Cidades
Leonel Moura A
cidade é a referência maior da cultura humana. Se nos tempos
antigos possibilitou a concentração de saberes, nomeadamente
na biblioteca esse grande objecto urbano, ou o nascimento da democracia
com a política a derivar directamente da polis, a partir dos séculos
XIX e XX ela surge já como entidade destacada do resto, simultaneamente
produtora e produção de um novo humanismo e centro de todas
as expectativas sociais e culturais.
Esse resto, o campo, cuja última configuração
política se reconhece no feudalismo, afirma-se gradualmente como
território de reserva moral e reaccionária contra as cidades.
Mesmo a ideia de revolta social, que reconhecemos ainda nas sucessivas
rebeliões camponesas medievais, dá lugar à revolução
urbana estabelecida ao longo dos séculos XVIII e XIX e de que a
Comuna de Paris (1871) será o grande modelo insurreccional.
“A Comuna não teve chefes. E
isto num período histórico em que a ideia de que era preciso
tê-los dominava o movimento operário. Assim se explicam os
seus fracassos e os seus sucessos paradoxais. Os responsáveis oficiais
da Comuna são incompetentes (se tomarmos como referência
o nível de Marx ou Lenine, e mesmo Blanqui). Mas ao invés
os actos irresponsáveis desse momento são precisamente
a reivindicar pelo movimento revolucionário do nosso tempo”
(Internationale Situationniste).
A insurreição é um conceito
baseado na auto-organização de um conjunto de indivíduos
autónomos, agindo sobre um ambiente estimulado. Só a cidade
configura esse ambiente estimulado.
A própria figura do revolucionário,
vestido para a urbe e acompanhado obrigatoriamente de livros e jornais,
esses grandes produtos citadinos, define um protagonista singular dedicado
inteiramente à stigmergia. O revolucionário, seja ele, social,
cultural ou científico, deposita a sua rebeldia, as feromonas,
na cidade, único lugar onde existe suficiente gente disponível
para o jogo da imitação e da mudança. “O movimento
e o barulho das ruas, as montras das lojas, a agitação frenética
e impulsiva das existências, criam um efeito magnetizador. Ora,
a vida urbana, não é a vida social concentrada e levada
ao extremo?” (Gabriel Tarde, 1890)
De todas as definições possíveis
de cidade, e são muitas, a mais simples, maior concentração
e quantidade de pessoas, é também a que melhor descreve
a condição mínima para que o novo se possa produzir.
Sem essa condição, a evolução não é
possível. As revoluções camponesas, a russa e a chinesa,
fracassam por falta de massa crítica urbana. As vanguardas saem
completamente derrotadas do embate com o conservadorismo aldeão.
Maiakovsky, Malevitch e o construtivismo russo, não podem ser compreendidos
por um poder soviético pretensamente revolucionário, mas
de facto, economicamente rural, socialmente patriarcal e culturalmente
burguês.
Frantz Fanon, o impulsionador da luta anticolonial
e um dos poucos pensadores modernos a desenvolver uma teoria da violência
na sua vontade de desencadear a guerra contra o colonialismo, esbarra
com a condição dos colonizados que Sartre tão bem
caracteriza ao dizer que “a Terra conta neste momento com dois biliões
de habitantes. Quinhentos milhões de homens e bilião e meio
de indígenas” (Sartre, 1961).
Sem cidades, sem uma cultura urbana, Fanon
imagina que a violência, por si só, é capaz de “desintoxicar”
as massas aldeãs do terceiro mundo, libertando-as “do complexo
de inferioridade, das suas atitudes contemplativas ou desesperadas”.
“A violência como prática é totalizante, nacional”
e por isso conduz à “liquidação do regionalismo
e tribalismo” (Fanon, 1961). A instauração de regimes
ditatoriais, fantoches e tribalistas, logo após as guerras de libertação
a que por morte precoce não pode assistir, demonstra que não
é assim. A violência primitiva arrasta consigo o próprio
primitivismo. Só a cultura urbana é capaz de gerar uma violência
crítica capaz de fazer frente à violência sistémica
do capitalismo.
