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Vagabundos |
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Leonel Moura Capítulo do livro "Formigas, vagabundos e anarquia" (a sair brevemente)
Numa primeira fase terão sido realizados de forma aleatória, a que várias passagens de caminhantes vão acrescentando alternativas cada vez mais eficientes, ora encontrando a passagem mais curta, ora a mais conveniente e às vezes a mais lúdica. Ao fim de algum tempo os primeiros caminhos, porque deixam de ter uso, começam a desaparecer, voltando a crescer erva ou dissipando-se pela acção da natureza. O caminho é assim o resultado tanto da impressão deixada pelas botas dos caminhantes, quanto do apagamento provocado pela falta de uso. Para além disso, a grande maioria dos que com a sua passagem constróem estes caminhos humanos não comunicam entre si, não estabelecem nenhum plano, nem definem previamente regras de comportamento. Não se conhecem, nem, algumas vezes, se querem conhecer. Existindo aliás disparidades temporais importantes. Um caminho pode resultar de anos de travessias e novas modificações vão sendo constantemente introduzidas. Trata-se de uma alteração do ambiente, mas uma alteração que cria um novo ambiente sobre o qual cada passante vai agir. Ora consolidando, ora voltando a modificar, aquilo que Vitorino Ramos designa por "sinergia ambiental/geográfica distribuída". Das grandes rotas aos pequenos atalhos, assistimos a um processo de optimização baseado nos mais simples mecanismos comportamentais e na stigmergia. O conceito de stigmergia, do grego stigma ou marca e ergon ou trabalho, foi introduzido por Pierre-Paul Grassé no final dos anos 50 para descrever uma forma particular de comunicação indirecta entre indivíduos, no caso, nos estudos que desenvolveu sobre os insectos sociais (Grassé, 1959). Pode ser definido como um exemplo particular de sinergia ambiental ou espacial. A alteração de um ambiente por deposição de feromona por um indivíduo, desencadeia um estímulo noutros indivíduos que por sua vez depositam mais feromona. Claro está que existem aqui dois estímulos diferentes. A quantidade de feromona e a qualidade, ou seja, o tipo de odor. O que introduz outros factores de complexidade. Nas formigas, por exemplo, a feromona não serve só a stigmergia ambiental, serve igualmente como distinção entre espécies. Ou como disparo ou desencadeamento de uma acção. Contudo, mesmo na sua aplicação mais simples, é evidente a pertinência do mecanismo para a compreensão dos fenómenos não-lineares de cooperação nos animais e nos indivíduos ou mesmo para explicar a deriva urbana. Nas cidades os caminhos são aparentemente traçados pelos gabinetes de planeamento municipal. Mas, na verdade, ruas, casas, praças, foram surgindo ao sabor de um processo de construção/destruição, através de uma permanente confrontação de interesses e expectativas, produto da acção individual e dos conjunturais consensos colectivos. As cidades não são estáticas e o seu mapa, quando observado localmente, é dinâmico. Nas vidas correntes, amarradas à rotina dos trajectos da sobrevivência económica, não se consegue perceber a real complexidade ambiental. É preciso abandonar as vias da normalização social, cair na rua, mergulhar na vadiagem para que a urbe se ilumine. O escritor inglês Thomas De Quincey é um dos primeiros, em tempo moderno, a praticar a deriva urbana vagabunda: "via-me de repente perdido em vielas labirínticas, becos enigmáticos, esfíngicas ruas sem saída" e "mais de uma vez me convenci de que era eu o descobridor de algumas daquelas terrae incognitae e duvidava que elas estivessem assinaladas nos modernos mapas de Londres" (Quincey, 1821). De Quincey confessa como uma das suas "enfermidades congénitas" o eudemonismo. "A minha grande aspiração é alcançar a felicidade, tanto a minha como a dos outros; não posso ver miséria à minha frente". O que justifica a errância pelo "labirinto de Londres" partilhando as vidas difíceis, observando tanto os que "estão no cimo" como os que "estão na base". Nas Confissões, faz o retrato do Todo, da cidade e da sociedade, utilizando o método da deriva. "Subindo e descendo a Oxford Street", vagueando pela "cidade sem olhar ao rumo ou à distância", descobre os mecanismos simples de que se faz a vida quotidiana, e não deixa, aqui e ali, de retirar inesperados ensinamentos: "o pobre é muito mais filósofo do que o rico". O que dá razão a quem entende o mecanismo da selecção, tão utilizado na computação evolutiva, não como o domínio do mais forte, mas como máquina de cooperação. Aliás, os mais fracos