| História de um achamento Alberto Oliveira Pinto MAZANGA Luanda, INALD, 1998
Adriana Bebiano | Mazanga, uma
"novela", como se anuncia na página de rosto, de Alberto
Oliveira Pinto, valeu ao seu autor o prémio literário Sagrada Esperança
1998. A atribuição do mais importante prémio angolano a esta obra
premeia a sua qualidade, mas reflecte também uma nova tendência na
literatura lusófona em geral, e angolana em particular. Passada a
primeira onda marcadamente nacionalista que se seguiu à independência, e
na qual era evidente uma preocupação com a reescrita da história em
termos claramente nacionais (isto é, em termos que enfatizassem a
diferença e a distância em relação a Portugal), esta nova tendência
continua a ter a história no centro das suas preocupações e
representações, mas fá-lo de um modo algo diverso. A história aqui é
reescrita (ainda, e sempre) como um encontro de culturas, e o que dela
emerge é uma nação híbrida, resultante desse encontro e da
miscegenação que o acompanhou. Não se procura o diferente mas o
semelhante, a humanidade comum, tanto nos seus traços heróicos como nos
seus traços mais humanos, e mesmo mesquinhos ou cruéis. Esta novela de Oliveira Pinto é um bom exemplo desta nova forma de ver e escrever história, desde logo visível no simples folhear do livro, na alternância da mancha gráfica dos capítulos. A história oscila entre uma voz narrativa em português e uma voz narrativa em que predomina o Kimbundu e o Kikongo, cuja impressão em itálico marca, desde logo visualmente, a diferença. Estamos pois perante duas perspectivas da história que se vão revelar confluentes (e não diametralmente opostas, como o seriam eventualmente numa literatura nacionalista de primeira geração). Esta não é uma narrativa a preto e branco (passe a metáfora óbvia), mas multicolor, que coloca, desde a primeira hora, a mestiçagem no centro do império. Mestiçagem de etnias, de culturas e de línguas, e que se verifica não só entre portugueses e africanos, mas entre os próprios africanos. A narração "portuguesa" da história tem a forma de um diário de bordo de Jorge do Rosário, frade dominicano embarcado na expedição de Diogo Cão de 1485/1486. O próprio frade narrador é já mestiço, filho de negra forra de Lisboa, e nele coincidem duas memórias e duas histórias: a da mãe, da família Nsanda, e a dos frades portugueses que o educaram e cuja religião adoptou. As cantigas e as histórias que lhe contava a mãe, e que constituem a sua herança negra, criam nele o desejo de regressar às raízes, de conhecer esse outro povo que também é o seu. A bordo, Jorge do Rosário tem um lugar ambíguo - como é comum nas personagens mestiças -, gozando da autoridade do seu papel de religioso, mas sendo, por outro lado, olhado com desconfiança e desfavor pelos outros frades. As treze entradas do diário estão datadas entre 29 de Outubro e 17 de Novembro de 1486, durante a viagem de regresso de Diogo Cão a Lisboa, depois da tentativa falhada para dobrar o Cabo das Tormentas. No entanto a narração do frade - que está com febre, na qual o leitor adivinha a morte próxima - é, na verdade, feita essencialmente da memória da viagem para Sul, quando as paragens ao longo da costa para aguadas haviam possibilitado o encontro de Jorge com o "seu" povo. E é este encontro que é o centro da história: da história pessoal de Jorge, que nos jovens Nsanda Kabasa e Nsanda Kakulo, descobre dois sobrinhos e a família Nsanda; e da história do Império, fundado na crioulização. As primeiras entradas do diário narram principalmente cenas de bordo - episódios do quotidiano, as referências habituais às febres e às tempestades, as representações teatrais para entretenimento de uma tripulação inquieta, a descrição dos companheiros de viagem etc. - mas narram também memórias da infância, nas quais já se insinua a "africanidade", pela presença de passos em kimbundu, fragmentos da herança materna. À medida que a narrativa avança, Frei Jorge vai-se tornando progressivamente mais africano. Há um episódio que narra uma festa, em que participam as gentes do Mussulo e os portugueses, que é particularmente significativo porque representa como pacífico este encontro entre povos. Depois da festa, enquanto os portugueses se retiram, frei Jorge fica à conversa com Mani Mussulo, com quem bebe malavu e fuma liamba, e de quem ouve a história que é a sua. Diogo Cão acaba por autorizá-lo a ausentar-se por três dias, de forma a poder assistir a uma cerimónia local, o