Do esplendor de Portugal Mário Cláudio A PEREGRINAÇÃO DE BARNABÉ DAS ÍNDIAS Lisboa, Dom Quixote, 1998
Adriana Bebiano |
A
história é contada pelos dois homens na sua velhice, no Inverno de 1519.
À casa de Nisa, onde o almirante das índias se acolhera, esquecido da
corte e imerso nas memórias da infância em Sines, chega um dia velho
pedinte. Alguma coisa no velho faz com que Vasco recomende à mulher e à
criadagem tratamento especial, e desse encontro partem, primeiro
paralelas, e finalmente convergentes, as memórias de ambos. O paralelismo
entre os dois percursos é marcado desde o início pela velhice comum e
pela ausência de glória, a vida obscura que agora cabe aos agentes do
grande feito, almirante e grumete, dois velhos no inverno. Serve
esta narrativa para rever e reescrever a nossa história no seu momento
mais alto, o da Expansão, aquele sobre o qual se forjou a ideia do “esplendor
de Portugal”. Para além da questionação da grandeza do feito
cometido, que é evidente desde logo no retrato de ambos os velhos, e cuja
vocalização explícita veremos adiante, serve ainda para (re)inscrever
na história e na genealogia da nação os que dela foram expulsos e nela
perseguidos, da memória dela excluídos e apagados, e literalmente
exorcizados: os judeus. Porque
ao romancista assiste uma liberdade na escrita da história que ao
historiador é vedada, atreve-se o romancista a insinuar a estirpe judia
de Vasco, no episódio em que vai preso Álvaro da Gama, alcaide de Sines
caído em desfavor real por razão que “será melhor não averiguar”
(p. 34), “escoltado
por dois gigantes que à compita lhe arrepelavam os cabelos, e o
insultavam de judeu, de bonifrate e de traidor” (p. 27). Mas o
que em relação a Vasco, personagem real e importante na história
portuguesa, é simples hipótese e insinuação, num jogo de
mostra-esconde com o leitor e com os segredos da história, que assim se
afirma impossível conhecer (e imprudência averiguar), em Barnabé,
personagem menor – e imaginada – a ombrear com os grandes, é
afirmação. Nascido em Ucanha numa família judia, garoto o vemos a
roubar maçãs aos frades cistercienses do convento de Santa Maria das
Salzedas, adolescente
aprendiz de sapateiro em Lamego, em casa do tio Joseph, também ele
sapateiro, profeta e prestamista (como a um judeu português assiste), de
onde foge porque lhe engravida a filha, para desembarcar na Lisboa, cidade
onde se desenha o Império. E muito embora se tenha mudado “em cristão
desde pouco depois de ter chegado a Lisboa, obedecendo às admoestações
do Senhor Dom João II” (p. 76), na verdade Barnabé nunca abandona a
fé de seus pais, como se vê nas orações em hebraico a que se recolhe
nos momentos de aflição (pp. 108, 199, 172 e 250). E durante a viagem,
após uma prédica na qual Paulo da Gama exorta a marinhagem à fé em
Deus, Barnabé reflecte: “E em Iahvé, e na Sua grandeza, estribava eu o
meu credo autêntico, e nem via por que demasiado diverso fosse este
catecismo daquele em que me tinham criado os meus paizinhos” (p. 142).
Converso pela força das circunstâncias, Barnabé
nunca deixou de ser “à doutrina do carpinteiro fingidamente convertido”
(p. 273), como se afirma no episódio em que, pedinte e vagabundo, sem
riqueza nem glória regressado das Índias, o judeu serve de modelo ao
pintor Gaspar Vaz para a figura de S. Pedro, no quadro do mosteiro de S.
João de Tarouca. É
assim uma espécie de vingança, este S. Pedro, chefe da igreja do
carpinteiro, modelado num daqueles que a doutrina do carpinteiro
perseguiu. A culpa desta perseguição é assacada aos reis: ao “amaldiçoado
rei D. João II”, o “milhafre” de quem se enumeram os crimes (pp.
