George Orwell: Anatomia do fanatismo
e do ódio
Leonidas Donskis
publicado originalmente em Eurozine
Leonidas Donskis faz uma reflexão
sobre os ensaios de George Orwell que consideram o nacionalismo como raiz
do fanatismo político e ideológico. Partindo dos argumentos
de Orwell, Donskis defende que uma forma de nacionalismo liberal e reflectido
pode servir, de facto, para questionar de forma crítica o nosso
próprio país e cultura.
| |
A loucura é
um fenómeno raro em indivíduos –
em grupos, partidos, povos e eras, é a regra.
Friederich Nietzsche, Para além do Bem e do Mal |
George
Orwell (1903-1950) desempenhou um papel decisivo na luta contra a consciência
totalitária e o ódio organizado. Foi através das
suas sátiras, distopias e ensaios políticos que a literatura
de humanistas solitários e liberais cépticos se tornou no
campo de batalha no qual a natureza cínica da política violenta
e do ódio organizado do século XX foi exposta de uma forma
estimulante. Não só expôs o totalitarismo e o ódio
ideocrático, inerente à era do fazer e desfazer de inimigos,
mas também pôs a nu as trajectórias da consciência
e da imaginação modernas, características das sociedades
ocidentais, e profundamente sintomáticas da fabricação
de adversários políticos e ideológicos. Podemos dizer
que o nome de Orwell se tornou na bandeira erguida por todos quantos acreditaram
no valor da singularidade da vida humana, da razão individual e
da consciência individual.
Pode dizer-se que a busca de inimigos e a
invenção de adversários foi um dos temas principais
de Orwell, que permeia a sua ficção e os seus ensaios políticos.
Ele decifrou a política do ódio organizado que resulta dos
fantasmas e das tramas da perturbada imaginação moderna
como mais ninguém na literatura e na filosofia. Se pensarmos que
a Europa Central e de Leste pode muito bem ter-se tornado um caso de experiência-limite,
dentro da história universal, no que à intensidade e à
loucura do ódio político e ideológico moderno diz
respeito, então Orwell merecia o título de cidadão
honorário da Europa Central e de Leste. 1984 ainda é o exemplo
espantoso e ainda não superado do poder de análise social
e reflexão moral que a literatura pode ter. Animal Farm surge como
a primeira sátira social a capturar a inadequação
trágico-cómica entre a fase inicial da revolução,
idealista e romântica, e as práticas totalitárias
que se seguem, as quais, sendo muito mais do que distorções
de uma teoria válida, decorrem inexoravelmente da natureza da revolução.
É no entanto o seu ensaio reflexivo
“Notes on Nationalism” que nos dá pistas sobre a origem
do fanatismo político e ideológico, muito mais do que as
suas distopias notáveis. Não tendo encontrado uma palavra
melhor para descrever este fenómeno inquietante do século
XX, Orwell usa “nacionalismo”, que aqui quer claramente dizer
algo diverso daquilo que os estudiosos do nacionalismo entendem, equipados
com a sua sabedoria académica convencional.
| |
Por “nacionalismo”
quero referir, em primeiro lugar, ao hábito de pressupor
que os seres humanos podem ser classificados como insectos, e que
porções inteiras de milhões ou dezenas de milhão
de pessoas podem ser tabeladas de “boas” ou “más”
com toda a convicção. Em segundo lugar – e isto
é mais importante – refiro o hábito de alguém
se auto-identificar com uma nação ou outra unidade
singular, colocando-a para além do bem e do mal, e não
reconhecendo outro dever senão a defesa dos seus interesses.
O nacionalismo não deve ser confundido com o patriotismo.
Ambas as palavras são usadas de uma forma tão vaga,
que qualquer definição pode ser questionada; no entanto,
devemos estabelecer as diferenças entre as duas palavras,
uma vez que estamos perante duas ideias diversas e mesmo opostas.
Por “patriotismo”, entendo a devoção a
um local e a um modo de vida particulares, que acreditamos ser o
melhor do mundo, sem que isso nos leve a querer impô-lo a
outros. O patriotismo é por natureza defensivo, tanto militar
como culturalmente. O nacionalismo, pelo contrário, é
inseparável do desejo pelo poder. O propósito regulador
de cada nacionalista é conseguir mais
poder e mais prestígio, não para si próprio,
mas para a sua nação ou outra unidade na qual escolheu
dissolver a sua individualidade. (1) |
Na verdade, é fácil defender
o nacionalismo da crítica devastadora de Orwell. Por exemplo, pode-se
argumentar que o que ele descreve como a tendência para colocar
o objecto da nossa devoção e afecto para além do
bem e do mal, e para não reconhecer outro dever para além
da defesa dos seus interesses, diz respeito a um nacionalismo radical
conservador, e não a um nacionalismo liberal. Acresce que podemos
defender o nacionalismo lembrando a miríade de formas nas quais
se manifesta. O nacionalismo liberal, que era obviamente a primeira fase
do nacionalismo na primeira metade do século XIX, pode ser visto
como uma forma do próprio liberalismo. A concepção
de Herder de cada cultura como uma espécie de indivíduo
colectivo, único, auto-suficiente, afirmativo e insubstituível,
não pode ser vista de outra forma que não como uma versão
de liberalismo, alemã ou centro-europeia.
O nacionalismo liberal foi desde sempre,
e ainda é, um quadro de interpretação e de regulação
para o questionamento crítico da nossa própria cultura e
sociedade, muito mais do que uma glorificação surda e cega
da nossa cultura e história. Enquanto filosofia moral e social,
o nacionalismo liberal estabeleceu uma tradição importante
da cultura intelectual, cuja essência reside na crítica moderna
da sociedade e da cultura. Para além disto, o liberalismo e o nacionalismo
democrático sustentam a nossa sensibilidade intelectual moderna
moralmente fundada. É irónico que, ao descartar o nacionalismo
todo de forma tão ligeira, Orwell descarte aquilo que é
a sua contribuição substancial para o mundo democrático
moderno, justamente a luta contra o totalitarismo. No entanto, ele não
vira este tipo de nacionalismo, cujos méritos na luta
contra o totalitarismo viriam a marcar a história do século
vinte da Europa central e de leste. (2)
Lamentavelmente,
na segunda metade do século dezanove, o nacionalismo europeu tornou-se
progressivamente defensivo, orientado para as massas, ideológico
e doutrinário. Em parte, parece que isto se deveu ao impacto do
Darwinismo Social, mas também devido a algumas reacções
fortemente anti-modernistas, que capitalizaram na ideia da defesa da nação
contra inimigos internos e externos. Em muitos casos o nacionalismo tornou-se
primitivo e “zoológico”. No entanto, nem sempre assim
foi. Na primeira metade do século dezanove a Europa estava cheia
de nacionalistas liberais que defendiam as ideias da irmandade universal,
companheirismo humano (fellowship), reciprocidade moral, empenho e compreensão
solidária, e que acreditavam firmemente na luta pela independência
e liberdade de cada país como uma causa comum. A época da
primavera dos povos, bem como da filosofia da cultura generosa e nobre
de Herder, é totalmente discontínua da variante do nacionalismo
que podemos descrever como “sangue-e-território”. Se
não fizermos confluir O Nacional-Socialismo – enquanto ideologia
racista e plano para uma ordem mundial – com nacionalismo, então
teremos de admitir que a tendência geral para atribuir todos os
males do século vinte ao nacionalismo é, no mínimo,
estranha. A ética do nacionalismo liberal foi instrumental para
desacreditar e, consequentemente, desmantelar, o totalitarismo. Nos países
comunistas, mesmo o nacionalismo conservador desempenhou um papel importante,
ao defender formas fundamentais dos direitos e da dignidade humana como
o direito de expressão, consciência e associação,
bem como a liberdade para praticar a religião e a cultura próprias.
