ALLENDE,
SALVADOR
médico
e político chileno (Valparaiso, Chile, 1908 - Santiago do Chile,
1973)
"Tengo
fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres el momento
gris y amargo, donde la traición pretende imponerse. Sigan ustedes
sabiendo que, mucho más temprano que tarde, se abrirán
las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir
una sociedad mejor."
Com
Presidente do Chile sob o governo de Unidade Popular, Salvador Allende
Gossens ficará para a história como o primeiro líder
político a dirigir uma tentativa de “transição
pacífica” para o socialismo dentro da legalidade constitucional.
Nascido numa velha família da burguesia de Valparaiso que desde
há muito se reclamava do livre-pensamento, aderiu muito novo à
franco-maçonaria. Estudante de medicina, vice-presidente da Federação
dos Estudantes de Santiago, foi por diversas vezes preso e expulso da
universidade. Mas foi a sua descoberta da miséria, através
do seu trabalho como médico dos bairros pobres, que o lançou
na acção política.
Em 1933, foi co-fundador do Partido Socialista Chileno ao qual nunca mais
deixou de pertencer. Em 1938, já eleito deputado, dirigiu a campanha
do radical Aguirre Cerda, primeiro presidente da Frente Popular. Em 1942,
ministro da Saúde, lançou um plano de segurança social
operária. Foi senador a partir de 1945, e depois, em 1952, 1958
e 1964, por três vezes candidato derrotado à presidência
da República. Acabaria por vencer no dia 4 de Setembro de 1970,
com 36,3% dos votos, à frente do candidato conservador Jorge Alessandri
(34,98%) e do candidato democata-cristão Radomiro Tomic (27,84%).
Apoiado por uma coligação de Unidade Popular que ia dos
comunistas até aos radicais e aos cristãos de esquerda,
Salvador Allende deveu também a sua eleição ao grande
prestígio que tinha junto de muitos sectores da população
chilena. Eram-lhe muitas vezes apontados como característica pessoal
que transportava para a acção política a convicção,
o calor humano e também o gosto pelas coisas boas da vida.
O seu governo propôs-se então transformar, pela via da legalidade,
as estruturas económicas e sociais do Chile, libertando o país
da completa dependência que, nestes domínios, experimentava
em relação aos Estados Unidos.
O vigor com o qual Allende apoiou certas medidas, como a nacionalização
das minas de cobre em Julho de 1971, não o impediu de adoptar,
tanto no domínio interno como no plano internacional, uma atitude
quase sempre moderada. Ficou, aliás, muitas vezes em minoria dentro
do seu próprio partido, que propunha medidas mais radiciais, apoiando-se
então nos comunistas e nos sociais-democratas que pretendiam "consolidar"
as conquistas antes de "avançar" para outras etapas.
Quando as dificuldades económicas se multipicaram a partir de 1972,
Salvador Allende deu uma atenção especial ao problema das
forças armadas. Apesar da reputação de profissionalismo
e de apoliticidade destas últimas, um sector militar tentou, em
1970, impedir a instalação de Allende na chefia do Estado.
O presidente contava acima de tudo com as suas relações
pessoais com um certo número de oficiais, obtidas especialmente
através das suas ligações com a maçonaria,
e com a sua capacidade para negociar. Após a demisssão,
em 23 de Agosto de 1973, do general Prats, até essa altura o seu
apoio mais firme no interior do exército, ofereceu a sua confiança
política ao general Augusto Pinochet, que substituíra Prats
como comandante em chefe das forças militares chilenas.
Os problemas agravaram-se durante o inverno austral de 1973 (inflação
galopante, diversos motins, pressões do M.I.R., Movimento da Esquerda
Revolucionária, e do movimento fascista Pátria e Liberdade)
enquanto os partidos da
Unidade Popular se desentendiam a propósito da política
a seguir. Salvador Allende preparava-se para anunciar em 11 de Setembro
um referendo a propósito da política do seu governo quando
foi apanhado de surpresa pela rebelião militar. Quando, durante
a manhã, o exército iniciou o levantamento, fechou-se com
um punhado de fiéis no palácio presidencial de La Moneda.
Recusando as ofertas da Junta Militar para deixar o país, ele próprio
dirigiu a defesa do palácio durante longas horas. O governo militar
acabará por anunciar a 12 de Setembro que ele se teria sucidado
depois de constatar a impossibilidade de resistir. Mas as contradições
entre as sucessivas versões contadas pelo novo poder, assim como
o carácter de Salvador Allende, permitem-nos concluir que terá
morrido de armas na mão.
Foi sepultado anonimamente em Valparaiso, a sua cidade natal, tendo a
sua família sido forçada ao exílio (como aconteceu
com a escritora Isabel Allende, sua sobrinha), tal como muitos milhares
de chilenos que conseguiram escapar à feroz repressão dos
militares.
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