| O
que ficou do Império Adriana Bebiano

A revista Index on Censorship
de Janeiro de 1999 inclui um dossier dedicado a Portugal, com o título
"The Last Empire". Desde o logo o título bombástico, a lembrar
filme épico daqueles que atraem multidões, nos surpreende. Não nos
reconhecemos nele. Império? Portugal? Vinte e cinco anos depois da
independência das colónias? De que é que esta gente está a falar?
Depois percebemos: o dossier é compilado a pretexto da devolução de
Macau à China, agendada para Dezembro de 99, acto este que é visto, do
exterior, como o fim real e simbólico do Império. Cá por casa, há
muito que o "Império" desapareceu dos mapas da escola, e mesmo
do nosso imaginário. Se o pensamos, quando o pensamos, é como parte de
um passado remoto, mais velho do que os vinte e cinco anos que tem a
Revolução. Porque a própria retórica do colonialismo Português ao
tempo da Guerra Colonial - e ao contrário de outros, como o inglês -, é
a retórica de uma única pátria, um "Portugal do Minho a
Timor". Sabemos que esse Portugal único era um mito. Ainda assim, e
mesmo quando já crescemos na negação e denúncia desse mito, ficou a
fazer parte do nosso imaginário. Daí não nos reconhecermos no título,
na forma como nos vêem, de fora.
Diferentes artigos oferecem percepções múltiplas da experiência
colonial e pós-colonial portuguesa, chamemos-lhe assim, e incluem vozes
"de dentro": Ana Duarte Melo, António Figueiredo, um poema de
Graça Moura, a "Grândola", de Zeca Afonso; vozes do
"outro lado": Sousa Jamba (Angola), Mia Couto (Moçambique),
Ramos Horta (Timor); e ainda "de fora", de estrangeiros com
conhecimento da cultura portuguesa: Hilary Owen (Novas Cartas
Portuguesas), Landeg White (comentário a "Grândola"), Barry
Lowe (Macau), David Tomory (Índia). Estes textos reflectem sobre a
questão da nossa herança colonial, e adoptam, em geral, a retórica do
multiculturalismo, que permite repensar as "Descobertas", o
colonialismo e o pós-colonialismo como um "encontro de
culturas". Esta retórica é a mais politicamente correcta nos nossos
dias, e a única que nos permite pensar uma reconciliação entre povos
com um passado de sangue. Tem no entanto os seus perigos, nomeadamente o
esquecimento das assimetrias desse "encontro cultural", a
relação de poder, ainda e sempre desigual. Como muito bem lembra David
Tomory, na sua contribuição "Reluctant Heritage", onde comenta
a polémica em torno das comemorações da chegada de Vasco da Gama à
Índia, a "herança", ou o negócio da herança, permite a
recuperação, para consumo de todos, das coisas bonitas - a gastronomia,
a música, o artesanato -, esquecendo o lado trágico da história.
Segundo a versão corrente do "intercâmbio cultural", a nossa
contribuição para essa herança comum teria então sido o fado e a
saudade. Subscrevendo esta posição, diz Ana Duarte Melo: "Fado,
Portuguese blues, and saudade …is everyday currency among 140 million
Portuguese speaking Brazilians, as well as in Angola, Mozambique,
Guiné-Bissau, Cape Verde and São Tomé e Príncipe". Não sei se
será possível sustentar este mito perante o cenário dos dirigentes da
Junta Militar da Guiné-Bissau, com um português reduzidíssimo ou nulo,
a precisar de tradutor. Achará Assumane Mané que o fado é parte da sua
herança?
Que papel tem a língua portuguesa na herança que deixámos aos outros?
Sousa Jamba, no artigo intitulado "A Morsel of Honey", dá uma
resposta a esta pergunta no contexto angolano, colocando uma cultura
urbana, de "assimilados", que passa pela adopção da língua
portuguesa e pela recusa da aprendizagem das línguas bantu locais,
em oposição a uma cultura rural, poliglota e africana.
Nos territórios mais longínquos, Timor e Macau, a língua portuguesa tem
ainda uma posição mais frágil. Como diz Ramos-Horta (e como, de resto,
qualquer espectador atento da questão timorense terá constatado, ao
observar as muitas dezenas de jovens que se foram refugiando em Portugal
nestes últimos anos), apenas uma minoria dos timorenses fala português,
e a herança aí deixada teria sido a religião, o futebol, alguma
música.