Isto não quer dizer, no entanto, que
todas as formas de nacionalismo sejam compatíveis com os ideais
da paz e da democracia. Uma espécie de para-ideologia, o nacionalismo
mostrou-se adaptável a todas as principais ideologias modernas,
nomeadamente o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo, o que faz
com que o nacionalismo seja um fenómeno vago da política
e da cultura modernas. Como o próprio Orwell admite, qualquer definição
de nacionalismo está condenada a ser incompleta. Se é esse
o caso, qualquer definição de nacionalismo pode ser contestada.
Por princípio, o “nacionalismo” não pode funcionar
como um termo abstracto e polissémico. Ao fazê-lo, retiramos
qualquer sentido ao termo. Simplesmente não faz sentido desligar
o nacionalismo do quadro ideológico dentro do qual surge e que
define identidade, liberdade, tradição, poder, autoridade,
virtude e outros fenómenos-chave da cultura e da política
em cujo nome fala. Separar o nacionalismo do enquadramento político
concreto dentro do qual funciona é um erro imperdoável.
Numa democracia liberal o nacionalismo pode ser integrado na cultura moral
liberal, e consequentemente adaptado a um quadro pluralista. É
óbvio que não será sempre este o caso: mesmo numa
democracia liberal, o nacionalismo pode ser ajustado, ou traduzido numa
uma série de sentimentos racistas e xenófobos, reacções
anti-modernas, ou sistemas anti-liberais de moralização,
como a cultura do determinismo. Em regimes não democráticos,
o nacionalismo pode ser traduzido em todo o tipo de retórica militante
dominante, ou configuração simbólica de facciosismo
político e ideológico. Como quadro de referência para
a mística do sangue-e-território, pode ainda ser incorporado
no padrão mais abrangente de ódio e paranóia promovidos
pelos grupos-de-ódio motivados politica, religiosa ou ideologicamente,
qualquer que seja o seu disfarce. Não faz sentido – e é
injusto – tratar o nacionalismo sem definir o seu enquadramento
ideológico e as suas circunstâncias políticas.
Com o patriotismo estas questões também
não são transparentes. Se a faceta liberal do fenómeno
implica a questionação crítica da sua própria
sociedade e cultura, o patriotismo é, em muitos casos, uma espécie
de adesão e identificação com um determinado país,
o seu território, cultura, paisagem, língua e símbolos
de poder. Este tipo de adesão e identificação é
normalmente desprovido de uma abordagem crítica.
Do princípio “o meu país, certo ou errado”,
pode muito bem dizer-se que tem sempre sido a quintessência do patriotismo.
(3)
Enquanto um nacionalista criticaria asperamente
qualquer desvio àquilo que assume como a substância moral
do seu objecto de devoção e empenho, uma patriota insistiria
que nenhum facto ou evento poderia impedi-la de ser fiel ao seu país.
Na percepção de um patriota, qualquer forma de governo ou
de regime político é parte inalienável do seu país,
e como tal deve ser apoiado. A lealdade é necessária, em
oposição àqueles que criticam de forma demasiado
dura, ou àqueles que não lhe querem bem, tanto no interior
como no exterior. A linha que separa, por um lado, o patriotismo em pequena
escala, tímido e apologético e, por outro lado, a adesão
imperial e identificação com o território enquanto
símbolo da coroa ou da história majestática, isto
é, o Landespatriotismus, pode não ser assim tão
evidente como Orwell imaginava. Ambos se apoiam num vago sentimento de
território e numa ideia vaga da superioridade do seu país
em relação ao resto do mundo. Ambos rejeitam a perspectiva
crítica na abordagem do próprio país, que é
percepcionado como um objecto de orgulho e de defesa contra os que lhe
desejam mal, mais do que uma materialização de uma ligação
entre a realidade social e a imaginação moral.
Por muito espantoso que possa parecer, Orwell
parece ter aplicado a ética do nacionalismo liberal à sua
crítica social e cultural, em vez de ter sido apenas um patriota
inglês com sentido de justiça, que se opunha ao chauvinismo
e ao imperialismo patriótico. A verdade é que ele se encontrou
a descompasso com a essência reaccionária e banal do chauvinismo,
justamente por causa do seu nacionalismo liberal. Tenho consciência
de que estou a falar contra a corrente. A ideia de que Orwell era um nacionalista
liberal pode ser vista como herética, se não mesmo característica
da obsessão da Europa Central e de Leste com a sua história
recente, ou como uma projecção das suas realidades no resto
do mundo. De facto, o nacionalismo liberal, enquanto paradigma político
e moral, tem muito pouco a ver – se é que tem a ver de todo
– com a cultura política e intelectual britânica. Por
outro lado, é difícil imaginar um quadro teórico
mais inóspito para a cultura moral nacionalista do que a filosofia
anglo-americana, permeada pelo nominalismo, bem como pela desconfiança
pelo que toma como idiossincrasias continentais e teorias políticas
delirantes. Este tipo de filosofia considera o nacionalismo como simplesmente
mais um conceito nebuloso do holismo desacreditado. Passa-se ainda que
os antigos poderes coloniais, como a Grã-Bretanha, a França,
a Suiça ou a Rússia, têm uma tendência mais
acentuada para o Landespatriotismus, a política paternalista,
e para aquilo que entendem ser a sua missão civilizadora, em vez
da importante dimensão ética de um internacionalismo genuíno,
que está no centro do patriotismo liberal. Daí que seja
inerente à política dos antigos impérios uma grande
dose de provincianismo moral e insensibilidade em relação
a países pequenos e às suas culturas. Temos boas razões
para pensar que o nacionalismo liberal – que não é
de todo inconciliável com o liberalismo céptico –
teve uma origem provável nas realidades políticas e nas
sensibilidades morais dos países da Europa de Leste e Central.
No entanto, a posição política
e moral de Orwell seria mais fielmente descrita como nacionalismo liberal,
o que o torna muito próximo e sensível às tragédias
da Europa Central e de Leste. A ideia de que a posição de
Orwell estava mais próxima do nacionalismo liberal do que de uma
espécie de socialismo abstracto, ideológico e doutrinário,
pode lançar nova luz sobre a sua hostilidade generalizada aos intelectuais
doutrinários, crentes fiéis a ideologias, e fanáticos
de todas as cores. Está aqui, e não noutro lugar, o segredo
do fascínio quase mágico que Orwell exerce na sensibilidade
moral e política da Europa Central e de Leste. De notar o facto
que são justamente os nacionalistas liberais que tendem a ser os
críticos mais acerbos da mística sinistra, do vocabulário
bárbaro e da política feroz do nacionalismo de sangue-e-território.
