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A
realidade é ainda uma paisagem de cerejeirasO homem tinha esperado
uma vida por aquela tarde, a luz declinada no horizonte. A colina exalava
um suor frio, o tempo não tinha importância. As cerejeiras
vergavam-se com pudor aos ventos outonais. O homem caminhava entre cerejeiras
ou na memória de outros sóis, quando era jovem, quando
era o seu tempo. Ele admirava ainda a languidez daqueles ramos, o retorno
do frio e a mensagem de cinzas, o vermelho extinto para sempre. Não
o surpreendia tudo ser real e sem corpo. Na véspera tinha escalado
a colina sem dificuldades, gritara do alto, um código sem eco.
O mundo continuava a girar, camponeses cansados regressavam, as mulheres
junto das fogueiras. As vasilhas ao lume e o vinho sobre as mesas marcavam
a presença humana. A terra estendia-se febril, ali onde o egoísmo
erguia muros de pedra. O homem podia agora caminhar sem infortúnio, enterrar os pés
e o rosto na terra molhada e sentir o suspiro da chuva como uma promessa
de loucura. Não sabia quando teria que voltar ao alto da colina
e gritar outra vez, gritar sempre, os pulmões como chagas, ainda
o homem podia caminhar. Todos o tinham esquecido, o seu nome fazia lembrar
ninguém, os dias tinham passado depressa. A luz bailava sobre
a colina, a luz ainda. Os olhos eram corolas esmagadas. E aquela dor
imaginada no joelho. A luz. Como alcançar a luz e o alto da colina?
Veias quebradas, os braços sem movimento, a luz longe demais.
E o homem tinha esperado uma vida. Ela vem, finalmente. A mulher que vem, o que espera encontrar? A mulher,
muda como antes do amor ou do olvido. O homem entre as cerejeiras não
a pode ver. Ela perde-se no caminho coberto de heras, nunca lhe perdoará
não saber dançar. Nem o amor nem o remorso ficará
para os dois viverem. Ela passa e lembra-se vagamente, antes do amor
havia vida. Desaparece no crepúsculo, a existência é
um lento martírio. Ela desaparece no crepúsculo, um rasto
de sombras. O homem que não a pode ver voltará amanhã
ao alto da colina, porque nunca se decidiu, nunca realizou a grande
viagem. A vida é longa demais para quem espera. Os dias esgotam-se.
Ainda os lábios eram doces. Como cerejas. Os lábios. Os dias acabaram. As unhas cresceram sem aviso. Como decifrar as unhas,
inúteis lâminas? O cabelo cresceu também, o cabelo
incomoda o homem, o cabelo espesso de sangue sobre a testa. E persiste
a dor, imaginada. No joelho. Amanhã é preciso caminhar
outra vez, até ao alto da colina. Talvez ela se recorde do seu
nome, a mulher amada. O amor voltará. Amanhã.
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