A partir da década de 60, Henri Lefebvre
e os situacionistas mostram que a cidade não é só
uma máquina infernal da reprodução capitalista, mas
também o lugar da vida quotidiana e que, portanto, o conflito
é inevitável. Em Maio de 68 a tese é comprovada.
Mas após estes eventos, por acção combinada da política
conservadora, das polícias e dos urbanistas, a cidade desaparece
do centro do debate crítico. Durante duas décadas ela torna-se
um problema exclusivo do planeamento e das políticas municipais.
Com um resultado à vista. Desaparecimento do espaço público
através de uma privatização extensiva; uniformização
das centralidades que agora só têm a valência comercial;
degradação dos serviços públicos, em particular
os de transporte; aumento da miséria e da exclusão.
Também a criminalidade cresceu entretanto
bastante. Ainda que se deva distinguir dois tipos. A dos pobres, espontânea
e irrisória, brutalmente reprimida pelas polícias e pelo
sistema judicial. A económica, organizada e com elevadíssimos
rendimentos, com ramificações por vezes muito profundas
na administração pública e no mundo empresarial,
e por isso totalmente impune.
Assim, aquilo que conhecíamos como
cidade, grande concentração de pessoas e sinergias, foi
desaparecendo ao mesmo tempo que vastas áreas circundantes cresceram
desmesuradamente acumulando gente, miséria e conflitualidade. A
mesma pressão económica/capitalista que ontem obrigou as
populações a tornarem-se urbanas, expulsa-as agora das cidades
radiosas para os subúrbios decadentes. Os velhos modelos
definidores dos espaços, as velhas separações entre
cidade e campo, centro e periferia, perderam qualquer eficácia
para a análise das realidades. Até porque mais coisas foram
acontecendo, três delas com grande impacto sobre a vida urbana.
A agricultura transformou-se numa indústria, a economia e a informação
tornaram-se globais e surgiram, um pouco por todo o planeta, as mega-urbes.
A distinção entre cidade e
campo não tinha só a ver com uma separação
entre espaço edificado, espaço cultivado e espaço
natural, sendo que à cidade correspondia o primeiro, à agricultura
o segundo e à chamada natureza selvagem o último. O campo
era definido como uma actividade humana ancestral, constituindo o chamado
mundo rural ou cultura rural por oposto à cultura urbana, mais
actualizada e dinâmica.
A transformação da agricultura
numa indústria representou uma nova forma de ocupação
do espaço, com crescente automação, mas acima de
tudo, alterou radicalmente a condição sociológica
dos camponeses. Aquele homem rude, iletrado, imerso nas rotinas da terra,
tem vindo a ser substituído pelo engenheiro e pelo economista,
ao serviço de grandes empresas. E se alguns resistem, a vasta maioria
desloca-se para o inferno suburbano. Em 1999 só 22% da população
sul-americana vive fora dos centros urbanos, na Europa Ocidental esse
número é de 18%. A China que mantém ainda valores
de cerca de 70%, segundo dados de 1996, deverá reduzir essa proporção
para metade em 2020. O mesmo acontecendo na Índia que deslocará
250 milhões de pessoas do campo para as cidades nos próximos
20 anos. Facto marcante pelo peso destes dois países na população
global.
Uma tal concentração não
significa contudo uma revalorização do urbano, essencialmente
criativo e inovador, mas antes uma espécie de ruralização
e precarização das vidas amontoadas nos cada vez mais extensos
e impressionantes subúrbios.
Contrariando também o mito techno-optimista
da pretensa aldeia global, já que aldeia faz supor uma
coesão, comunitária, que de todo não existe, a introdução
das novas tecnologias não operou nenhuma modificação
significativa ao nível dos comportamentos culturais e sociais.
Sendo certo que hoje circula uma enorme quantidade de informação,
na verdade, todas estas mensagens dizem praticamente uma mesma e única
coisa. Reforço das hierarquias, normalização das
condutas, trivialização dos saberes.
