A Ilusão Afetiva
na Sociedade da Propaganda
Regina Weber Quanto
tempo levará para que possamos ter relações amorosas,
igualitárias, íntimas, confiantes, onde a manipulação
esteja ausente? Na América Latina talvez bem mais do que nossa
breve existência. Para Giddens, isso já estaria ocorrendo
em alguns grupos homossexuais, particularmente os de lésbicas.
A questão, portanto, é como isso poderia se dar entre as
relações heterossexuais. A ilusão romântica
leva a crer que tudo é uma questão de encontrar a alma gêmea,
obscurecendo o fato de que até os afetos são, via de regra,
ainda que não sempre, cultural e sociologicamente influenciáveis.
No
início dos anos 90 uma nova revista feminina conquistava mercado
entre as leitoras brasileiras. Em uma de suas edições, alertava
para o fato de que “conquistar” um parceiro era uma questão
de “estratégia”, dado que a demanda feminina era maior
que a masculina. Citava até um entrevistado dizendo que as mulheres
estavam menos exigentes porque haveria poucos homens disponíveis.
A revista fornecia então algumas dicas sobre estas “estratégias”
que podiam servir para atrair, por dedução, um homem de
poucos atrativos. Nada era dito sobre como haveria amor em tais condições,
sobre como se poderia contar com um aconchego num momento difícil
diante de ombros que sempre poderiam ir em busca de emoções
outras que lhes estariam disponíveis. Os velhos preconceitos ante
a mulher que fica sozinha (a “solteirona”) misturavam-se à
lógica competitiva da sociedade capitalista, incentivando as mulheres
a “conquistarem” a própria submissão. O próprio
pensamento científico foi chamado a ratificar o problema e a demografia
passou a explicar que os homens têm um feixe mais largo de opções
quanto à faixa etária da parceira. Como diria Bourdieu,
todos estes que visam “explicar” o problema estão,
muitas vezes, legitimando-o; são os “agentes” interessados
em pôr-se de intérprete de uma dada realidade, pois lucram
com ela: vendem revistas que oferecem soluções, mantêm
o emprego em órgão público, etc. Entre os agentes
estão, portanto, muitas mulheres, o que refuta a explicação
simplista de uma conspiração masculina.
O que as publicações não
explicaram é que uma dada realidade só se tornou problema
com o avanço da autonomia feminina. E o que muitas mulheres não
podem perceber é que muitas das situações inquietantes
que elas possam experimentar são um dos resultados das rachaduras
na sociedade do poder masculino. Ignorando que a fúria de deuses
milenares foi provocada, os humanos, ingenuamente, querem ser felizes
em sua curta existência: querem segurança afetiva, querem
amar e ser amados.
No início do novo milênio o
enfoque agora é outro: mulheres independentes, sexualmente “resolvidas”,
charmosas, reclamam da falta de homens “interessantes”. Saindo
do terreno demográfico, a questão tornou-se sociológica.
Em termos de revistas femininas, o enfoque editorial não tornou-se
– ou não apenas – mais inteligente ou menos machista:
dobrou-se ao crescente poder feminino em várias instâncias
sociais, isto é, ao poder daquelas que pagam pelo exemplar. (Falamos
do universo das classes médias: entre as mulheres de magnatas e
dos operários, a situação é diferente.) As
mulheres avançaram, dizem, conquistaram espaços e os homens
ficaram onde estavam. Em algumas situações, como em certos
postos de trabalho, o avanço feminino significou o recuo masculino.
Num mundo de identidades cambiantes ou de “inteligência emocional”,
a velha adaptabilidade feminina e a prática das mulheres de discutir
questões psicológicas seria uma vantagem. Por sua vez, os
homens enfrentam problemas por sua fraca “narrativa do eu”,
como afirma Anthony Giddens. Em outros tempos isso já foi macheza.
E talvez continue, por tempo indeterminado, no hemisfério sul.
Mas
se as mulheres dominaram espaços, porque grande parte das publicações
femininas impõe às mulheres modelos de beleza cuja realização
é de difícil conciliação com a jornada de
trabalho e a educação dos filhos? Em parte, porque os “agentes”
da estética (as revistas que dão as dicas, os médicos,
as clínicas, os esteticistas, as indústrias de cosméticos,
as academias, etc.) lucram com isso. Em parte porque é bom ficar
bonito (e saudável). A valorização estética
das mulheres mais velhas garantiu a estas mais tempo de autoconfiança
na disputa social: o “envelhecimento social” precoce das mulheres
as atingia em pleno período de realização de conquistas
e uma baixa na auto-estima como mulher podia repercutir na sua atuação
em outros campos, mesmo em atividades profissionais que não dependessem
de atributos estéticos. Por outro lado, também está
implícito que a performance da aparência contribuiria para
ampliar as opções femininas no mercado masculino. Mas porque
tanta malhação, tanto resolução sexual, tanto
sucesso, tanta correria? Para uma realização pessoal? Sem
dúvida. E cadê o homem interessante? Provavelmente é
o que está sendo educado por estas novas mulheres. Está,
pois, no futuro. O do tempo presente poderá ser encobertamente
machista, com problemas de alcoolismo, descuidado, sem perspicácia
intelectual, acomodado precocemente e, mesmo quando não é
nenhum grande amante, disposto a “aprontar”. De volta, agora,
ao terreno da sexualidade.
Uma das bandeiras do movimento feminista,
a preocupação com a sexualidade feminina e, mais precisamente,
com o prazer feminino, ao generalizar-se, ao passar da contra-cultura
para a cultura de massas, parece ter sido apropriada de forma imprevista.
