editorial | pesquisa | ligações
 entrada | opinião | memória | leituras | artes | plural | arquivo

Do esplendor

de Portugal


Mário Cláudio
A PEREGRINAÇÃO DE BARNABÉ DAS ÍNDIAS
Lisboa, Dom Quixote, 1998

Adriana Bebiano
Jul.99

 


Este  é o relato da viagem de Vasco da Gama à Índia contada a duas vozes: a do Almirante, e a do grumete Barnabé.

A história é contada pelos dois homens na sua velhice, no Inverno de 1519. À casa de Nisa, onde o almirante das índias se acolhera, esquecido da corte e imerso nas memórias da infância em Sines, chega um dia velho pedinte. Alguma coisa no velho faz com que Vasco recomende à mulher e à criadagem tratamento especial, e desse encontro partem, primeiro paralelas, e finalmente convergentes, as memórias de ambos. O paralelismo entre os dois percursos é marcado desde o início pela velhice comum e pela ausência de glória, a vida obscura que agora cabe aos agentes do grande feito, almirante e grumete, dois velhos no inverno.

Serve esta narrativa para rever e reescrever a nossa história no seu momento mais alto, o da Expansão, aquele sobre o qual se forjou a ideia do “esplendor de Portugal”. Para além da questionação da grandeza do feito cometido, que é evidente desde logo no retrato de ambos os velhos, e cuja vocalização explícita veremos adiante, serve ainda para (re)inscrever na história e na genealogia da nação os que dela foram expulsos e nela perseguidos, da memória dela excluídos e apagados, e literalmente exorcizados: os judeus.

Porque ao romancista assiste uma liberdade na escrita da história que ao historiador é vedada, atreve-se o romancista a insinuar a estirpe judia de Vasco, no episódio em que vai preso Álvaro da Gama, alcaide de Sines caído em desfavor real por razão que “será melhor não averiguar” (p. 34),  “escoltado por dois gigantes que à compita lhe arrepelavam os cabelos, e o insultavam de judeu, de bonifrate e de traidor” (p. 27).

Mas o que em relação a Vasco, personagem real e importante na história portuguesa, é simples hipótese e insinuação, num jogo de mostra-esconde com o leitor e com os segredos da história, que assim se afirma impossível conhecer (e imprudência averiguar), em Barnabé, personagem menor – e imaginada – a ombrear com os grandes, é afirmação. Nascido em Ucanha numa família judia, garoto o vemos a roubar maçãs aos frades cistercienses do convento de Santa Maria das Salzedas, adolescente aprendiz de sapateiro em Lamego, em casa do tio Joseph, também ele sapateiro, profeta e prestamista (como a um judeu português assiste), de onde foge porque lhe engravida a filha, para desembarcar na Lisboa, cidade onde se desenha o Império. E muito embora se tenha mudado “em cristão desde pouco depois de ter chegado a Lisboa, obedecendo às admoestações do Senhor Dom João II” (p. 76), na verdade Barnabé nunca abandona a fé de seus pais, como se vê nas orações em hebraico a que se recolhe nos momentos de aflição (pp. 108, 199, 172 e 250). E durante a viagem, após uma prédica na qual Paulo da Gama exorta a marinhagem à fé em Deus, Barnabé reflecte: “E em Iahvé, e na Sua grandeza, estribava eu o meu credo autêntico, e nem via por que demasiado diverso fosse este catecismo daquele em que me tinham criado os meus paizinhos” (p. 142). Converso pela força das circunstâncias,  Barnabé nunca deixou de ser “à doutrina do carpinteiro fingidamente convertido” (p. 273), como se afirma no episódio em que, pedinte e vagabundo, sem riqueza nem glória regressado das Índias, o judeu serve de modelo ao pintor Gaspar Vaz para a figura de S. Pedro, no quadro do mosteiro de S. João de Tarouca.