tendem a prevalecer sobre os mais fortes, não só porque são a maioria, mas por serem os mais habilidosos. De Quincey estabelece um paradigma de vagabundo que em nada se assemelha aos excluídos que actualmente vagueiam pelas metrópoles civilizadas, verdadeiros homens-lixo expulsos da própria condição humana (Moura, 1996). O vadio quinceyano está engajado na guerra social, é culto e letrado, pois mesmo nas piores circunstâncias estuda a "metafísica alemã, nos livros de Kant, Fitche, Schelling", ou ouve Ópera: "não tinha trabalho, não precisava de descanso; não tinha salário a receber; que outras preocupações podia eu ter no sábado à noite, para além da intimação para ouvir a Grassini?" A sua influência é enorme, nos surrealistas, nos situacionistas e, em geral, em todos os praticantes da crítica do urbanismo. Uma cidade só se compreende caminhando pelas suas ruas e pelas suas misérias. Só através desta visão do que está em baixo, é possível compreender a emergência do novo e do que aí vem. Não é seguramente na segurança dos lares medianos e nos planos estratégicos, que encontramos a cidade que podia-ser. Aí só conhecemos a cidade que está. O vagabundo quinceyano, na sua aparente solidão e precaridade, realiza essa transformação. Deixando o seu rasto, modifica ambientes e existências. A literatura está repleta deles e, em boa medida, nada seria sem esse contributo vadio. A deriva é a constante dos relatos modernos. Faz as páginas de James Joyce, Henry Miller, William Burroughs ou Jack Kerouac: "sigo a minha vida para onde ela me levar". Em Fernando Pessoa ela é uma heteronímia. A lista é extensa. No cinema também. Quem fica indiferente à deambulação de Tóto e Ninetto Davoli nesse extraordinário filme de Pier Paolo Pasolini de 1966, "Uccellacci Uccellini"? O método é afinal bem simples. O vagabundo, desprovido de tudo, passeia-se sem rumo, intencionalidade ou poder particular. Mas através desse simples acto singular revela-nos do que é feito o mundo e transforma-o de forma irremediável. Nada fica incólume à sua passagem. O vagabundo atravessa as ruas com a violência da sua exemplaridade. Pondo em causa a falsa segurança e normalidade das vidas correntes, redesenha o mapa social. Walter Benjamin também vê na vadiagem uma conduta capaz de fornecer "uma nova interpretação" do mundo. A sua obra é uma permanente deriva entre lugares físicos e lugares intelectuais. E a sua própria vida uma saga ética que termina tragicamente em 1940 perto de Port-Bou, na Catalunha, quando tenta escapar à barbárie nazi e chegar a Lisboa. Benjamin é um vagabundo intelectual que deambula por entre as suas próprias reflexões. A sua cidade é o pensamento. As ruas, as praças, as avenidas, são ideias que ele persegue ao sabor de uma deriva experimental. Este ambiente, que se assemelha a um campo de feromonas, é particularmente vívido no livro inacabado e genericamente conhecido por Passagens. Nele Walter Benjamin reúne centenas de notas dispersas, citações, ideias, descrições, criando assim uma cidade na qual se passeia à procura de sentido. Se fosse possível desmontar o livro e torná-lo numa superfície acidentada, repleta de picos, tanto mais altos quanto maior o estímulo intelectual, teríamos então uma visão do mapa cognitivo benjaminiano. Nas suas reflexões, Benjamin distingue entre rua e caminho. Considera este mais "antigo", algo aleatório e por isso perturbador, enquanto a rua seria já uma direcção, apaziguadora portanto, mas também bastante mais monótona. Reconhece, assim, que numa perspectiva evolutiva o traçado de uma rua é menos dinâmico, autoritário e condicionador, cuja mudança implica sempre o recurso a alguma violência. As barricadas nas revoltas populares são uma forma de reconstruir as ruas. De lhes introduzir uma nova condição, devolvendo a espessura social à sua rigidez. Quando as massas descem às avenidas é antes de mais para redesenhar a cidade - e por isso os poderes instalados têm tanto pavor que o poder caia na rua. Numa cidade viva, isto é, onde não só a vivência individual e colectiva é possível, mas, também, onde o tecido urbano tem capacidade de adaptação, não pode existir planeamento. Nas actuais metrópoles, dominadas pela razão económica, a constante mudança das centralidades é basicamente fruto da auto-organização mercantil, social e cultural. Não sendo possível alterar a configuração dos lugares é o nomadismo que ganha terreno. Certas zonas, que num momento são um forte ponto de atracção colectiva, passado algum tempo, estão desertas porque não conseguem manter a diversidade. Se olharmos para uma cidade