Lembremos os críticos do nacionalismo
não-liberal Czeslaw Miloz, Adam Michnik, Milan Kundera, Vaclav
Havel ou Thomas Venclova.(4) Para ser um “nacionalista”
não se tem de adoptar o nome.
No entanto, tanto o nacionalismo como os
fenómenos dele derivados, como a memória colectiva, permaneceram
uma categoria vaga nos textos de Orwell. Ele considerava o nacionalismo
como apenas um outro nome para o provincianismo moral – no que estava
cheio de razão, se considerarmos o nacionalismo radical e conservador.
Ao escrever as suas “Notes on Nacionalism”, em 1945, Orwell
só conseguia associar o nacionalismo com o velho sentimento imperial,
isto é, o chauvinismo, slogans ideológicos transferidos
ou sentimentos sectários, e também com algumas reacções
anti-modernistas, que descreveu de forma tão exacta. Daí
a sua oposição ao nacionalismo enquanto fenómeno
sui generis, e daí também a tentação
em atribuir ao termo uma conotação exclusivamente pejorativa.
Ao atribuir ao nacionalismo quase todas as manifestações
de estereotipização de grupos, clivagens políticas,
divisões sociais e ideológicas, e mesmo chauvinismo e racismo,
Orwell correu o risco de perder de vista não apenas o quadro de
referência, mas o próprio alvo da sua crítica.
Sendo brilhante e perspicaz na sua acutilante
e provocadora análise do que chamou “nacionalismo transferido”,
isto é, essas formas transferidas e transpostas de ideologias excludentes
como o Comunismo, o Catolicismo político, os sentimentos de classe
e de raça, Orwell falhou na sua apreciação do nacionalismo
enquanto crítica social. O problema com o seu conceito de nacionalismo
é que começa por significar tudo e, no fundo, nada. Embora,
como sugere Timothy Garton Ash, Orwell mereça
candidatar-se ao título de cidadão honorário da Europa
Central e de Leste,(5) torna-se necessária aqui
uma observação. Quando descreve o totalitarismo ou lamenta
a miopia e a ingenuidade dos intelectuais do Ocidente na sua atitude em
relação à parte mais “progressista” do
mundo, Orwell atinge justamente o cume da sensibilidade moral e intelectual
da Europa Central. No entanto, sobre o nacionalismo, ele escreve como
um dissidente tresmalhado, um enfant terrible do socialismo Britânico,
que deliberadamente transforma o termo num instrumento de crítica
dirigido às realidades políticas britânicas e europeias
de antes e do pós-guerra.
Podemos argumentar, no entanto, que Orwell
quer dizer algo bem diferente quando fala de nacionalismo. Tivesse ele
falado do assunto da forma como a entendemos hoje, seria fácil
rejeitar o seu ensaio como escrita superficial, incapaz de ir à
raiz do problema. A questão é que Orwell não tocou
no cerne daquilo a podemos chamar um confronto dramático de lealdades
e valores antagónicos. Com um golpe de génio descreveu aquilo
que tomamos como confrontos intrínsecos, que acontecem no interior
da imaginação moral perturbada. Para ele, “nacionalismo”
era simplesmente uma palavra-código para um fenómeno bem
mais complexo e inquietante. Independentemente do termo usado, Orwell
deu-nos uma pista valiosa para a compreensão da origem do fanatismo
ideológico e político modernos enquanto forma de ódio.
Apesar dos movimentos de massas e da sua permutabilidade, a política
doutrinária e demagógica e as ideologias excludentes, pareçam
termos mais rigorosos para descrever o alvo da crítica devastadora
de Orwell, os seus conceitos de nacionalismo transposto e transferido
proporcionam uma perspectiva útil na abordagem do fanatismo moderno.
Permitem ver de uma nova forma a imaginação moral moderna
como um campo de batalha para conceitos, valores, ideias, posições
e objectos de adoração em conflito. Simultaneamente, destacam
as incertezas e ambiguidades modernas como fontes do fanatismo. Sobre
o nacionalismo transferido e transferível, escreve Orwell:
| |
A intensidade com que são
mantidas não impede que as lealdades nacionalistas não
sejam transferidas.... Podem ser, e frequentemente são, fixadas
num país estrangeiro. Muito frequentemente encontram-se grandes
líderes nacionais ou fundadores de movimentos nacionalistas
que nem pertencem ao país que glorificaram. Por vezes são
inequivocamente estrangeiros ou, com mais frequência, são
provenientes de áreas periféricas nas quais a nacionalidade
é dúbia. Exemplos disto são Estaline, Hitler,
Napoleão, de Valera, Disraeli, Poincaré e Beaverbrook.
O movimento pan-germânico foi em parte criação
de um inglês, Houston Chamberlain. Nos últimos cento
e cinquenta anos o nacionalismo transferido tem sido um fenómeno
comum entre os intelectuais. Com Lafcadio
Hearne a transferência foi para o Japão, com Carlyle
e muitos outros do seu tempo, a Alemanha, e no nosso tempo é
frequentemente a Rússia. (6) |
A conclusão implícita é que o nacionalismo transferido
resulta da incerteza sobre a própria identidade primária
e sobre o objecto de vínculo. Precisamos de identidade e de um
objecto de lealdade ou vínculo. Se somos privados deles, ou se
não estamos em paz com aquilo com que os outros apaixonadamente
se identificam, estamos inexoravelmente condenados a fabricar substitutos.
Ao fazê-lo, corremos o risco de improvisar perigosamente ou de,
simplesmente, fabricar uma identidade, sem um ponto de referência
na realidade mundana, o que abre a porta ao reino da imaginação
inquieta. Se não estamos enraizados na realidade deste mundo, no
sentido de sermos indivíduos autónomos e de termos uma identidade
sólida, resistente, e imutável, procuraremos um substituto
para preencher essa lacuna. Se acontece não termos uma ligação
ao nosso país, ou apreciarmos pouco a nossa cultura, ocorrerá
uma espécie de deslocação de vínculo e lealdade.
O paradoxo do nacionalismo, enquanto sistema
de pensamento e de acção capaz de sustentar as sensibilidades
moral e intelectualmente enraizadas, reside no facto de tanto o seu excesso
como a sua ausência poderem levar ao desastre. Enquanto que um excesso
de nacionalismo conduz a um provincianismo moral e uma total insensibilidade
para com aqueles que não nos pertencem, a sua ausência resulta
numa desvinculação de todos os idiomas reconhecidos e terra-a-terra
de vínculo e lealdade humanas. Se funcionar dentro de um quadro
liberal e democrático, o nacionalismo impede o fanatismo político
e ideológico, para não falar da miríade de formas
falsas de pertença, lealdade, memória e sentimentos colectivos.