A sociedade da informação,
as comunicações via satélite e a Internet, criaram
um mapa (dinâmico) por cima da geografia política convencional,
mas não foram, até ao momento, capazes de dar lugar a uma
nova sociabilidade. Nem sequer tiveram qualquer efeito sobre a configuração
territorial. O muito citado trabalho online, feito a partir de uma casa
que tanto pode estar na Avenue Foch em Paris, como num lugarejo nas encostas
do Himalaia, não deu origem a nenhuma redistribuição
mais equilibrada da população. Ao invés, assistimos
a um novo tipo de convergência para as urbes empresarial/tecnológicas,
de que Silicon Valley se mantém como o mais conhecido modelo.
As
mega-urbes levantam todo um novo tipo de questões. A própria
designação é controversa, já que numa lógica
aritmética não podemos só falar de mega-cidades,
classificação corrente para urbes com mais de dez milhões
de habitantes, mas de grandes e mega-metrópoles. A divisão
territorial administrativa da cidade deixou de fazer sentido. Não
só o local e o global estão interligados, como não
é possível pensar o local, sem pensar também nos
fluxos e nas interacções de toda a espécie. No curto
espaço de uma década, o próprio enunciado foi crescendo,
mudando exponencialmente de escala. Das cidades começou a falar-se
de grande cidade, depois, áreas metropolitanas, a que se sucedeu
as mega-cidades, e hoje, as mega-metrópoles. Na zona sul da China,
que engloba, entre outras, as cidades de Zhuhai, Guangzhou e Hong Kong
vivem mais de 50 milhões de pessoas.
A vastidão de tais amontoados populacionais
desfaz qualquer noção de cidade como unicidade.
Há por fim que repensar o espaço
natural. Se a cidade não existe e o campo é agora um parque
industrial, o que aconteceu à natureza?
Nos chamados parques naturais e zonas protegidas,
os animais ditos selvagens são perseguidos, através do GPS,
por investigadores que lhes colocaram previamente coleiras e outros dispositivos
emissores de ondas. De dia, à noite, a caçar ou em acto
reprodutivo estes verdadeiros cyborgs não têm descanso. A
cultura humana, sempre perversa, diz que pretende protegê-los. De
quem? Do homem? Existe algum ponto da terra que não tenha já
sido palmilhado, cartografado, manipulado, invadido ou investido? Existe
algum ser vivo que não se encontre registado, catalogado, domesticado,
maltratado? Se existir, equipas de jovens cientistas e bandos de caçadores
furtivos andam à procura deles e não tardarão a encontrá-los.
O planeta é agora uma única
e vasta urbe. Nuns locais concentram-se muitos humanos e edificações,
noutros indústrias de toda a espécie e noutros ainda parques
temáticos de tipo ecológico. A urbanização
é global. O que explica a crescente necessidade de dar nome, de
produzir significados, tarefa a que a arquitectura, mais do que qualquer
outra forma de expressão cultural, tem procurado dar resposta.
Como afirma Manuel Castells “a produção de significado
nestas constelações urbanas sem nome relaciona-se com a
emergência de uma nova monumentalidade e novas formas de centralidade
simbólica capazes de identificar os lugares” (Castells, 2002).
As urbes descomunais, de tal forma territorialmente extensas que inviabilizam
qualquer percepção global, criam elevadíssimos picos
de feromona simbólica para se tornarem visíveis. Atraindo
assim tentaculares trilhos humanos na sua direcção e portanto
crescendo ainda mais. O mundo pode assim ser visto como um campo de picos
de feromona.
Modelo que explica ainda um outro efeito
determinante. Quem se encontra no alto de um pico vê à sua
volta uma paisagem acidentada e diversificada. Mas aqueles que estão
em baixo, nos vales fundos ou nas planícies estéreis, não
têm qualquer ponto de referência, não lhes chega o
mais leve odor civilizacional. Vegetam no mais profundo abandono e miséria.
Texto retirado do livro Formigas, Vagabundos e Anarquia
(Lisboa, AAAL, 2003)
03-06-2003

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