kalandu, na qual participa e que faz parte da sua "iniciação" à cultura local. Esta "crioulização" progressiva do frade - e da narrativa - reflecte-se na linguagem usada pelas diversas personagens e pelo narrador: o kimbundu vai ganhando espessura, o português é quase só suporte sintáctico. O próprio frade vai (re)aprendendo a língua, numa viagem de regresso a uma cultura que também é a sua, sem que, no entanto, abandone o rosário que traz ao pescoço, esse significante da sua outra metade. Frei Jorge não é o único a aprender as línguas bantu: quatro "mussele", ou homens brancos, deixados naquelas paragens dois anos antes pela anterior expedição de Diogo Cão, fizeram-no, e viviam entre os nativos com mulheres nativas. A mestiçagem já começara, muito antes do Império se ter implantado. Intercalada com esta temos a narrativa local, a várias vozes, na qual os vocábulos kimbundu e Kikongo abundam. Encontramos aqui as personagens mais velhas contando a(s) história(s) locais aos mais novos, principalmente a história da conquista dos Kikongo pelos mundongo. A sociedade da Mazanga é ela própria resultado de uma mestiçagem entre invasores e locais, significada particularmente pelos pares Nsanda o Muti (filho do chefe)/Uatanda dya Menha, e Muftila (filha do chefe)/Mahonga. Acrescente-se que os dois gémeos filhos do chefe, Nsanda Kabasa e Nsanda Kikulo, são também mestiços, uma vez que a mãe era uma Kikongo. Nesta parte da narrativa predomina a tradição africana da história oral: todas as personagens têm um bocado de história para contar. A interpretação dos sonhos faz parte da História, uma tradição africana incorporada numa história que se conta e se quer crioula. A co-habitação aparentemente pacífica entre os povos mundongo e kikongo vai ser perturbada pela chegada dos homens brancos, ou, mais concretamente, pelas armas de fogo que eles trazem, e que todos cobiçam. O preço pedido pelas armas são escravos. Ao contar-se o início do tráfico de escravos (esse lado mais negro da negra história do colonialismo), a caracterização das personagens e a atribuição dos papéis de heróis e de vilões também não se faz a preto e branco, uma vez que em todas predomina a ambiguidade. E se são as armas trazidas pelos brancos a causa imediata do início do tráfico, é o chefe local, Nsanda Nzusu, que aprisiona os Kikongo e os vende, incluindo Uatanda, a noiva do seu filho Muti. A narrativa termina com os Kikongo em grilhões, e com o episódio de Nsanda Kabasa, possivelmente o chefe da geração seguinte, a opor-se à vontade do pai. E a optar pelo rosário como amuleto, enquanto recusa o lunga e o ngola, símbolos da sua própria cultura. O rapaz, que se sentira fascinado pelo rosário que Frei Jorge tinha ao pescoço quando ambos se tinham encontrado, acabara por achá-lo no bucho de um grande peixe que apanhara. Deste episódio se depreende que Frei Jorge morrera no mar, em frente à terra dos antepassados, e que aquelas águas lhe serviam de sepultura. A última imagem é de Nsanda percorrendo "com os dedos as contas do Rosário", no início de uma nova fase da história, de uma nova mestiçagem. A representação de nação/nações na narrativa de Oliveira Pinto reflectem o nosso tempo (ou melhor, a retórica dominante no Ocidente no nosso tempo, muitas vezes desmentida pela prática política). Falo da tendência para defender a ideia da hibridização étnica e cultural, ou a história do colonialismo reescrita como um encontro de culturas e de povos. Uma nota ainda sobre a presença dos abundantes vocábulos kimbundu e kikongo: enquanto dão à narrativa cor local, e a legitimam como história autêntica dos povos em presença, tornam a leitura difícil para quem desconhece estas línguas, não obstante a inclusão de um glossário. A linguagem acaba assim por ter um papel central, e, de alguma forma secundurizar a trama, componente principal de um romance histórico. E se estamos em presença de uma ficção - como o próprio autor nos avisa em nota inicial, nem sabemos se Diogo Cão teria estado na Mazanga - esta é ainda uma ficção histórica, isto é, uma narrativa que pretende fazer passar aos leitores uma verdade histórica, ainda que também poética e largamente imaginada. Que de alguma forma se perde - pelo menos entre os leitores portugueses - no labirinto que a língua constrói. Fica, no entanto, esta poliglossia, a multiplicidade de vozes, como "a verdade" incontornável deste encontro de civilizações. |
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