janela indiscreta
Fashion TV

[José Couto Nogueira]


Ninguém quer estar fora de moda, mas muita gente considera a moda uma futilidade. Nas malhas desta contradição vive uma indústria gigantesca, à escala universal, e que chega até ao grande público pela publicidade, pelas revistas e pela televisão. E existe um canal exclusivamente dedicado à moda, a Fashion TV

Os jovens mais superficiais, que vêem no “estar na moda” um objectivo de vida, só podem achar este canal uma goisa giríssima, fabulosa, muito “in”. As outras pessoas, ao pensarem um pouco no assunto, e passado o impacto de ver uma mulher linda e semi-vestida a vir em direcção ao ecrã, a passo firme, sem nunca cá chegar, para quando chega ser logo substituida por outra, gémea, que também avança eternamente para nós, e isto continuando assim horas a fio, dias seguidos, sem fim à vista — pois essas pessoas, que não acreditam ou não percebem o sonho, a primeira coisa que perguntam é: “Mas para que é que isto serve?” E depois, vivendo numa época cínica em que o conceito de militância já não é credivel, acrescentam a segunda questão: “E quem é que paga? Onde está o negócio?”

Um facto é indiscutível: o Fashion TV é um sucesso estrondoso, ou pelo menos bombástico: no ar deste 1997, alojada em 31 satélites e incontáveis serviços por cabo, é vista diariamente por mais de 500 milhões de espectadores, nos cinco continentes. Além disso, ainda passa nos ecrãs sempre ligados de 100 mil lugares públicos autorizados, como cabeleireiros, bares, lojas, hotéis, clubes, boites… Ora o que passa, reduzindo as coisas à expressão mais simples, é mulheres bonitas e moda, ou moda e mulheres bonitas, dependendo das prioridades de cada um. (Ah, sim, também desfilam homens bonitos, mas no mundo da moda pode usar-se Mulher como genérico da espécie, assim como nas outras áreas do conhecimento se usa Homem…)

A primeira dúvida, se haveria público suficiente para ver um canal de moda 24 horas por dia, está assim respondida. 500 milhões de pessoas são muito mais espectadores do que os dos canais de História, vida animal, saúde e outros assuntos cuja utilidade ou interesse ninguém põe em questão.

A segunda dúvida é qual a utilidade deste constante desfile de egos vestidos ou despidos segundo “a última moda”. O que é que acham os profissionais? Isabel Escaja, editora de moda da Cosmopolitan (ou seja, a pessoa que escolhe a moda que aparece nas páginas da revista) não considera que o Fashion TV lhe sirva para alguma coisa. “Recebemos as informações de outras fontes mais directas, as fotos dos costureiros, por exemplo. Temos que saber o que se vai usar antes de chegar ao público. Não conheço nenhuma editora de moda que se sente em frente da TV para saber o que é que se vai usar na próxima estação”. Já outros profissionais, os costureiros, têm opinião diferente. Ana Salazar disse ao Expresso: “Ver o que os outros fazem é sempre útil. Não tenho tempo de estar ao par de tudo o que sai e a Fashion TV dá-me uma boa ideia, sem esforço.” Há um outro “efeito” do canal que lhe agrada bastante: “Quando passam desfiles meus, o que acontece muitas vezes, as clientes vêm às lojas dizer que viram e querem comprar mais.” Aproveitamos para lhe perguntar se pagava para aparecer. Não, a marca Ana Salazar não paga. Os operadores da Fashion TV aparecem nos desfiles, fazem a edição como lhes convém e depois põe no ar quando lhes apetece. “Mas acredito que alguns designers pagam. Não digo os mais conhecidos, que dão prestígio ao canal, mas aquelas marcas mais pequenas que precisam de aparecer…”

Felipe Faísca, um designer muito mais off beat e menos comercial que a Salazar (ultimamente tem-se dedicado, com grande sucesso, a figurinos de teatro) também gosta de “pescar” informação na Fashion TV. “São informações discretas, uma prega aqui, uma costura ali. É sempre bom ver o que se anda a fazer por aí, e ver de uma maneira descontraída, em casa, nas horas vagas.”

E os lojistas? Uma dona de boutique disse ao Expresso que não acompanha a Fashion TV porque compra pelas colecções dos fornecedores, mas que as suas clientes comentam com muita frequência que querem isto assim-assim porque viram no canal.

Um booker de uma agência de modelos (o especialista que faz as marcações dos trabalhos para os modelos) disse que independentemente do interesse que a Fashion TV possa ter para os profissionais, é sempre uma maneira de divulgar a moda para o público em geral, de “fazer as pessoas terem consciência de que a moda existe”. É claro que se poderia perguntar se essa consciência é realmente boa para as pessoas ou se isso lhes dá mais qualidade de vida. Mas não é isso que esté em causa: o que interessa é a mega indústria que envolve milhares de milhões de euros/dólares/yens por ano.

Mas há outro tipo de espectadores do canal não tem nada a ver com a moda: são os homens, pura e simplesmente. Falámos com um advogado da zona de Palmela que tem a Fashion TV permanentemente ligada na sala de espera do seu escritório. “As miúdas!” disse ele ao Expressso, “As miúdas são fantásticas. Não há nada melhor para entreter os meus clientes enquanto esperam a vez. Chegam a chamar-me para vir apreciar uma mais giraça!”

Num bar onde a Fashion TV também é o programa constante (só substituido quando da transmissão dos jogos realmente importantes) o proprietário disse ao Expresso que assim tem boa música ambiente e um visual agradável a todas as horas. Os lientes às vezes olham, às vezes nem reparam, mas quando olham nunca se arrependem!

Talvez por saber isto é que a empresa, cuja sede é em Paris, começou a comercializar uma espécie de franchise de bares e cabeleiros FashionTV. O que eles vendem são apenas peças de decoração — candeeiros, biombos, mesas, cadeiras, balcões de bar equipados com monitores de vídeo onde passa o canal. Um bar assim equipado custa cerca de 30 mil contos, segundo as contas feitas no próprio site da empresa, o www.ftv.com. Nesse site também se vendem t-shirts, autocolantes com o logo do diamante e outras patetices para as modetes em transe.

Como não há publicidade no canal, nem no site, fica-se a pensar se o pagamento de alguns designers menores, e a venda de móveis com monitores, de t-shirts e de canecas é suficiente para tornar rentável ester aparente “império” da moda ou da mídia. Um pormenor não deixa de ser curioso: o material para a decoração dos bares Fashion TV só pode ser comprado a pronto e é enviado… da Polónia! A moda é, de facto, um negócio internacional.

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Jun. 02