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Canção Nova, 100% católica

[José Couto Nogueira]


A última "oferta" da TV Cabo chama-se Canção Nova e, ao contrário do que o nome poderia sugerir, não se trata de um canal de novidades musicais, nem de um renascimento do Nacional-Cançonetismo. Não se trata mesmo de nada que tenha a ver com música, embora apareçam umas pessoas a cantar de vez em quando.

Situada na posição 40, entre os entusiasmos da Sport TV e a estética germânica da RTL, a Canção Nova surpreende pela qualidade terceiro-mundista da produção, e impressiona pela visão maniqueísta da vida. Poder-se-ia pensar, pelo tom e pelo estilo, que seria uma versão televisiva da Igreja Universal do Reino de Deus, mas não é preciso muito tempo - digamos, dois minutos de emissão - para se ver que a mensagem é católica-apostólica-romana. Os inconfundíveis hábitos dos franciscanos e os toucados de várias ordens de freiras não deixam margem para dúvidas.

Será que a Igreja, não tendo conseguido manter o seu projecto TVI, está a tentar um canal no Cabo? Na verdade, não é bem assim; os órgãos dirigentes e os porta-vozes da Igreja Católica portuguesa têm até feito bastante esforço para se distanciar deste projecto. E na semana passada veio a público, conforme o Expresso noticiou, um documento assinado por 57 católicos de renome a queixar-se do que consideram "um penoso retrocesso" para a propagação da sua fé. O que choca estas pessoas é que a "sua" igreja tenha descido ao nível das "seitas" mais recentes e mais popularuchas. Mas o que impressiona, na Canção Nova, não é o facto de a Igreja Católica ter resolvido adaptar o estilo da IURD para repescar os fiéis fugidos ao redil; o que deixa alguma perplexidade é verificar como a mensagem cristã faz questão em se embrulhar numa embalagem tão pobre. E não se trata da pobreza de quem não tem meios materiais, no sentido bíblico, mas de indigência cultural e estética. Será que a pureza religiosa exigem uma aparência do passado e uma estética de bairro social? Será que a Fé, a Esperança e a Caridade só fazem sentido entre pessoas que não têm um pente para o cabelo e dois vinténs para ir à Zara?

Nem o documento dos católicos, nem os cuidadosos distanciamentos de algumas figuras representativas do Episcopado português toca nestes aspectos mais delirantes da imagem do canal. Há uma cuidada tentativa de não estabelecer certos juízos de valor, para não pôr em questão o essencial ou seja, se o valor da embalagem não terá mais peso do que o conteúdo. Os católicos dizem, por exemplo, que o canal tem uma qualidade técnica medíocre. Ora a qualidade técnica, não sendo das melhores, não é também vergonhosa. Onde há mediocridade é nas soluções estéticas, como os separadores, que utilizam um estilo da década de 50, quando ainda não havia os recursos electrónicos actuais. Há um ar antiquado nos cenários, nos fundos e até na maneira de vestir dos apresentadores e convidados, que pode levar as pessoas com uma estética mais contemporânea a pensar que a mensagem cristã se desactualizou.

Já Rui Machete, um dos signatários do documento, afirmou que a ênfase nas dificuldades da vida é uma simplificação da mensagem fundamental da Igreja, que seria a felicidade da pessoa. No entanto no Canção Nova a felicidade é o sentimento mais evidente. Uma das mais notáveis imagens de marca do canal é a alegria de viver com os olhos postos no infinito e um sorriso na boca de todos os protagonistas - uma felicidade que, francamente, ninguém que vive nos dias de hoje consegue acreditar ser possível. Aliás, só pode ser a esta alegria ingénua que os signatários católicos se referem quando, elipticamente, afirmam que as situações são "incompreensíveis e até vexatórias". De facto, não deve ser nada agradável para estas pessoas, entre as quais se encontram Marcelo Rebello de Sousa, Daniel Serrão e Emília Nadal, ver a sua religião identificada com a aparência pingona e a conversa no mais puro estilo maoista - ou seja, a repetição ao infinito de ideias muito simples, até que entrem na cabeça das massas. Não que haja algo de errado em crer em Deus e ser feliz; mas certamente que essa não é uma atitude convincente nestes tempos profundo cinismo e enorme cepticismo. As pessoas aparecem na Canção Nova saídas de um mundo paralelo, um planeta onde todos moram bairros sociais, trabalham de sol a sol, comem batatas e são felizes.