É assim uma espécie de vingança, este S. Pedro, chefe da igreja do carpinteiro, modelado num daqueles que a doutrina do carpinteiro perseguiu. A culpa desta perseguição é assacada aos reis: ao “amaldiçoado rei D. João II”, o “milhafre” de quem se enumeram os crimes (pp. 29-30), a cuja morte “não o choravam as mães dos meninos judeus que à força mandara o soberano horrendamente acondicionar em umas quantas barcas, e despejar na ilha de S. Tomé, indefesos ante o sofrimento do ânimo e a fúria dos elementos.” (p. 87); e a D. Manuel, “o gabarola que ambicionava o Império do Mundo … uma espécie de macacão” (p. 117) que “do alto do trono, reconfortado na consciência do império que se ampliava … deleitava-se a escabichar com um palito de prata os interstícios dos molares” enquanto, por édito seu, eram convertidos à força os filhos menores dos judeus que não partiam (pp. 90-91).

Na armada que parte para a Índia em 1497 há mais conversos, que escondem a sua origem. Rezarão eles em segredo, como Barnabé, as orações da infância? A inclusão dos judeus portugueses na aventura da expansão vai, no entanto, mais longe, ao relatar-se que Abraão Zacuto, astrónomo e físico do rei, teria “adivinhado a Dom Manuel a imensidão do planeta que lhe caberia …e que seria a Índia descoberta por dois irmãos indecisos” (p. 108), profecia esta que teria condicionado a escolha de Vasco e Paulo da Gama para capitães da armada. Os judeus são assim colocados na própria génese da expansão.

A representação dos mouros já é diferente, e, no mínimo, ambígua. Surgem, antes do mais, como rivais dos portugueses nas trocas comerciais com os indianos, intrigando em Calecute (p. 212), e atraiçoando, na personagem do célebre – e anónimo – piloto árabe de Vasco da Gama, nas costas de Moçambique (p. 191). No entanto, na voz de Barnabé, surgem como detentores de uma civilização exemplar, na beleza e na luz das suas mesquitas, na tolerância para com as outras religiões – “pensava Barnabé (...) de idêntico modo se deveriam comportar os que obedeciam ao Papa” (p. 184) – , e ainda como irmãos na sorte, também eles expulsos de Portugal. Estão ainda representados na generosidade e na beleza da mulher muçulmana com quem Barnabé faz amor, sem palavras, na ilha de Moçambique. Estas memórias de Barnabé – a da mulher, e a da perseguição aos seus – fazem-no distanciar do discurso religioso oficial dos navegadores. A tolerância religiosas, na nossa memória colectiva, pertence aqui à personagem que faz parte de um grupo perseguido.

Grupo esse que, afinal, também teve papel importante na nossa aventura, também que descobriu as Índias, como reconhece o velho Vasco, anos depois, perante o velho Barnabé: “Deus te abençoe, meu rapaz, que foste tu, foste tu, e mais ninguém, quem essas Índias descobriu” (p. 277).

Descoberta afinal, que pouca importância tem, mesmo na voz do almirante que a capitaneou, uma vez que a Calecute real fica aquém cidade sonhada (pp. 208-9), e que “sendo em suma o mar igual ao mar nas variadas quadrantes, nenhum como o da praia da nossa infância nos encanta” (p. 229), e da viagem nada ficou senão dois velhos em Nisa, “porquanto que em sonho, e nada mais, singraram as armadas” (p. 233). Ficaram ainda farrapos da memória, “o troar das canhonadas, quero dizer, este pranto, da fúria de Portugal” (p. 234). Ficou o esplendor, inscrito no hino, reformulado em fúria, do nome máximo do zénite da Expansão.

Reduzida a nada, a muito pouco, despida de heroísmo, será que esta reescrita apaga a expansão, ou a reduz? Pelo contrário: a sua história continua no centro do nosso imaginário enquanto nação. Mesmo quando cantada em tom menor, na voz de dois velhos no inverno.

 
entrada
| opinião | memória | leituras | artes | plural | arquivo