Os jogadores de xadrez


Sentados frente a frente com um tabuleiro e peças de xadrez, um relógio dobrado e uma pálida lâmpada por cima das suas cabeças, Aristides Santos e Mendonça Filipe moviam lentamente as peças registando cada movimento em tiras de papel. A Lua, pálida e tímida, surgia por sobre o velho clube do bairro e percorria as ruas mal afamadas desafiando gatos e inimigos a um jogo de vida e de morte por entre outras sombras e ódios antigos.

Aristides Santos moveu a Torre com uma arrogância paciente para a primeira linha do reduto inimigo e resmungou, com desdém: 'xeque ao Rei'. Mendonça permaneceu imperturbável e nem olhou para a face sorridente de Aristides, tentando não responder a um perigo tão flagrante. Permaneceu emudecido e imóvel durante quarenta minutos, apenas traído pelo suor frio que lhe manchava a testa e esfregou os olhos num momento fugaz de alívio ao fazer avançar o seu Rei uma casa. Aristides fixou os olhos naquele Rei fugitivo, um Rei branco e tristemente hirto como uma vela de Páscoa. Em poucos segundos arrastou pelo tabuleiro o seu bispo negro, com redundância e como se aquele bispo representasse uma ameaça fálica, apontou-o na diagonal do Rei inimigo repetindo pausadamente antes de fazer avançar o ponteiro no relógio do seu adversário: 'xeque ao Rei'.

Um rato jazia na boca do felino. Este furtava-se à luz da Lua e dos froixos candeeiros públicos e desaparecia mansamente para um canto escuro, arrastando a presa, um pequeno corpo inerte. Os predadores não distinguem entre o crime, a paixão ou a fome. 'Alguns homens também não', remediava sempre o Mendonça. Entretanto, os astros moviam-se nos céus, a noite seguia o seu rumo e o mundo retomava a sua ordem, vitoriando os fortes e humilhando os fracos.

Mendonça solicitou delicadamente a sua ausência temporária para cumprir necessidades fisiológicas e inadiáveis, disse, aparentando uma calma inusitada. Levantou-se sem pressa, sorriu tempo demais para o árbitro da competição, olhou com desprezo para Aristides, pelas costas, como se o apunhalasse. Saiu em silêncio e em secreta agonia, deixando o ponteiro do seu relógio avançar inexoravelmente e sem piedade.

Abandonou a sua caneta de estimação sobre a mesa, ao lado de um Rei pálido, expectante e aterrorizado. A imagem de Mendonça a sair pela porta, libertando-se do suor com um gesto de desalento, é a última imagem que se pode guardar de Mendonça. Nunca mais ninguém soube de Mendonça, ninguém o voltou a ver nem ninguém sabe onde está. Deixou também a mulher e três filhos, a promoção certa na polícia e a casa que era da sua família há três gerações.