O Bispo de Leiria e Fátima, Serafim Ferreira e Silva, trouxe a Canção Nova do Brasil, e começou por responder desafiadoramente às primeiras críticas. Há cerca de um mês, quando o canal começou a chamar a atenção das pessoas, D. Serafim apenas lamentava "os preconceitos e os equívocos" de um projecto que teria a aprovação maioritária do episcopado brasileiro.

Mais recentemente, na televisão, o prelado já falou à defesa, afirmando com um tom agastado que "quem não quiser não vê". É interessante notar que este é um argumento que a Igreja Católica nunca aceitou no que se refere a programações como a do Canal 18 nas noites de fim-de-semana, ou do canal Sexy Hot. E o que está a preocupar católicos e hierarquia não são os que não querem ver mas, precisamente, os muitos que vêem e se identificam com este mundo irreal.

Todos os outros bispos portugueses, reunidos na Conferência Episcopal, evitam, por uma questão natural de princípio e boa educação, criticar o seu par; mas não deixam de colocar "reticências" ao projecto e repetir que ele, Serafim Ferreira e Silva, é o único responsável.

Perguntámos a um prior da capital o que pensava do Canção Nova. Na sua opinião o canal é "aterrador", mas o que mais o assusta é o facto de os seus paroquianos, especialmente os de menos cultura, gostarem muito de assistir; e passaram até a cobrar-lhe a ele, padre moderno, não falar mais no demónio "que existe mesmo" e na luta entre o Bem e o Mal. O nosso interlocutor, que preferiu o anonimato por razões evidentes, não sabe dizer qual a percentagem de paroquianos desta freguesia da Grande Lisboa que acompanha regularmente o canal, mas "receia" que seja uma maioria daqueles que frequentam regularmente a igreja. Quer dizer, a mensagem do Canção Nova pode não agradar aos católicos mais intelectualizados e mesmo aos mais contemporâneos, mas há uma maioria menos sofisticada que aceita bem este tipo de proselitismo básico.

Falámos também com uma jornalista católica, uma daquelas pessoas que desenvolve um constante e meritório trabalho no sentido de actualizar e dar um sentido contemporâneo à mensagem da Igreja. Muito diplomaticamente afirmou que ainda não tinha visto o Canção Nova, nem sequer tinha ouvido opiniões de confiança.

Um comentário interessante foi o do padre Feytor Pinto, um dos 57 signatários da carta. Segundo o Expresso, ao ser-lhe perguntado se a diocese de Lisboa estaria com intenção de ter um canal no cabo, respondeu que depois do fracasso da TVI ninguém na igreja pensa em tal "aventura".

José Horta e Costa, o leigo que trouxe o Canção Nova para Portugal, ao ouvir tanta crítica utiliza um contra-argumento bastante próprio ao universo da religião: trata-se de uma autêntica "inquisição". Segundo ele, a questão é apenas de concorrência, pois um canal católico impossibilita o aparecimento de outros.

Talvez não, pois se o Canção Nova tem tanta audiência, mesmo que pouco sofisticada, talvez haja espaço para outro canal católico, talvez um pouco mais classe-média, ou mesmo média-alta. Mas não deixa de ser estranho, pensar que neste ano da graça de 2001, ainda há quem tenha tempo e interesse de passar meia hora em frente à TV a ver um ancião franciscano com uma enorme popa branca (deve ser moda na ordem) a falar da aparente contradição que terá sido, precisamente há 2001 anos atrás, Jesus Cristo, filho de Deus, ajoelhar-se a rezar.


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Mai.02