moderna, assistimos, mesmo em curtos períodos, a grandes movimentações humanas, povoando e despovoando áreas que se refazem e desfazem, segundo mecanismos emergentes. Na vida nocturna, lúdica, esse movimento é muito veloz, mas, em geral, ele pode ser observado no campo da habitação e das principais actividade sociais e económicas. Quando se constrói o Museu de Frank Gehry em Bilbau, é toda a cidade que se contorce e adapta em direcção à nova monumentalidade. Sem deriva, a cidade é um deserto morto e enfadonho. Ninguém como os situacionistas levou tão longe a prática e a teoria da vadiagem crítica. A Internacional Situacionista (I.S.) nasce em 1957 da fusão de vários movimentos radicais. O Movimento Internacional para um Bauhaus Imaginista, onde se encontram os artistas Asger Jorn (figura central do grupo Cobra) e Pinot Gallizio (fundador do Laboratorio Experimental de Alba e criador da pittura industriale), a Internacional Letrista com Guy Debord e Michéle Bernstein e o Comité Psicogeográfico de Londres de Ralph Rumney1. O surrealismo, que aparece ainda por esta altura como grande referência de demarcação cultural, conta na verdade muito pouco. Todos estes movimentos e personagens já saltaram de paradigma, mesmo se alguns não se deram bem conta. Asger Jorn mantém a prática da pintura até ao fim da vida, tentando adaptar à pintura convencional as teorias do desvio e da crítica social radical. É, apesar disso, um dos grandes teóricos da fase cultural do movimento. Também Pinot Gallizio não consegue retirar as devidas consequências da sua pintura industrial, isto é, de uma arte feita por máquinas. Abrindo o caminho à automação, persiste contraditoriamente na promoção da unicidade do objecto. Mas se alguns protagonistas têm dificuldade em superar a realização da arte, já o meio artístico e cultural compreende claramente o perigo para a sua sobrevivência de tais atitudes e propostas, desencadeando assim uma guerra aberta às ideias situacionistas. Aliás, o radicalismo crítico deste movimento e a sua recusa em alimentar o espectáculo cultural também nunca facilitaram uma recuperação suave. O novo paradigma, a construção de situações, não é sequer compreensível para uma prática artística baseada na produção de objectos ou, no seu melhor, num jogo contextual. Os situacionistas não querem continuar a operar em contextos predeterminados, querem criar novos contextos. A deriva e a psicogeografia são, nesse primeiro tempo da actividade situacionista ainda bastante ligada à arte, os comportamentos que conduzem à construção de situações. E neles vamos encontrar o essencial de uma crítica do urbanismo que, por aprofundamento, conduz à crítica geral do capitalismo e da sociedade do espectáculo a que se dedicará totalmente a I.S. a partir dos anos 60. "Se o Urbanismo Moderno ainda não foi nunca uma arte - nem por maioria de razão um quadro de vida -, foi sempre em contrapartida inspirado pelas directivas da Polícia; e que, bem vistas as coisas, se Haussmann construiu os nossos bulevares foi apenas em vista de uma maior comodidade para o transporte de canhões" (Potlatch, 20 de Julho de 1954)2. Como prática, a deriva situacionista trata da circulação aleatória pelas ruas procurando algum ponto de interesse. "As grandes cidades são favoráveis à distracção a que nós chamamos deriva. A deriva é uma técnica da deslocação sem objectivo. Baseia-se na influência do cenário" (Potlatch, 30 de Novembro de 1954). Esta vagabundagem aprofunda o mecanismo quinceyano, não sem, por vezes exagerar no gosto metodológico. "A duração média de uma deriva é um dia, considerado como o intervalo de tempo compreendido entre dois períodos de sono. Os pontos de partida e de chegada, no tempo, em relação ao dia solar, são indiferentes, mas é preciso notar que as últimas horas da noite são geralmente impróprias à deriva" (Debord). "A deslocação sem objectivo e modificada arbitrariamente pelo caminho" (Potlatch, 17 de Agosto de 1954) é o princípio base deste comportamento essencialmente aleatório. O acaso das situações, dos percursos e dos encontros assume um carácter experimental, quase científico, que altera o estado do próprio indivíduo. "A psicogeografia é o estudo dos efeitos exactos do meio geográfico, conscientemente ordenado ou não, que age directamente sobre o comportamento afectivo dos indivíduos" (Debord). Estes novos vagabundos não desejam simplesmente reconstruir a errância urbana/poética de Breton, expressa magistralmente em Nadja (1928). Embora historicamente venha em linha directa da deambulação surrealista, a deriva situacionista pretende acima de tudo construir