Afinal, o vínculo à nossa cultura, língua e terra,
está entre as necessidades humanas básicas. Se perdemos
o objecto primário do amor e vínculo, ou se formos dele
privados, a nossa lealdade será transferida. Encontraremos um novo
objecto algures. Pode ser um outro país com o qual construiremos
uma alternativa, real ou imaginária – um programa político
revolucionário uma religião dissidente, uma civilização
rival ou um sistema de valores e ideias opostos. Como sublinha Orwell:
| |
Quando se verifica as tolices hiperbólicas
e servis que se escrevem sobre Estaline, o Exército Vermelho
etc., por pessoas inteligentes e razoavelmente sensíveis,
compreende-se que isto só é possível porque
ocorreu uma espécie de deslocação. Em sociedades
como a nossa, é raro encontrar alguém identificado
como intelectual que professe um vínculo profundo ao seu
país. A opinião pública – quero dizer,
o sector da opinião pública do qual o intelectual
está consciente – não lhe permite isso. A maior
parte das pessoas que o rodeiam são cépticas e indiferentes,
e o intelectual pode adoptar essa atitude por imitação
ou por simples cobardia: nesse caso, terá abandonado a forma
de nacionalismo mais óbvia, sem que tenha ficado mais perto
de um internacionalismo genuíno. Sente ainda a necessidade
da Pátria, e é natural que o procure em algum lugar
fora do país. (p. 164) |
Não admira que o nacionalismo transferido
seja possível justamente por causa da intensidade e instabilidade
das lealdades nacionalistas mencionadas acima. Segundo Orwell, a única
coisa que permanece constante no nacionalista é o seu estado de
espírito. O objecto dos seus sentimentos é instável,
e pode ser imaginado. Acontece ainda que este tipo de fervor ideológico
– como diria Orwell, um nacionalismo – pode ser transposto
ou invertido. Assim, antigos admiradores dos Estados Unidos da América
podem transformar-se nos maiores críticos ou cépticos desse
país, reservando o seu amor e admiração para o seu
adversário recentemente descoberto, se não mesmo uma civilização
rival, como a Rússia. Isto aconteceu, por exemplo, com H. G. Wells,
que passou de americanófilo a americanófobo e russófilo.
É um facto que um certo número de membros do partido nazi
foram recrutados do Partido Comunista Alemão quando os nazis chegaram
ao poder, e que os comunistas eram vistos pelos nazis como um mal menor
em comparação com os social-democratas. Isto foi subtilmente
interpretado por Eric Hoffer, que também colocou uma ênfase
forte naquilo a que chamou a “permutabilidade dos movimentos de
massas” – basicamente, trata-se do mesmo fenómeno a
que Orwell chamou o nacionalismo transferido. Hoffer mostrou, preto no
branco, como alguns judeus russos ou europeus
do centro e de leste facilmente passaram do comunismo ao zionismo –
e o inverso – ou como o comunismo e o nacional-socialismo eram complementares.
(7)
Se as pessoas negarem a sua identidade cultural
e linguística, necessitam forjar uma nova identidade. Se sentirem
que perderam ou que ainda não encontraram a sua pátria,
procurarão uma outra pátria num outro lugar. Se abandonam
uma pátria terrena, estão condenadas a fabricar uma ideologia
que a substitua. Basta lembrar uma pista significativa que Marx deixa
escapar acerca do proletariado, o qual, por definição, não
tem pátria. O principio guia e salvador do proletário, vem
de uma realidade alheia a este mundo, uma vez que ele ou ela representam
uma classe que se situa para além da pátria, sem vínculo
aos valores e tradições burgueses e deste mundo. Este tipo
de “ausência de lugar” ontológico sem abrigo
cultural, e desenraizamento histórico, conduz logicamente à
afirmação de que eles não têm nada a perder
neste mundo. Em vez disso, têm o Comunismo, que é a sua pátria.
Na verdade, podemos sugerir que isto é, em larga medida, uma forma
travestida do cristianismo primitivo, com a sua ideia do populus christianus,
isto é, o povo de Cristo, ou uma comunidade espiritual de indivíduos
que adquirem esse estatuto na medida em que se encontram em Cristo. Isto
é exactamente o que acontece às pessoas em cujas almas e
consciências acontece uma espécie de deslocação
de identidade, vínculo e lealdade. Uma ideologia pode tornar-se
uma Pátria espiritual para aqueles que ficaram privados de um vínculo
seguro a um idioma deste mundo, e de um sentimento de existência
segura numa comunidade de memória colectiva, sentimento partilhado
e participação simbólica.
Isto não quer dizer, no entanto, que
devamos todos ser classificados como moscas, abelhas ou formigas, ou que
devamos todos ser associados e vinculados de uma forma irrevogável
a uma única cultura e comunidade. A modernidade não nega
nem a identidade individual nem a identidade colectiva. Uma diferença
substancial entre as condições pré-modernas e as
condições modernas é que a identidade se transforma
de uma forma de imposição numa forma de escolha e de realização.
Para além disto, a modernidade tenta libertar-nos da nossa identidade
herdada, que é uma das maiores e mais centrais promessas do admirável
mundo novo, ainda que não realizada. Como Zygmunt Bauman nota:
| |
O projecto moderno prometeu libertar
o indivíduo da identidade herdada. No entanto, não
tomou posição contra a identidade em si, ou contra
ter uma identidade sólida, imutável e resistente.
Apenas transformou a identidade de uma questão de imposição
em uma questão de realização,
transformando-a assim numa tarefa individual e de responsabilidade
individual. (8) |
Simultaneamente, o indivíduo pode
combinar identidades múltiplas, abertas e comunicantes. Podemos
participar em diversas culturas e trajectórias de consciência,
pensando-as como complementares em relação umas às
outras, e questionando criticamente o nosso objecto primário de
lealdade e cultura. Isto ajuda a compreender o que tem sido suprimido
na nossa cultura e está mais desenvolvido noutras. Uma presunção
de incompletude humana, e da natureza dialogante da consciência
e auto-conhecimento humanos, o princípio das identidades e culturas
em polígono, parece ser a realização mais notável
da condição moderna. Alguns estudiosos sublinharam a importância
crucial de fenómenos como o nacionalismo pósmoderno, o qual
“permitiria e reconheceria a qualidade humana de abertura e a característica
cultural da translucidez” – uma espécie de empenhamento
à la Milosz para com a nossa nação, permeável
à responsabilidade para com os outros
e a um sentido de identidades múltiplas e comunicantes.(9)
Neste ponto temos de concordar com Orwell: não faz sentido classificar
seres humanos como aos insectos, nem generalizar nações
inteiras como sendo intrinsecamente boas ou más. Pérolas
da sabedoria convencional, tal como a tendência para descrever o
espanhol como um aristocrata natural, o britânico como hipócrita,
ou o alemão como traiçoeiro, Orwel classificou como sendo
do mesmo tipo de divórcio entre a lealdade e julgamento moral –
um sintoma da consciência moderna, que ele descreveu como nacionalismo.
Como temos testemunhado, a tendência sinistra para fazer equivaler
uma modernidade odiada exclusivamente com “os judeus” ou com
“a América” – que é provavelmente uma
das loucuras mais sinistras e perigosas da imaginação moderna
perturbada – pode conduzir a consequências mais trágicas
do que a simples construção de estereótipos ou o
difundir clichés gastos. Podemos sugerir, no entanto, que numa
era de intenso ódio colectivo nada é inocente, e que tudo
começa em cartoons políticos ou em falsificações
literárias, e acaba por matar pessoas.
