Cioran e a arte da provocação
Pedro Maciel
O tédio alimenta o pessimismo.
Segundo Cioran “o pessimista deve inventar para si mesmo, a cada
dia, outras razões para existir: é uma vítima do
sentido da vida”. Entedia-se diante da vida aquele que
busca revelar o tempo. “Entediar-se é mascar tempo”.
A experiência do tédio nos leva a perambular através
do tempo exasperado. A vida só é possível porque
não temos consciência dos momentos que passam.
E.
M. Cioran (1911-1995), o filósofo do tédio e do êxtase,
mestre da desesperação, apresenta em “Exercícios
de Admiração”, ensaios e perfis de escritores, filósofos
e poetas. As divagações são “exercícios
de aprofundamento do conhecimento de si”, um auto-retrato, como
no ensaio dedicado a Michaux: “Não tendo nem a sorte nem
o azar de se fixar no absoluto, se inventa abismos, suscita sempre novos,
mergulha neles e os descreve.“
E prossegue: “Assim conseguiu, com
suas inquietações metafísicas, com suas inquietações
simplesmente, permanecer _ pela obsessão do conhecimento _ exterior
a si mesmo. Enquanto nossas contradições e nossas incompatibilidades
nos escravizam e nos paralisam com o tempo, ele conseguiu se tornar senhor
das suas, sem escorregar para a sabedoria, sem se afundar nela."
Cioran herdou a descrença de Nietzsche
e a forma de narrar de La Rochefoucauld e Pascal, inspirou-se nos filósofos
místicos e foi guiado pelos poetas: “Embora freqüentasse
os místicos, no meu foro íntimo estive sempre do lado do
demônio: não podendo me igualar a ele pela força,
tentei ser equivalente ao menos pela insolência, pela aspereza,
pelo arbítrio e pelo capricho.”
Em “Exercícios de Admiração”,
o autor de aforismos, silogismos e breviários, desvenda o universo
literário de Samuel Becket, autor de Malone Morre: “Muitas
de suas páginas me soam como um monólogo após o fim
de algum período cósmico. Sensação de entrar
num universo póstumo, em alguma geografia imaginada por um demônio,
livre de tudo, até mesmo de sua maldição”.
Uma das falas do protagonista Malone sintetiza o pensamento de Becket:
“O tempo que temos para passar na terra não é tão
longo para que o utilizemos em outra coisa além de nós mesmos”.
Já
no perfil de Jorge Luis Borges, Cioran descreve o autor argentino como
um intelectual sem pátria, um aventureiro, um “monstro magnífico
e condenado”, alguém que poderia “tornar-se um símbolo
de uma humanidade sem dogmas nem sistemas e, se existe uma utopia que
subscreveria de bom grado, seria aquela em que cada um o tomasse como
o modelo, um dos espíritos menos pesados que já existiram,
o último dos delicados”.
Há outros ensaios, exercícios,
evocações que ajudam a traçar o percurso existencial
de Cioran. O filósofo retrata o seu ídolo de juventude,
Otto Weinninger, analisa a obra de Joseph de Maistre, o reacionário
que defendia a Inquisição, relembra a amizade com Benjamin
Fiondane, o judeu romeno discípulo de Léon Chestov, entre
outros retratos literários.
Cioran revela-se por inteiro através
dos retratos dos seus interlocutores. O filósofo se revela ao desvendar
os outros. Segundo Saint-Beuve, o portrait littéraire
é uma forma utilizada “para produzir nossos próprios
sentimentos sobre o mundo e sobre a vida, para exalar com subterfúgio
uma certa poesia oculta.”
A arte da provocação de Cioran
encontra-se também em Baudelaire, poeta da “franqueza absoluta”,
dos Fusées e de Meu coração desnudado:
“O que consideramos verdadeiro devemos dizê-lo e dizê-lo
corajosamente. Gostaria de descobrir, mesmo se me custasse caro, uma verdade
que chocasse todo o gênero humano. Eu a diria à queima-roupa”.
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‘Escrevo
para me aliviar’
[Confissão Resumida, páginas 123
e 124;
“Exercícios de Admiração”, de E. M. Cioran]
Só tenho vontade de escrever num estado
explosivo, na excitação ou na crispação, num
estupor transformado em frenesi, num clima de ajuste de contas em que
as invectivas substituem as bofetadas e os golpes. (...) Escrevo para
não passar ao ato, para evitar uma crise. A expressão é
alívio, desforra indireta daquele que não consegue digerir
uma vergonha e que se revolta em palavras contra os seus semelhantes e
contra si mesmo. A indignação é menos um gesto moral
que literário, é mesmo a mola da inspiração.
E a sabedoria? É justamente o oposto. O sábio em nós
arruina todos os nossos élans, é o sabotador que nos enfraquece
e nos paralisa, que espreita em nós o louco para dominá-lo
e comprometê-lo, para desonrá-lo. A inspiração?
Um desequilíbrio súbito, volúpia inominável
de se afirmar ou de se destruir. Não escrevi uma única linha
na minha temperatura normal. (...) Escrever é uma provocação,
uma visão infelizmente falsa da realidade, que nos coloca acima
do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo
mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do
escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que,
livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem
magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa. Nada mais
miserável do que a palavra, e no entanto, é através
dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação
última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento
de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo
próprio símbolo da fragilidade! Pode-se alcançá-lo
também, curiosamente, através da ironia, com a condição
de que esta, levando ao extremo sua obra de demolição, cause
arrepios de um deus às avessas. As palavras como agente de um êxtase
invertido... Tudo o que é realmente intenso participa do paraíso
e do inferno, com a diferença de que o primeiro só podemos
entrevê-lo, enquanto o segundo temos a sorte de percebê-lo
e, mais ainda, de senti-lo. Existe uma vantagem ainda mais notável
de que o escritor tem o monopólio: a de se livrar de seus perigos.
Sem a faculdade de encher as páginas me pergunto o que eu viria
a ser. Escrever é desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar
seus segredos. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas
ficções que são as palavras para se curar. Quantas
angústias, quantas crises sinistras venci graças a esses
remédios insubstanciais!
16-02-2003

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