas e o estômago dilatado pelo álcool. Um semblante anafado, anotará mais tarde o escritor. O cego entrou no escritório segurando as luvas amarrotadas e o castão doirado de uma bengala. Entregou um bilhete. Muitos anos depois deste episódio o escritor haveria de recordar: 'em S. Miguel de Seide, uma visita, que se fizesse preceder do seu cartão, era a primeira'. O bilhete indicava, sem qualquer dúvida, o nome do cego.

O cego anunciou-se então de viva voz, não repetindo o nome do cartão exibido, nome que talvez até desconhecesse: 'quem sou eu? Sou o cego'. Sentou-se como se adivinhasse o seu lugar. Tinha enriquecido com o crime, e na história longa da sua vilania salientava a emissão de moeda falsa e lamentava apenas a cegueira, resultado de rixas por razões políticas no Brasil, quando era jovem. Lamentava ter sido jovem duma forma tão breve, pois depressa aceitou que o amor era uma questão de matrimónio e também de enriquecimento. Falava pausadamente, sem remorso ou emoção. 'Queria compreender', continuou, 'como um escritor vai parar a uma cadeia, por amor'. 'Como é possível', enfatizou delicadamente, 'sofrer-se por amor a ponto de se ir preso ou de se escrever com fúria um romance em quinze dias?'.

O escritor, surpreendido pelo discurso do cego, permaneceu em silêncio uns instantes, abandonando um livro de que não recorda o título. 'Conheço todos os seus romances e não compreendo', continuou o cego. 'Leram-me os seus romances, e ouvir um romance seu é a única forma de não planear um assalto'. O escritor talvez se tenha sentido lisonjeado, e sorriu porque a vaidade não se pode evitar. 'Se ouviu os meus romances sabe que amar é um acto de perdição, quando o amor não se perde perdemo-nos nós'. 'Sim', atalhou o cego, 'quando se ama perde-se sempre, trair é a única forma de adiar o desfecho final. Mas o desfecho final é sempre a morte, até um escritor não o ignora'. 'Falemos então sobre a minha morte', parodiou o escritor, 'dizem que os cegos tudo sabem'.

O cego mostrou-se pela primeira vez irritado, as mãos crispadas sobre a bengala. O escritor espantou-se com a sua determinação e a alvura de um olhar cego. 'Os comboios são a imagem do progresso e levam muitas gentes para trabalharem, mas a si hão-de trazer-lhe a cegueira e nunca aprenderá a arte da minha resignação'. Recuperado, o escritor riu-se como quem se julga imune aos comboios e às glórias do progresso. 'E que morte me espera depois da cegueira?'. O cego recolheu o seu bilhete (e talvez não soubesse mesmo o seu nome). 'Se nos suicidássemos esta tarde responder-lhe-ia depois'. Partiu misteriosamente. Durante alguns anos o escritor não voltaria a pensar na revelação absurda. Até que, de forma irrecorrível, um acidente com um comboio o cegou.

Conto baseado na 'novela do Minho' com o mesmo título, de Camilo Castelo Branco