situações como "momento da vida, concreta e deliberadamente construído pela organização colectiva dum ambiente unitário e dum jogo de acontecimentos." "A situação é feita para ser vivida pelos seus construtores" (I.S., 1958-69). Os surrealistas procuram no conjunto das suas actividades relacionais e aleatórias - a descrição dos sonhos, o cadavre exquis, os jogos colectivos e a exploração do acaso - a emergência do irracional e do inconsciente. Breton explica deste modo como se deve desencadear a escrita automática: "peça algo com que escrever, depois de ter arranjado um lugar favorável à concentração do espírito sobre si mesmo. Coloque-se no estado mais passivo, ou receptivo, possível. Esqueça o seu génio, o seu talento e aquele de todos os outros" (Breton, 1929). A desconstrução do texto é uma desconstrução da arte. Os surrealistas são um movimento claramente artístico e por vezes anti-arte, enquanto os situacionistas, que lhes sucedem no tempo e nalgumas ideias, pretendem dedicar-se já à "superação da arte" e à "construção global da existência". O primeiro tempo da I.S., embora condicionado pelos movimentos culturais precedentes, consolida os princípios de base que vão permitir ao movimento atravessar a década e meia que durou. Deriva, situação construída, crítica do urbanismo, vida quotidiana, sociedade do espectáculo, são conceitos radicalmente novos no discurso social dos anos 50 e, em boa medida, ainda o são hoje. A esquerda de então debatia exclusivamente a questão leninista do poder. Os vários marxismos, todos ortodoxos, confrontavam-se na melhor forma de tomar o aparelho de Estado. Nunca de o superar. E interessavam-se sobretudo pelos partidos. Nunca pelas existências concretas. Se exceptuarmos, para além dos situacionistas, o grupo de reflexão "Socialisme ou barbarie"3 , a segunda metade do século XX revela uma impressionante incapacidade em produzir novas teorias revolucionárias. Marxismo, socialismo, comunismo e anarquismo são velhas histórias enraizadas no século XIX. E nas ciências sociais, só o feminismo norte-americano é claramente inovador. Mas os situacionistas não inventam apenas um conjunto de conceitos. Aquilo que os torna realmente únicos no contexto de uma praxis política geral caracterizada pela manipulação, falsidade e incoerência, é a exemplaridade dos seus actos e posturas. Esse comportamento deu aliás lugar a uma verdadeira mitologia em torno do movimento e de Guy Debord, desencadeando recorrentes fenómenos de epigonismo que duram até hoje. Ao longo da sua relativamente curta história, a Internacional Situacionista assume uma intransigência absoluta quanto à coerência do movimento. Expulsando, por exemplo, logo em 1960, os arquitectos holandeses Alberts e Oudjeans quando estes aceitam fazer o projecto de uma Igreja. Para a I.S. a "exclusão é uma arma possível e necessária. É a única arma de qualquer grupo fundado sobre a liberdade completa dos indivíduos" (I.S.). O poder da I.S. assenta assim na irremediável exemplaridade de um pequeno grupo de pessoas reunidas em torno do projecto de desmantelamento do mundo. Tarefa tão grandiosa que a maioria não consegue suportar e, por deserção ou expulsão, acaba por abandonar. E é por isso que, sem Guy Debord e a sua capacidade de manter até ao fim da vida uma extrema coerência, o movimento não teria adquirido a importância singular que não pára de crescer. Mesmo na morte, por suicídio, ou seja, por decisão soberana e livre, Debord reafirma a construção meticulosa de uma exemplaridade. 11-12-2002 [1] A I.S. é extinta em 1972. Edita uma revista com o mesmo nome entre 1958 e 1969. [2] "Potlatch era enviado gratuitamente para endereços escolhidos pela sua redacção, e algumas das pessoas que solicitavam recebê-lo. Nunca foi vendido. Potlatch teve uma tiragem de 50 exemplares no seu primeiro número. A sua tiragem foi aumentando constantemente, atingindo no final mais de 400, ou talvez 500 exemplares. Precursor daquilo a que se chamou por volta de 1970 "a edição selvagem", mas mais verídico e rigoroso na sua rejeição da relação mercantil, Potlatch, obedecendo ao seu título, foi sempre dado, durante todo o tempo da sua edição." Debord, Guy (1985) Potlatch, Éditions Gérard Lebovici, Paris [3] O grupo francês "Socialisme ou barbarie" conduz ao longo da sua existência, 1949-1965, uma implacável análise crítica dos movimentos sociais, nomeadamente questionando a tendência dominante para a burocratização e hierarquização. Cornelius Castoriadis, 1922-1997, é justamente um dos seus mais conhecidos teóricos. |
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