A multiplicidade de vozes neste dossier é evidente: vozes de Portugal,
Moçambique, Angola etc., que nos facultam diferentes abordagens de uma
mesma questão. Há, no entanto, alguns silêncios, nomeadamente no que se
refere às comunidades africanas residentes em Portugal, e que aqui vieram
parar na sequência do desmembramento do Império de que se fala. Ainda
que Landeg White, no artigo "Empire's Revenge", as refira -
"tens of thousands remain outside society" - bem como o racismo
de que são vítimas, a existência deste grupo significativo, de largos
milhares de pessoas, resume-se a uma breve referência, à qual não se
segue uma história contada na primeira pessoa pelos envolvidos.
Este silenciamento corresponde ainda a uma versão da "história sem
tragédia". A que nos convém, a que é adoptada em programas da
televisão do estado como "Atlântico" (RTP1). Este programa,
celebratório da herança comum da Lusofonia - centrada embora no eixo
Portugal/Brasil - é exemplo desta retórica, a qual, ainda que de sinal
político contrário, é ainda herdeira de "Portugal do Minho a
Timor". Estaremos a substituir um mito por outro, em que a assimetria
das relações se mantém, sob a capa de uma "herança comum"?
Mia Couto em "A Celebration in Waiting", a sua contribuição
para o Index, alerta para a necessidade de uma nova relação, em que
todas as partes se constituam como sujeitos. Só assim poderá haver uma
verdadeira celebração das "Descobertas", e uma herança
verdadeiramente "comum".
Acrescente-se ainda um apontamento sobre os textos deste dossier que nos
colocam na oposição de objectos, e que se situam no exterior da questão
colonial propriamente dita. Significativa é a escolha do poema
"Crónica", de Graça Moura, para abrir: aí se fala de mar,
navios, despedidas, tempestades, ventos, algas e corais - a parafernália
de que se faz uma certa imagem de Portugal. Vasco Graça Moura é um bom
poeta; a questão aqui é a escolha deste poema e não outro. Foi
escolhido este, imagino, porque se encaixa às mil maravilhas na imagem
pré-concebida de um país em cujos discursos historiográfico e poéticos
têm ainda um lugar importante a Época das Descobertas e a nostalgia a
ela ligada. Aquilo, afinal, que nos ficou de um império de cujo último
estilhaço o país agora se despede, e que se calhar não chegou
verdadeiramente a ter. Falo de um discurso que já não se adequa à nossa
realidade, cada vez mais europeia, mas que talvez corresponda ainda a um
imaginário que continua a fazer-se ver e ouvir, de acordo com o qual
(ainda) construímos a nossa imagem, e pelo qual os outros (ainda) nos
vêem. Que encontramos, por exemplo, nas letras das canções do Festival
da Canção. E que é muito bem parodiada no programa da BBC que a TVCabo
transmite, "The Tony Ferrino Phenomenon", no qual a personagem
de Tony Ferrino, pretensamente um cantor português, aparece com os
"irmãos", vestidos de pescadores, a cantar o mesmo refrão até
a náusea: "peixe e mariscos, peixe e mariscos". O nome é
italiano, "Tony" fala um português arraçado de castelhano e
italiano, e corresponde a uma imagem estereotipada dos "homens do
sul" em geral. O retrato é uma caricatura; mas a culpa é talvez
também um pouco nossa, que ainda não encontrámos, para falar de nós
próprios, uma linguagem nova, alternativa às estafadas metáforas de mar
e marinheiros.
Haverá forma de evitar o estereótipo quando se fala do
"Outro"? Ou só se reconhece o estereótipo quando o
"Outro" somos nós? Como quando Landeg White, ao comentar
"Grândola" no Index, a identifica como um fado, e Zeca
Afonso como fadista, acrescentando que a canção que serviu de senha para
pôr a Revolução na rua serve agora para vender azeite. Confundindo até
a nossa inconfundível "Grândola" com a canção popular
"Ó Rama, ó que linda rama". Porque o "Outro" não é
percepcionado como múltiplo, mas como uno. Porque, de acordo com esta
lógica, todos os portugueses cantam sempre e só fado.
Mar.99
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