Orwell parece, no entanto, ter esquecido
o facto de que os estereótipos nacionais podem ter muito pouco
a ver com o ódio. Pelo contrário, surgem como mecanismos
de defesa contra a incerteza geral da modernidade, que é causada,
entre outras coisas, pela descoberta chocante de tantos modos de ver e
de pensar até aqui desconhecidos, todos situados em sociedades
e culturas diferentes da nossa. É possível que o estereótipo
tenha origem numa espécie de categorização do mundo
reconfortante e segura, ainda que simples e ingénua. Nalgumas circunstâncias
pode causar mal, mas na maior parte dos casos não o faz. Na verdade,
a construção de estereótipos é mais um impulso
espontâneo para simplificar e compreender aquilo que parece, à
primeira vista, como ameaçador, inseguro e desconhecido, um mundo
de pensamento e acção humanas diverso. Se assim é,
pode não ter nada a ver com a mencionada fractura entre a identidade
(ou lealdade) e o julgamento moral. Como observa Leszek Kolakowski:
| |
É um facto muito poucas
vezes observado que grande parte do nosso universo mental –
as nossas imagens do mundo e de outras pessoas, as nossas reacções
a elas – é feito e produzido por estereótipos.
Por “estereótipos” quero dizer essas generalizações
espontâneas e quase-empíricas que, uma vez estabelecidas
na nossa consciência, são praticamente impossíveis
de desalojar à luz da experiência subsequente. Esta
é uma combinação natural, e no seu todo, benéfica:
estereótipos – de coisas e pessoas, nações
e lugares – são indispensáveis à nossa
segurança mental. É por isto que, independentemente
de serem plausíveis, apenas meias-verdades ou mesmo falsos,
os estereótipos tendem a sobreviver ao desmentido pela experiência
– a não ser que os seus efeitos sejam maléficos
de forma óbvia. Se são inócuos nos seus efeitos
práticos, persistirão, apesar dos exemplos em contrário
fornecidos pela experiência, porque nos sentimos
mais seguros com eles do que sem eles: abdicar deles obrigaria a
uma vigilância constante e à condenação
a um estado de incerteza e confusão mental. (10) |
No entanto, a cisão entre a identidade/lealdade
e o julgamento moral sólido é também um traço
da imaginação moral moderna. A modernidade separou facto/verdade
de valor, utilidade de intimidade humana, inovação de tradição,
indivíduo de sociedade. Tendo dito isto, o mencionado abismo entre
a necessidade de um objecto de lealdade/pertença e a incapacidade
para questionar critica e apaixonadamente esse objecto é derivada
da cadeia dessas tendências dicotómicas e penosamente fracturantes
que ameaçam a integridade moral e a reflexão do indivíduo
moderno. O abismo entre facto e valor pode ser observado naquilo que Orwell
descreve como a nossa relutância em ver e admitir simples factos.
Na consciência de um verdadeiro crente moderno, uma crença
fanática num conjunto de valores e ideias é sustentada por
uma recusa categórica em admitir a existência de um outro
conjunto de valores e ideias. Para além disso, uma crença
fervorosa numa ideia abstracta e distante é acompanhada por uma
descrença igualmente ardente na realidade. A negação
dos factos em favor de um fenómeno até agora não
visto, não examinado, nem questionado criticamente, que era, e
continua a ser, uma das características integrantes da consciência
de um fanático político e ideológico, revela um conflito
entre conjuntos de valores e ideias, ou sistemas de pensamento e acção
mutuamente excludentes, muito mais do que uma simples patologia social.
Na era dos movimentos de massas e de mudanças
sócias dramáticas, a recusa notável em confiar na
evidência dos sentidos e da razão talvez seja uma pista para
a solução do mistério do fanatismo. Como Hoffer formulou:
| |
Confiar na evidência dos
sentidos e da razão é heresia e traição.
É espantoso verificar quanta descrença é necessária
para tornar possível a crença. Aquilo que conhecemos
como a fé cega é sustentado por inúmeras descrenças.
No Brasil, fanáticos japoneses recusaram durante anos a evidência
da derrota japonesa. O comunista fanático recusa acreditar
num relatório ou evidências desfavoráveis sobre
a Rússia, e não ficará desiludido
se assistir com os seus próprios olhos à miséria
cruel no interior da terra prometida soviética. (11) |
A recusa em aceitar evidência empírica
– de alguma maneira, algo muito semelhante à forma selectiva
e arbitrária como funciona a memória histórica dos
nacionalistas conservadores e radicais – é uma recusa da
realidade em favor da imaginação. A realidade incapaz de
sustentar as nossas crenças ou apoiar as nossas convicções
ideológicas não tem valor. Uma atitude destas exige uma
supressão mais ou menos consciente das nossas sensibilidades morais
e intelectuais. De outra forma, as incertezas e tensões dentro
de nós atingiriam um ponto demasiado alto para permanecer firmes
e empenhadas na causa sagrada. Esta espécie de bloqueio mental
e supressão da sensibilidade e do senso comum em favor da ideologia
que, de forma alguma, deixa de acontecer até em pessoas inteligentes,
protege-as de contradições interiores insuportáveis
e de conflitos explosivos com a razão sólida e a consciência,
que poderiam ocorrer a qualquer momento. Porque, numa era de confronto
entre as ideologias mutuamente exclusivas, militantes e rígidas
– ou outros padrões simbólicos de ódio e exclusão
–, a razão sólida e a sensibilidade moral já
não são recompensadas. Pelo contrário: tornaram-se
um risco.
Isto permite ver de uma forma mais clara
o que Orwell representa como a capacidade surpreendente para manter, em
simultâneo, duas crenças contraditórias ou duas atitudes
inconciliáveis. O derramamento de sangue e a violência são
veementemente recusados, mas apenas se ocorrerem no campo do adversário.
A violência deixa de ser violência uma vez praticada pelo
lado “justo”; e assim também a matança em massa
de gente pacífica, se ocorre naquilo que se imagina ser um país
“progressivo”. Isto não é um estereótipo
simples, que nos permite chamar os nossos adversários de fanáticos
obstinados e homicidas, reservando o epíteto de patriotas e heróis
para aqueles que estão do nosso lado. Isto é, muito mais,
um bloqueio mental e ideológico das nossas qualidades humanas que
são vitais para as ligações e interacções
humanas, como a abertura empática, a compreensão simpática,
ou a simples compaixão. Estas qualidades são suprimidas
no que diz respeito a “eles”, isto é, os nossos adversários
ideológicos e inimigos políticos, reais ou imaginados. São
prontamente libertadas quando se trata de simpatizar com a angústia
e a dor humanas experimentadas por “nós”, isto é,
no campo dos justos.
Não deixa de ser interessante que
Orwell sugira que até os movimentos pacifistas estarão contaminados
por uma tendência para transferir a lealdade e improvisar a identidade,
de forma a disfarçar a verdadeira atitude de alguns pacifistas
perante a realidade social. Por muito espantoso que possa parecer, a verdadeira
atitude de alguns pacifistas não passa de uma secreta adoração
pela força bruta e pela violência bem sucedida. Isto permite-lhes
condenar instantaneamente qualquer vítima de guerra causada pelos
Estados Unidos e pela Inglaterra noutros países, sem mencionar
um único crime contra a humanidade cometido pela Rússia
ou pela China. Uma pequena minoria dos aderentes a esta ideologia pouco
consistente consiste em pacifistas intelectuais exclusivamente motivados
pelo ódio à democracia ocidental e por uma admiração
secreta pelo totalitarismo. O que quer dizer que uma parte do pacifismo
não será outra coisa senão um profundo desprezo e
um ódio intenso pela democracia liberal ocidental, sob o disfarce
de uma preocupação pela paz e pela vida humana. No fundo
do coração, os pacifistas intelectuais deste tipo desprezam
a consciência legalista ocidental, a democracia, as instituições
políticas e a vida prosaica, como sendo supostamente incapazes
de inspirar a imaginação, e faltando-lhes algo de excitante,
romântico e aventureiro. Daí a ideia de que a força
política, se exercida pela democracia liberal, não pode
ser eficiente por princípio. Seja o que for que aconteça
numa democracia liberal em termos de vitórias políticas
ou de demonstração do seu poderio militar, é para
benefício do poder estabelecido, ou da burguesia, ou do capitalismo.
