Tortosendo,
ano X do fascismo, dia Um de Maio



I

Nas ruas desertas e silenciosas parece Domingo. Poderia ser Domingo. No entanto, há um silêncio tão grande no mundo que não se pode sair. E a luz queima, é verdade. É preciso não cair nessa cilada que é a luz. Ao virar a esquina todo o meu corpo se transformará numa labareda única - não dormi esta noite. Os olhos são chagas vivas. O mínimo gesto me denunciará. Enfiar as mãos nos bolsos pode ser uma provocação. Não é Domingo. Se ao menos soubesse sorrir sairia de casa sem levantar suspeitas. Mas não aprendi a sorrir. Julgar-me-ão perigoso por não saber sorrir!
O melhor é permanecer assim, com o rosto colado ao vidro - e esperar. Porque não saio para a rua fingindo nada saber? Nenhuma sirene tocou e estou de pé como se ouvisse uma outra sirene, para além do horizonte. Como se uma sirene fosse um motivo para a minha existência.

Todos à Ponte Pedrinha! A seguir, para a Praça - a cantar! Sim, homem, a cantar! Não somos ladrões - que mal fizemos ao mundo para nos prenderem? Para a Praça - a cantar!

Hoje não é Domingo, olha que hoje não é Domingo! Porque não vais para a fábrica? Ainda não se ouviu a sirene? No dia primeiro de Maio ninguém vai para as fábricas, ninguém. Olha, regressam da Ponte Pedrinha! Não ouves cantar na Praça? Que horas são? A Pide anda por aí. Todos os anos o mesmo. Não ouvi sirene nenhuma, que queres? Eu sei que hoje não é Domingo. Hoje - de certeza que não é Domingo. E tenho que sair. Para a Praça. Em direcção ao sol. Neste último século antes do homem.

Eles cantam, sem outro recurso que cantar a uma só voz com o sangue. Eles cantam na Praça, sob a ira cega das metralhadoras: De pé, ó vítimas da fome…


II

Porque estão a mandar parar o carro, pai? São polícias, estes senhores? Porque não nos deixam passar?

O senhor é o Presidente da Junta do Tortosendo? Faça favor de dizer aos operários para se calarem. O senhor presidente sempre goza de alguma autoridade. E eles a si respeitam-no. Um dia o senhor vai explicar-nos porque eles o respeitam. Mas se eles lhe obedecerem ninguém sai magoado. Já contactámos outras forças policiais.

Pai, aqueles polícias não gostam desta canção, e têm metralhadoras. Porque é que os homens cantam? Tu dizes sempre que os homens também têm medo e que ter medo não é vergonha. Então onde estão os homens que têm medo? E porque é que eles cantam? Porque é que os homens cantam?