Ildo Lobo
NÓS MORNA
Lusafrica, 1997






 

Mornas por descobrir
Fernando Nunes


Há praticamente vinte anos houve um súbito mas passageiro interesse dos melómanos portugueses pela música de Cabo Verde, nomeadamente por alguns dos seus nomes, como Bulimundo, António Travadinha, Voz de Cabo Verde e os Tubarões, que com o álbum “Tabanca”, de 1981, conseguiram algum impacto radiofónico e, chegaram mesmo a surpreender muita gente, com as suas actuações ao vivo. Curiosa é também a recensão crítica que Miguel Esteves Cardoso publicada na edição do semanário “O Jornal” dessa altura: “Falamos então da maior e melhor música popular desde o início da civilização. Que é como quem diz – do LP “Tabanca” dos Tubarões. E falemos com o exagero excitado que é a expressão mais límpida e sincera de qualquer paixão”. E conclui o artigo da seguinte forma: “(...) A sorte de Portugal é poder usufruir do privilégio de ouvir os “Tubarões” antes do resto do mundo. Perder a oportunidade seria um luxo ou um crime, conforme a perspectiva que se quiser escolher”.

Os Tubarões com mais de uma década de uma carreira musical espalhada pelos quatro continentes, chegaram ao fim da sua brilhante carreira. O que ficou de tão longo ensejo? Para já a voz cristalina de Ildo Lobo que se apresenta agora com este seu primeiro álbum a solo. E, essencialmente - porque nos encontramos já à espera da chegada do segundo exemplar, pois, contrariamente ao que o Esteves Cardoso escreveu na década de 80, os discos da maioria dos músicos caboverdianos de hoje são produzidos e editados em primeira mão em França - escutemos por instantes esta belíssima novidade musical gerada originalmente no arquipélago de Cesária Évora, Bana e Travadinha.

“Nós Morna” foi o título escolhido para a apresentação de uma nova faceta de Ildo Lobo, agora já sem o ritmo africano da coladera, permitindo-nos conhecer desta vez a sua incursão na música rainha de Cabo Verde - a morna! O músico cabo verdiano decidiu, após doze discos como cantor do grupo Os Tubarões, cantar segundo a tradição da Boavista e homenagear o seu pai Antoninho Lobo, num disco de serenatas, povoado de mornas sublimes, em estado febrilmente criativo, até às mornas perfeitamente tradicionais e repetitivas.

Deve-se pois, após adquirir este belo disco de mornas repetir vezes sem conta o seu balanço na aparelhagem, com uma atenção especial para as faixas “Nós Morna”, “Oh Rosa Negra” e ainda para “Dör di nh´alma” com o seu acalorado refrão: “Ma disilusão ta doé/ Ta quema qui nem lume/ Ta foga qui nem agua / Ta raza qui nem vento / Nh´amôr nha fantazia / Betu”. E se possível imaginar uma noite nas ilhas de Cabo Verde a ouvir as famosas serenatas do já desaparecido Antoninho Lobo, aqui pela voz do seu filho, acompanhado por uma cachupa, um groguinho e...morabeza!


Nov.00