Não há revista de variedades que não tenha uma reportagem
sobre sexo. E confirmando a análise de Foucault, de que ao se falar
também se enquadra, as publicações afirmam o primado
da sexualidade na manutenção da relação homem/mulher.
E de uma determinada sexualidade: é necessário copular em
períodos previsíveis, explorar determinadas partes do corpo,
variar os ambientes e gozar. Contra qualquer magia, o último livro
do grande mago brasileiro inspira a observação do tempo
da cópula. Os onipresentes valores capitalistas invadem a alcova
e quantificam, contabilizam, impõe padrões de eficiência,
estabelecem rotinas. A busca do gozo feminino, muitas vezes fugidio, de
direito antes desconhecido, agora virou obrigação. Como
diz Thomas Laqueur, a perda ocasional da libido e a falha em atingir orgasmo
foram transformadas em doença. Os “agentes” (publicações,
fabricantes de medicamentos, médicos, ciganas, etc.) não
deixariam de gerenciar uma angústia que eles mesmos maximizam.
Não se trata, obviamente, de criticar o direito à busca
do prazer através de informações ou de medicamentos,
mas de desvelar a imposição de padrões de comportamento
numa sociedade que se supõe “liberada”. Onde fica o
erotismo, que, como afirma Otávio Paz, é invenção
incessante? Como é possível capturar o desejo em pesquisas
quantitativas? O caráter anárquico do desejo, que sempre
foi um problema para as relações monogâmicas, duplicou-se
com a emancipação feminina. Contudo, não são
práticas derivadas da ideologia da sociedade industrial e burocrática
que vão resolver isso.
A braços dados com a ideologia machista,
a doutrina capitalista que aprisionou Eros, cobrando o “desempenho
sexual”, atinge, antes de tudo, os próprios homens. A agressividade
da propaganda contra a impotência masculina parece colocar qualquer
homem sob suspeita. O paradoxo da sociedade fálica é que
seu símbolo é um mecanismo fisiológico bastante delicado,
uma parte frágil do corpo masculino. A julgar por algumas reportagens,
a sociedade fálica está literalmente declinante. Pudera,
tamanha pressão. A começar pela pressão do mercado
de trabalho, que põe sob constante risco uma das principais instituições
da sociedade patriarcal: a do homem-provedor. A rigor, em uma sociedade
machista e capitalista, a única figura realmente emasculada é
o desempregado. Mas está realmente claro o que seja a “impotência
parcial” das pesquisas? Não é possível canalizar
a libido em atividades que não sejam a sexualidade, desde que haja
clareza e consenso dos pares quanto a isso? Talvez o avanço feminino
possa, aqui também, explicar alguma coisa.
Cansada de ouvir dizer que prefere fazer
amor a sexo, descobrindo que os efeitos da maternidade eram mais uma situação
do que uma condição natural, ameaçada de ser declarada
assexuada a partir de determinada idade, a vanguarda feminina foi para
o ataque e mostrou que as mulheres muitas vezes são tão
(ou mais) sexuadas quanto os homens. E elas possuem uma vantagem: podem
disfarçar mais facilmente uma falta de desejo, para não
ficar mal no ranking sexual. Culturalmente muito mais autorizados a responsabilizar
a mulher e não preparados para dialogar, os homens, em uma ocasião
de impasse, podem sair pela tangente, instalando a insegurança
afetiva. Nesta situação, a igual que outras, os antigos
e cúmplices enamorados poderão agora aparecer travestidos
de adversários. Tais análises estariam referendando uma
opinião conservadora de que a liberação feminina
trouxe um certo tipo de desestruturação social que atinge
os relacionamentos afetivos e, por decorrência, as famílias?
Sim. É possível uma nova síntese social sem passar
por uma antítese? Parte do preço da mudança social
é pago pelas próprias mulheres, que mesmo tendo avançado
no espaço público e, portanto, na lógica capitalista,
ainda estão presas a uma imagem de masculinidade cujas bases estão,
justamente, ajudando a corroer. A personagem Carolyn, do filme A Beleza
Americana, que sente prazer em ser possuída por um homem que lhe
é profissionalmente superior, encarna a tragicômica figura
de tempos de transição.
Anthony Giddens aponta algumas saídas
para enfrentar o “abismo emocional” que se instaurou entre
os sexos:
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• Porque não considerar que o homem bom
pode ser um homem sensual e vice-versa, o homem sensual pode ser bom?
Isso seria neutralizar a ideologia do homem durão, macho ou
conquistador como o mais atraente. |
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• Uma maior igualdade entre os sexos poderia levar a
uma certa androginia. Pode-se deduzir que, libertando-se dos padrões
que determinam o que seja uma mulher esteticamente ideal, as mulheres
possam ter a opção de um estilo mais despojado. |
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• O pênis deixaria de ser o falo, livrando-se de
toda a carga simbólica que é obrigado a carregar. |
A plataforma parece coerente, uma nova síntese
social, que possibilitaria a existência do “amor confluente”.
Muitas experiências localizadas e bem-sucedidas apontam para a possibilidade
de que esta utopia possa se realizar. Mas, caso o futuro a traga, quantos
de nós poderão experimentá-la nesta vida?
Obras citadas:
Pierre Bourdieu, O poder simbólico;
Anthony Giddens, A Transformação da Intimidade;
Michel Foucault, História da Sexualidade;
“Patologias Ficcionais”, Folha de São Paulo, Caderno
Mais, 11 maio 2003;
Octavio Paz, A dupla chama: amor e erotismo.
Regina Weber é Professora do Departamento de História da
UFRGS, Brasil.
09-07-2003

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