Simultaneamente, a violência praticada por uma ideologia ou civilização
rivais, como o Comunismo, é eficiente, uma vez que o seu propósito
é viabilizar uma alternativa à muito odiada democracia ocidental.
É interessante notar que Orwell não está sozinho
no seu cepticismo sobre o pacifismo e outros movimentos sociais vagos
numa era de políticas ferozmente ideológicas e violentas.
Mostrando as origens e a ascensão do Nacional-Socialismo, Raymond
Aron avaliou aquilo que classificou como “os elementos de uma quinta
coluna alemã” da seguinte forma:
| |
A quinta coluna é um elemento
típico da era dos impérios. É principalmente
recrutada entre três tipos de homens: pacifistas, revoltados
pelos custos materiais e morais da guerra total, os quais, no fundo
do coração, preferem o triunfo de um império
à soberania independente dos estados bélicos; derrotistas,
que desesperam do seu próprio
país; e ideólogos, que colocam a sua fé política
acima do patriotismo e se submetem ao César cujo regime e
ideologia admiram. (12) |
No entanto, não deve ser nunca esquecido que este tipo de
ideologias globais, abarcantes e exclusivas, como o Nacional-Socialismo
e o Comunismo, funcionam como religiões seculares. Para além
disto, ideocracias seculares foram capazes de se manifestarem como um
Exército e como uma Igreja. Quer isto dizer que foram capazes de
recrutar os seus aderentes em quase todas as áreas e em todos os
sectores da sociedade – desde intelectuais desiludidos, que ainda
sentem uma necessidade forte de sistemas de valores e ideias sólidos,
a pessoas comuns, convencidas por teorias
apocalípticas modernas que prometem o início de uma nova
história.(13) Ao mesmo tempo, não faz
sentido generalizar os modernos movimentos pacifistas representando-os
a todos como motivados pelo ódio às democracias ocidentais,
acompanhado pela admiração secreta pelos adversários
políticos e ideológicos dessas democracias, ou pela adoração
latente da força e da violência política. O que Orwell
conseguiu, com um golpe de génio, foi colocar a ênfase nos
vínculos espontâneos e improvisados, lealdades transferidas
e identidades fabricadas, todos concebidos como parte de uma lógica
de ódio oculta. À crítica de Orwell às fabricações
ideológicas subjaz a ideia de que o ódio poucas vezes é
simples e evidente; em vez disso, prefere andar disfarçado. O que
resulta deste tipo de lógica oculta e metafísica do ódio,
é que o ódio tende a mascarar-se como amor e compaixão
– amor pela paz e pela humanidade, compaixão pelos mais fracos,
desfavorecidos, oprimidos e excluídos.
Uma outra lição importante
que podemos aprender com o Orwell de “Notes on Nationalism”
é que os intelectuais desiludidos, isolados e alienados, tendem
a sucumbir às identidades transferidas e deslocadas com maior frequência
e facilidade do que as pessoas comuns. Na era dos movimentos de massas,
o pensamento crítico independente e céptico já não
é recompensado; pelo contrário, transforma-se num risco.
Uma vez que os intelectuais, por andarem de candeias às avessas
com as ligações terrenas mundanas, são capazes de
traduzir as suas necessidades de raízes e pátria em fidelidades
ideológicas e políticas a comunidades imaginadas de virtude,
acabam por perder a capacidade para estar em sintonia com o senso comum.
O senso comum é uma qualidade valiosa das pessoas comuns, as quais,
justamente devido ao seu cepticismo natural em relação às
coisas desligadas da realidade mundana, são muito mais imunes ao
fanatismo e ao ódio. Daí a ironia impiedosa de Orwell na
sua observação cáustica dos intelectuais britânicos
que afirmaram de forma categórica que as tropas americanas tinham
vindo para a Europa não para lutar contra a Alemanha, mas para
esmagar a revolução inglesa, e que acreditavam piamente
ter sido esta a verdadeira causa. Orwell conclui que apenas aqueles que
pertencem à intelligentsia são capazes de acreditar
em coisas deste tipo. Na perspectiva dele, nenhuma pessoa comum poderia
ser tolo a este ponto (p. 178). A desconfiança de Orwell em relação
aos intelectuais atinge o seu cume, como veremos, em 1984, na
personagem de O’Brien, um técnico mental sinistro, situado
para além do bem e do mal, o maior especialista em lavagem ao cérebro
e doutrinação da Oceânia, e o equivalente moderno
do Grande Inquisidor.
Este tipo de moralidade inconsistente e flexível
acontece a par com os mencionados bloqueios ideológicos. Uma vez
que o nosso empenhamento ideológico pode ser posto em perigo pelo
facto de outros seres humanos de carne e osso sofrerem massacres, torturas
e outras calamidades, a única atitude possível que pode
impedir-nos de infligir dor e sofrimento noutros seres humanos, é
negar o facto da existência desse sofrimento. Esta recusa em acreditar
nos factos politicamente inconvenientes ou nocivos pode ser bem combinada
como uma propensão para negar aos nossos inimigos os traços
humanos. Este mecanismo de auto-defesa, ou melhor, de
cegueira moral auto-infligida, revela a natureza defensiva e compensatória
do ódio: o ódio parece uma consequência do auto-desprezo
e de um sentido de culpa recalcado.(14) O mesmo podia
ser dito acerca da raiva, que é uma consequência inevitável
de um sentimento de vergonha recalcado. À luz disto, torna-se mais
ou menos compreensível a razão pela qual até académicos
altamente qualificados e intelectuais sofisticados são capazes
de negar o Holocausto. Também torna-se mais clara a razão
pela qual o anti-semitismo é tão intenso e forte nos países
da Europa Central e de Leste, onde já não existem judeus
e, no entanto, onde o Holocausto aconteceu
em conjunção com um apoio forte dos governos locais e mesmo
com a participação activa da população local.
(15)
Orwell conta uma história elucidativa
sobre como o liberal News Chronicle publicou fotografias de russos
enforcados pelos alemães como exemplo de barbárie chocante.
Alguns anos mais tarde, publicou também, com recepção
calorosa, quase exactamente as mesmas fotografias: a única diferença
foi que, dessa vez, se tratavam de alemães enforcados pelos russos.
Num outro exemplo, o Star publicou fotos de mulheres colaboracionistas
quase nuas a serem espancadas pela turba parisiense. Orwell estava profundamente
perturbado pela semelhança incrível entre essas fotos e
as fotos Nazis de judeus a serem espancados pela turba berlinense. Quer
isto dizer que aquilo que é, inicialmente, visto como exemplo de
barbárie chocante, se transforma milagrosamente em algo virtuoso,
apenas porque praticado em nome da causa justa.
