Pedro Romero


Escrevo de um dia que não posso precisar com toda a certeza, algures entre 1781 e 1785. Estou na praça de toiros de Jerez de la Frontera. A multidão delira com a suspeita do sangue e o prenúncio da morte na arena. O grande Pedro Romero, que já matou mais de 5600 toiros, conforme o 'diestro' jura, acaba de dar o golpe de misericórdia num toiro possante. Nesta tarde vertiginosa os gritos de 'bravo' inundam os ares de Espanha, e não só de Jerez de la Frontera.

De súbito a multidão surpreende-se com a entrada imprevista de um segundo toiro na arena: Pedro Romero está de costas para este segundo e inesperado toiro, mas a multidão grita para ele fugir. Pedro Romero, com a arte que lhe vem do ofício da morte, volteia o corpo sobre si, o suor desprende-se do seu rosto determinado, e com a espada perfura o toiro traiçoeiro numa estocada atroz e impecável que arrebatou Espanha inteira. O segundo toiro morreria, segundo dirão mais tarde as crónicas, mais depressa que o primeiro.

Dois toiros em simultâneo, uma praça, um toureiro. Este episódio só haveria de repetir-se um século depois… e seria preciso esperar outro século para que se repetisse pela segunda vez… ai! estamos sempre numa praça, encurralados entre dois mundos, duas forças brutais, e não sabemos que toiro representa o Bem ou o Mal, e qual deles merece morrer… à cautela, o toureiro deve matar os dois … e sem querer saber o que sobrevive neste mundo, se o Bem ou o Mal, a luz do dia ou as trevas, o amor ou o remorso…

Todos os dilemas do mundo se podem reduzir, afinal e como corolário filosófico, a nada, a dois toiros abatidos numa praça coberta de 'olés' e de loucos espanhóis - é verdade, há sempre alguns portugueses entre os espanhóis, mas as crónicas nunca o rezam.