O último entardecer


O cortejo de inauguração estava prestes a iniciar-se. O cordão policial definia, com exactidão milimétrica, a fronteira entre a classe política dos notáveis e os outros, os transeuntes surpreendidos e a multidão curiosa. V. tinha-se acercado o suficiente para ver de perto o governante, esse homem triunfante que vinha baptizar a ponte com o nome de um fundador da nação. O nome de um fundador, um plágio sem graça de um passado que V. tinha aprendido na escola.
O governante romperá o protocolo com autoridade suprema, o político precisa de encenar a sua excelência no ardor da afectividade popular, beijará com certeza as crianças que seguram balões com o nome do grande fundador, cumprimentará alguns homens e mulheres com um entusiasmo zeloso.

O governante estará tão perto do povo que poderá sentir o suor de V., estará tão perto… V. confirma mais uma vez o saco contra o peito, ocultando os estranhos fios, um emaranhado de veias caprichosas sob a roupa. Que destinos inefáveis ou pesadelos actuais animam V. junto da barreira de capacetes azuis e de negros bastões? Que rancores ou predestinações sobre a usura do poder motivam a presença de V. naquele local, naquela tarde fria em que não chove e os séculos podem registar para sempre? Que causa maior pode defender V. do que o orgulho de uma nova ponte?

As crianças agitam-se freneticamente, ensaiam a saudação com um sorriso, os balões povoam a atmosfera de muitas cores. Os polícias aprumam-se como se fossem o orgulho de uma nação luzidia, a guarda pretoriana aos portões da felicidade, e os seus altos chapéus formam mesmo um horizonte promissor de azul. Os corpos treinados perfilam-se para separar dois mundos diferentes, mas o governante popular precisa do teatro das multidões, acena euforizante com os braços no ar, braços vigorosos, caules de pura seiva sobre os chapéus dos guardas.

Enquanto as crianças saúdam o político com hinos estudados, V. aproxima-se do cordão, V. nunca esteve tão perto da glória! Ecce homo, a verdadeira honra humana, cumprir o mandato dos céus, o último entardecer em que as fábulas regressam ao mundo para contar a vida dos homens. Mas no momento decisivo uma criança puxa pela manga de V. e diz 'desenha-me uma ovelha'. Não, esta é outra fábula. V. está muito próximo do milagre ou do crime redentor, 'encha-me o balão por favor!', insiste a criança, 'encha-me o balão por favor!'.

Uma criança falou para V., puxou-lhe a manga e V. distraiu-se ou comoveu-se traindo o seu acordo íntimo, ambas as versões são verdadeiras. E a besta acorrentada na noite ou o deus que resta, a besta acorrentada aguardará ainda o derradeiro desafio. O político segue triunfante, cativa as multidões, a polícia serve para apartar espaços e tempos cósmicos diferentes, e aquele que triunfa deve a vida a um sopro de ar.