29-30), a cuja morte “não o choravam as mães dos meninos judeus que à
força mandara o soberano horrendamente acondicionar em umas quantas
barcas, e despejar na ilha de S. Tomé, indefesos ante o sofrimento do
ânimo e a fúria dos elementos.” (p. 87); e a D. Manuel, “o gabarola
que ambicionava o Império do Mundo … uma espécie de macacão” (p.
117) que “do alto do trono, reconfortado na consciência do império que
se ampliava … deleitava-se a escabichar com um palito de prata os
interstícios dos molares” enquanto, por édito seu, eram convertidos à
força os filhos menores dos judeus que não partiam (pp. 90-91). Na
armada que parte para a Índia em 1497 há mais conversos, que escondem a
sua origem. Rezarão eles em segredo, como Barnabé, as orações da
infância? A inclusão dos judeus portugueses na aventura da expansão
vai, no entanto, mais longe, ao relatar-se que Abraão Zacuto, astrónomo
e físico do rei, teria “adivinhado a Dom Manuel a imensidão do planeta
que lhe caberia …e que seria a Índia descoberta por dois irmãos
indecisos” (p. 108), profecia esta que teria condicionado a escolha de
Vasco e Paulo da Gama para capitães da armada. Os judeus são assim
colocados na própria génese da expansão. A
representação dos mouros já é diferente, e, no mínimo, ambígua.
Surgem, antes do mais, como rivais dos portugueses nas trocas comerciais
com os indianos, intrigando em Calecute (p. 212), e atraiçoando, na
personagem do célebre – e anónimo – piloto árabe de Vasco da Gama,
nas costas de Moçambique (p. 191). No entanto, na voz de Barnabé, surgem
como detentores de uma civilização exemplar, na beleza e na luz das suas
mesquitas, na tolerância para com as outras religiões – “pensava
Barnabé (...) de idêntico modo se deveriam comportar os que obedeciam ao
Papa” (p. 184) – , e ainda como irmãos na sorte, também eles
expulsos de Portugal. Estão ainda representados na generosidade e na
beleza da mulher muçulmana com quem Barnabé faz amor, sem palavras, na
ilha de Moçambique. Estas memórias de Barnabé – a da mulher, e a da
perseguição aos seus – fazem-no distanciar do discurso religioso
oficial dos navegadores. A tolerância religiosas, na nossa memória
colectiva, pertence aqui à personagem que faz parte de um grupo
perseguido. Grupo
esse que, afinal, também teve papel importante na nossa aventura, também
que descobriu as Índias, como reconhece o velho Vasco, anos depois,
perante o velho Barnabé: “Deus te abençoe, meu rapaz, que foste tu,
foste tu, e mais ninguém, quem essas Índias descobriu” (p. 277). Descoberta
afinal, que pouca importância tem, mesmo na voz do almirante que a
capitaneou, uma vez que a Calecute real fica aquém cidade sonhada (pp.
208-9), e que “sendo em suma o mar igual ao mar nas variadas quadrantes,
nenhum como o da praia da nossa infância nos encanta” (p. 229), e da
viagem nada ficou senão dois velhos em Nisa, “porquanto que em sonho, e
nada mais, singraram as armadas” (p. 233). Ficaram ainda farrapos da
memória, “o troar das canhonadas, quero dizer, este pranto, da fúria
de Portugal” (p. 234). Ficou o esplendor, inscrito no hino, reformulado
em fúria, do nome máximo do zénite da Expansão. Reduzida
a nada, a muito pouco, despida de heroísmo, será que esta reescrita
apaga a expansão, ou a reduz? Pelo contrário: a sua história continua
no centro do nosso imaginário enquanto nação. Mesmo quando cantada em
tom menor, na voz de dois velhos no inverno. |
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