A galopar, a
galopar...
Luís Nogueira (No ano da morte de Rafael Alberti)
Ao Maiakowski, quando nasci já mo
tinham levado; oito anos antes, Hotel Londres, "estás deitada na noite
como um Oka de prata, a barca tocou finalmente a margem", quem ouviu o
tiro?... Alguém disse: "mau ano para o lirismo"? Brecht? E Pessoa, a
cartilha onde aprendi a ler poesia, "dá-me daí os óculos", ali a
São Luís dos Franceses, Bairro Alto, dois passos do típico e putífero Cunhal
das Bolas. Três anos depois nascia eu: já órfão destes dois ao primeiro
vagido, fazia dezembro e era o mês de frio no tempo em que o frio era
translúcido e as árvores punham brincos de água sólida.
Depois e à medida dos dias pares e ímpares, das cantatas outonais e dos
allegros primaveris fui ficando cada vez mais órfão. Se Deus existe, que mal
teriam feito o Neruda, o Pound, o Cesar Vallejo, o Blas de Otero o Ritsos e
todos os outros? Que mal lhe fizemos nós?
Desta vez o mar de tinta negra engoliu o marinheiro em terra levou-me o Rafael
Alberti. Eu sabia, toda a gente sabia que não podia viver muito mais? E depois,
não é qualquer borra botas que alomba com um carro de quase noventa e sete
anos!
Os obituários provocam-me urticárias, náuseas, inexplicáveis tonturas, mas
alguém tem que fazê-los. De maneira que quanto mais alegres mais lindos.
Porque será que "nesta hora de dor" – é assim que ordenam as
pragmáticas – o que mais me lembra é o Alberti visceral, o poeta da
"Geração de 27" que mais rua calcorreou sem nunca perder a alegria
nem, com a dureza (Che), a ternura. Este, sei, vai tarde, eu não tenho a saúde
de ferro do Rafael.
Versos fez, deixou, ergueu. As imagens semoventes, vibrantes, escorrendo uma luz
branca de cal, a liquefazer-se em intrincados pigmentos: poemas como telas.
Aquele castelhano magnífico, caldeado no melhor do "Siglo de Oro",
palavras como palavras, entrando-se umas nas outras, transformando-se no verso
ora exacto, ora na invenção autónoma, fugindo ao abraço do inventor. Picasso
é que sabia. Na dedicatória de um livro seu a Rafael: "Do Poeta Pablo
Picasso para o Pintor Rafael Alberti". Seria porque como o outro, também o
gaditano não procurava, encontrava?
Foi-se pois o inigualável D. Rafael que de deputado chegou a ocupar o escano
que lhe pertencia por Cadiz nas Cortes e que de deputado se raspou logo que
teve oportunidade: o único dossier que soía levar para o parlatório era o que
continha os seus últimos versos, aqueles em que estava a trabalhar. Voou para
muito alto o velho anjo de melena branca e juvenil caída sobre os ombros, o
magnífico brejeiro que fazia com os amigos concursos de mijatadas, o que mandou
à merda a Real Academia (para que outra coisa servem as academias?) e,
republicano até à medula, recusou o prémio Príncipe das Astúrias. Fechou de
vez a porta sobre nós o adorável homem do boné de marujo e camisa flamante,
florida, de cantor de boleros. Que saudades. "Nunca vi Granada".
A sua partida fecha um século que foi, literariamente falando, tão espanhol
como o Siglo de Oro. Por espanhol digo língua castelhana. O século da
Geração de 27 e anterior, a de 98 que trouxe Ruben Dario, Juan Ramón Jiménez
e o outro Ramón, Valle-Inclán e Machado antes de Gómez de la Serna e Cesar
Vallejo e Lorca e Gabriela Mistral e Neruda e Luis Cernuda, Hernández, ancho
rio a desaguar no grande romance deste século: Carpentier, Arguedas, Lezama
Lima, Astúrias, Gallegos, Borges, Garcia Marquez, Cortázar e nem sei quantos
mais.
O desaparecimento do poeta que disse ao regressar à sua Espanha
(irreconhecível, monárquica via Franco) "saí de punho fechado e regresso
de mão aberta", gerou entre os que opinam nos jornais, expressões
multicores, desde o elogio baboso (coisa de que o poeta detestava) passando pelo
sereno e inteligente e pelo sinuoso "sim-mas" até à baba rasteira,
ao insulto cobarde e gratuito de que os medíocres sobrevivem.
Li um alegre artigo da sua amada Nuria Espert a quem ele sempre chamava "gitana
preciosa", uma prosa linda e nada triste de Manuel Hidalgo. Francisco
Umbral, grande amigo de copos e mijadas colectivas, refere o que Alberti lhe
costumava dizer referindo-se a Lorca: "A quién tenían que haber matado
era a mi, Paco." E de Eduardo Haro Tecglen, jornalista de jornalistas, o
que leva o título de "El que no traicionó" sobre o tempo literário,
humano e político a que pertence Rafael Alberti: "Este siglo tuvo quarenta
años de secuestro, pero la literatura española no cesó nunca. Huyó, tuvo
muertos e heridos, y encarcelados, y escapados, y clandestinos. Pero no
traicionó."
Mas também, ó deus dos vermes!, coisinhas pequeninas como a do senhor Jiménes
Losantos no "El Mundo" onde eructa uma vez por semana. Losantos, é um
desses fascistas liberais, "que los hay", de serviço ao
emporcalhamento da obra e a memória do Poeta. Sempre os houve e sempre os
haverá, cevada ao rabo. Iguaizinhos aos que bolsaram sobre o cadáver baleado
de Lorca ou sobre a negra agonia e morte de Miguel Hernandez numa prisão
franquista. Este e similares sicofantas (Ussía, Campmany...), sem aduzirem uma
prova, um papeluchozinho comprovativo, numa chacha mediática de comunicador
liberal-globalizante, atribuem ao poeta malfeitorias que vão desde a direcção
de polícias secretas durante a Guerra Civil até ao tráfico com casacos de
peles de países do Leste... só faltou falar no "ouro de Moscovo",
mesmo assim implícito no prosame desta lola flores do periodismo canalha. Que
ouro de Moscovo não terá recebido este meu cantor de boleros que teve que
pintar biombos e leques para se manter a si e à família, para pagar as
clínicas onde a pobre Maria Teresa León gastou a loucura dos seus últimos
anos? No fundo são os mesmíssimos, os que esmagaram a República ao lado dos
nazis, os vencedores da Guerra Civil, só que agora encostados ao guichet do
subsídio desta demobambochata regida pelo esperançoso ex-falangista Aznarín,
pós-graduado em democracia.
Com pedidos de desculpa pela apressada tradução dos decassílabos, deixo a
póstuma e possível resposta do poeta ao bisbórria e demais confrades:
É PROIBIDO VERTER ÁGUAS ("Homenagem a Quevedo")
Verás entre mijadas e mijadas Mais mijadas de todos as larguras Umas quantas de cães outras de curas E outras talvez de freiras disfarçadas
Vê-las-ás lentas ou precipitadas tristes, alegres, doces, brandas, duras, mijadas pois, para as noites obscuras, para as mais luminosas madrugadas.
Felizes pedras, pois quem as não rega se não padece retenção de urina não estando morto está para expirar.
Mijam as fontes... Pela luz fumega uma ardente mijada cristalina... Eu cá levanto a pata, vou mijar.
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