A história, enquanto registo de feitos
heróicos, é fabricada de forma muito semelhante. Os intelectuais
modernos falam da Inquisição, de Sir Francis Drake a esfolar
vivos prisioneiros espanhóis, do Reino do Terror, dos heróis
do Motim a disparar indianos dos canhões, dos soldados de Cromwell
a retalhar as caras de camponesas irlandesas à navalha, sem que
dêem muita atenção às atrocidades cometidas
na Rússia, China, Espanha, México ou Hungria (pp. 165-166).
Uma percepção selectiva da história e da política
relaciona-se não apenas com a tendência disseminada para
usar uma bitola dupla ao lidar com o “nosso” papel ou com
o papel “deles” na história, mas também com
uma incrível capacidade para decidir se alguns eventos históricos
aconteceram ou não, assentando essa decisão exclusivamente
na simpatia política. Desta forma, a história transforma-se
num jogo irresponsável de um agente social faccioso, que vê
nela aquilo que quer ver, e que constrói, na imaginação,
monumentos à sua comunidade imaginada de verdade e virtude.
No entanto, a questão permanece: qual
a origem do fanatismo? Orwell, tal como outros escritores argutos, sugeriu
que a incerteza generalizada e o fracasso em compreender o que está
realmente a acontecer no mundo, é um convite tentador aos indivíduos
modernos mais confusos, assustados ou frustrados, para se agarrarem a
crenças lunáticas. O facto, geralmente reconhecido pelos
filósofos sociais e pelos sociólogos actuais, é que
a modernidade destruiu as velhas certezas sem que tenha oferecido novos
padrões de identidade funcionais, normativos, prescritivos e imperativos.
Para criar um destes padrões identitários para cada um de
nós, sem a ajuda de uma fonte evidente e de confiança –
como uma tradição cultural sólida ou uma fé
duradoira e imune à mudança – parece terrivelmente
difícil, se não mesmo impossível, para aqueles que
não se sentem confortáveis num mundo de auto-construção
e auto-descoberta. Daí a necessidade desesperada para crenças,
teorias e práticas que prometem combater a incerteza e ressuscitar
os símbolos negligenciados e os valores esquecidos. O ódio
chega a esta alma perturbada como uma promessa da restauração
da certeza. O mundo moderno, demasiado complexo e ameaçador para
perceber que tipo de valores têm de ser tomados a sério e
que as ideias devem ser credíveis, de repente transforma-se em
algo claro e transparente. A imagem de um inimigo restaura a nossa fé
em nós próprios como seres capazes de apoiar a causa justa
e santa, a causa dos justos e virtuosos contra os pérfidos, degenerados
e incompreensíveis. Um inimigo é aquilo que podemos colocar
para além do nosso alcance e compreensão junto com aquilo
que é incerto dentro de nós. Neste ponto, o ódio
vem do menosprezo e ódio a nós próprios. Os nossos
inimigos são apenas aquilo que odiamos em nós próprios
e que exteriorizamos, projectado no idioma simultaneamente familiar e
incompreensível da alteridade. Como nota Hoffer:
| |
Serão os frustrados mais
facilmente catequizados do que os não o são? Serão
mais crédulos? Pascal pensava que “estamos mais abertos
para compreender a escrita sagrada quando nos odiamos a nós
próprios.” Há aparentemente uma ligação
entre a insatisfação consigo próprio e uma
propensão para a credulidade. A ânsia para escapar
de si próprio é também
a ânsia para escapar ao racional e ao óbvio. A recusa
em vermo-nos como somos desenvolve uma aversão aos factos
e à lógica fria. (16) |
A nossa predisposição para
dissolver a nossa identidade em misteriosos corpos de ideias ou no “espírito
do povo” pode ser amplamente relacionada com as nossas insatisfações,
desenganos, fracassos pessoais, ou com a alienação geral
da sociedade e cultura modernas. No entanto, a interrogação
permanece: como podem as pessoas transpor ou inverter atitudes e crenças
com tanta facilidade? Por exemplo, como é possível que um
partidário ardente da Grã-Bretanha de repente resvale para
a anglofobia (ou o inverso)? Por quê, e como pode um intelectual,
aparentemente ponderado e céptico, transformar-se num apoiante
ardente de outros países, culturas, religiões e instituições
políticas? Segundo Orwell, os escritores britânicos que mais
exemplarmente mostram esta capacidade de auto-transformação
de anglófobos em algo violentamente pró-Britânico
foram F. A. Voigt, Malcolm Muggeridge, Evelyn Waugh, Hugh Kingsmill e,
até certo ponto, T.S.Eliot e Wyndham Lewis (p.169). O intelectual
que se revelou capaz de suprimir a sua sensibilidade democrática
em favor de uma visão do mundo oposta foi G. K. Chesterton, que
Orwell descreveu como um escritor de talento considerável que escolheu
suprimir a sua sensibilidade e honestidade intelectual em nome da propaganda
Católica. Isto levou-o ao ponto de glorificar todos os aspectos
da vida numa França grandemente idealizada – se não
totalmente imaginada – ou a admirar a Itália de Mussolini
– uma variante da lealdade transferida, que Orwell descreve como
Catolicismo político. Um detractor autêntico do chauvinismo
e do imperialismo, e um verdadeiro partidário da democracia e da
política interna, Chesterton não foi capaz de dizer uma
palavra contra o colonialismo, ou contra o imperialismo e a conquista
dos povos negros praticada pelos italianos e pelos franceses. Nem nunca
mencionou o facto de Mussolini ter simplesmente destruído a liberdade
e a democracia na Itália. (pp 160-161).
O caso de Chesterton é particularmente
elucidativo para reflectirmos sobre as lealdades transferidas e as identidades
fabricadas como uma das características básicas da imaginação
moderna perturbada. A imaginação moral moderna/perturbada
parece ser incapaz de conciliar grupos opostos de ideias e valores, e
também incapaz de produzir uma visão do mundo universalizante
que seja eficaz. Parece extremamente difícil, se não impossível,
ser simultaneamente um liberal em política e um conservador em
religião. Como conciliar ser-se um patriota britânico dedicado
e um católico devoto? Como ser um nacionalista centro-europeu e
também um cosmopolita céptico e liberal? Como combinar fidelidade
com dúvida, valor com verdade, imaginação com realidade?
A religião organizada parece incapaz de oferecer uma saída,
uma vez que a própria religião é cada vez mais frequentemente
explorada politicamente ou abusada de outras formas pelos bárbaros
modernos. No mundo moderno, na melhor das hipóteses, torna-se politicamente
neutra, se não mesmo marginal.
Temos de admitir que o universalismo ético,
ou o humanismo secular, está também longe de ser uma resposta
universal atraente. Antes do mais, em tempos turbulentos ou em épocas
de confrontos ideológicos o universalismo ético, uma forma
tão poderosa de crítica social e cultural, é colocado
em risco ou simplesmente arredado. Dentro do enquadramento da imaginação
moral moderna perturbada, nada é duradoiro e nada é permanente.
