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Um conto de Alhambra
Este homem era filho
de Muhammad IX, o surdo, senhor e sultão de Granada no século
XV. Contudo, o homem não sabia a quem atribuir a sua existência,
e o próprio Muhammad IX não conhecera o resultado de uma
noite de insónia no jardim do cipreste. A mãe deste homem
fora raptada por três soldados zelosos, que não a deixaram
sobreviver ao parto. Reinava já outro sultão, e Muhammad
IX, o surdo, já se tinha extinguido para sempre sob a verdadeira
surdez do infinito. Também os três soldados não tiveram
a oportunidade de falar ou fazer uso do seu terrível segredo. Tragicamente
falecidos numa rixa interna, a História nomeá-los-ia mais
tarde heróis de um sangrento combate contra os loucos cristãos.
Pouco tempo depois, e a verdade das guerras é dolorosa para os
perdedores, Gibraltar perdia-se para mãos católicas. A dinastia
agonizava, mas mil sonhos árabes perpetuavam-se ainda como as águas
granadinas, entre manhãs luminosas e esquinas de prata.
O único combate que restava a este homem envelhecido não
era contra o mistério da primavera, nos jardins de uma dinastia
decadente, mas contra a ignorância das suas origens. Fora-lhe confiada
a missão nobre de vigiar as águas e de preservar o que restava
da engenharia hidráulica. Talvez o novo sultão tivesse conhecimento
das origens dinásticas do pobre homem, ou talvez lhe reservasse
uma derradeira asfixia longe dos olhares e comentários da gente
comum. É certo que o homem escalava durante vários dias
as colinas, arfando e sofrendo sob a esperança de uma recompensa
para além da morte. Observava o lento degelo na primavera e seguia
depois os pequenos fios de água. Quatro cantos tem o Paraíso,
dizia com sabedoria árabe, quatro são os rios e o seu destino
é o centro de todos os lugares, a fonte de Alhambra com os seus
leões e os doze toros das tribos de Israel.
A lenda reza apenas que naquela primavera o velho homem não regressou
das colinas, e pela primeira vez na História a fonte dos leões
secou. A cidade rendeu-se finalmente sob o silvo das espadas e o pregão
de morte dos tributadores, em nome dos reis católicos. Água
e mármore não mais se confundiram, e as inscrições
doiradas na fonte e todas as metáforas do mundo desconhecem ainda
como o velho homem dirigia as águas e ordenava aos silêncios
que se recolhessem nos jardins de Alhambra.
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