Para o indivíduo moderno fraco e perturbado, o universalismo ético
pode parecer um desafio demasiado grande e uma desilusão demasiado
grande, porque não oferece fórmulas estáveis de pensamento
e acção, nem um caminho de saída para um mundo de
tensões, ambiguidades e incertezas insuportáveis. Em vez
disso, considera cada indivíduo como sendo, em última instância,
o único agente de razão e consciência capaz de escolhas
morais. Infelizmente, isto parece ser uma base demasiado frágil
para a acção decisiva e também para uma identidade
funcional, étnica, política, ou cultural (que podem ser
permutáveis, como já vimos).
Provavelmente uma sociedade ou uma cultura
em crise revela-se de uma forma inevitável através da consciência
individual em crise. Uma dessas manifestações de crise é
o que Vytautas Kavolis chama “a pessoa ambígua”. Kavolis
observa que muitos seres humanos revelam frequentemente perante si próprios
a sua ambiguidade psíquica, embora se tornem absolutamente claros
e inequívocos ao formar, ou a influenciar, comportamentos e atitudes
de terceiros. Na opinião de Kavolis, o indivíduo ambíguo
deseja particularmente experiências intensas: esta espécie
de busca da intensidade, que é identificável e analisável
psicanaliticamente, põe em perigo não apenas a personalidade
do próprio, mas toda a consciência moderna e a também
a cultura. Segundo Kavolis:
| |
Onde vença a busca da intensidade,
frequentemente predomina o estilo autoritário no pensamento
e na decisão, mesmo quando os conteúdos conscientes
do pensamento são libertários – vejamos, por
exemplo, Marcuse, ou The Living Theatre. Os “caçadores”
de intensidade tendem a pensar normalmente em binómios, contrastando
“verdade” com “erro”, ou “virtude”
com “maldade”, em lugar de procurar elos ou nuances
perdidas. Essas nuances representam justamente a ambiguidade psíquica
da personalidade deles, a qual consideram insuportável e
tentam reprimir com momentos de intensidade arbitrários,
ainda que “reais”. É por isto que eles, mesmo
quando exigem a liberdade de escolha, esperam que outros escolham
os caminhos a seguir para serem livres, ou mesmo as suas formas
de conceber a liberdade. As exigências dogmáticas ao
mundo têm origem na ambiguidade da sua personalidade. Os termos
vigorosos protegem-nos da decomposição interior. (Os
psicanalistas identificaram este mecanismo nos revolucionários
russos mais românticos, do início da revolução.)
O dogmatismo é a estabilização mecânica
do indivíduo ambíguo, muito mais do que orgânica,
e tem origem no fundo da sua personalidade. (No entanto, este tipo
de armadura protectora, muito fundo
no interior da pessoa ambígua, mais cedo ou mais tarde é
destruída e destrói a pessoa ambígua ou outras.)
(17) |
Uma das ilações possíveis
do pensamento de Kavolis é que o indivíduo ambíguo,
sendo incapaz de compreensão analítica e de questionamento
crítico de si próprio, acaba por representar de forma incorrecta
a própria realidade social, projectando nela os elementos dolorosos
da sua própria personalidade e experiência, demasiado penosos
para compreender ou eliminar de si próprio (seria uma espécie
de dogmatismo que resultaria da dissonância cognitiva). Assim, se
“as exigências dogmáticas do mundo resultam de uma
ambiguidade interna da personalidade”, o próprio dogmatismo
é uma ilusão do pensamento claro e transparente.
A busca da intensidade no nosso meio revela
uma incapacidade para a auto-análise crítica ou para a análise
da realidade humana tal como é – antes do encantamento com
uma magia ideológica, fórmulas ideocráticas, experiências
físicas e psíquicas e coisas do género. O indivíduo
dogmático/ambíguo é totalmente incapaz da análise
crítica; só é capaz de criar profecias sombrias ou
excomungar simbolicamente aqueles que considera uma ameaça para
o corpo social e para a sua coerência quase mística. Quando
a demanda de inimigos substitui a análise crítica, a imaginação
perturbada facilmente encontra um grupo-alvo. Daí a necessidade
premente de uma teoria da conspiração. Combinada com uma
cegueira moral auto-imposta, um bloqueio da sensibilidade moral, uma recusa
em aceitar a realidade, e uma aversão à lógica e
aos factos duros, a visão conspirativa do mundo providencia o tipo
de raciocínio e a lógica amoral necessários para
encontrar um grupo-alvo indispensável. Um alvo destes, como já
vimos, é apenas um duplo negativo da comunidade imaginada de verdade
e virtude com que nos identificamos. A comunidade imaginada que amamos
pode ser sustentada, na nossa imaginação, apenas pela projecção
das suas práticas políticas vis e das suas manipulações
sórdidas na comunidade imaginada que odiamos. É por isso
que a teoria da conspiração há-se sobreviver sempre
a qualquer regime político, cultura moral, ou tipo de governo.
Qualquer que seja a sua aparência e qualquer que seja a sua origem
numa qualquer sociedade, a teoria da conspiração é
uma resposta já pronta para todas as questões políticas
ou morais incómodas. De facto, sem a teoria da conspiração,
o fanático em discussão parece um oximoro; o mesmo se pode
dizer do indivíduo dogmático/ambíguo.
As notas de Orwell sobre a anatomia do ódio
colectivo chegam a algumas conclusões de importância crucial.
Antes do mais, os padrões da fé ideológica, o ressentimento
e o ódio são permutáveis. Lealdades políticas
e ideológicas são transferíveis. As identidades são
móveis, instáveis e renováveis. Todas estas coisas
se tornam possíveis não apenas por causa da política
moderna manipuladora, da lavagem ao cérebro cínica ou da
propaganda. É justamente ao contrário que poderemos formular
a questão: manipulação, lavagem cerebral e propaganda
podem tornar-se verdadeiramente eficazes apenas em épocas de lealdades
transferidas e identidades fabricadas. Nunca teriam funcionado, por exemplo,
na Europa Medieval ou da Renascença. O fenómeno das lealdades
transferidas, das identidades fabricadas, e da permutabilidade dos movimentos
de massas, encaixa-se exactamente nos parâmetros daquilo a que Ernest
Gellner chama a “modulação” humana. Nesta perspectiva,
o indivíduo modular, capaz de se ajustar a qualquer tipo de configuração
social ou de situação política, e também capaz
de iniciar ou terminar qualquer associação sem que possa
ser acusado de traição, é uma criação
da modernidade altamente ambivalente. É assim, porque que a modulação
humana é igualmente indispensável à sociedade civil
e ao nacionalismo – aqui tudo depende da direcção
que toma e a que tipo de política adere. Enquanto expressão
da flexibilidade e da liberdade de escolha modernas, pode muito bem servir
como condição necessária para as liberdades cívicas.
No entanto, pode também ser instrumental na configuração
de movimentos nacionalistas, com grandes riscos. A fabricação
de lealdades humanas, objectos de vínculo, identidades e personalidades
– a pedra de toque da sociedade de massas anónimas –
torna-se uma das forças mais ambivalentes e imprevisíveis
da modernidade. (18)
Em
segundo lugar, as ideias de Orwell permitem-nos ver, sob uma nova luz,
como e porquê marxistas ocidentais e russófilos políticos
e ideológicos podem muito bem ser olhados, se não como irmãos
na fé, pelo menos como irmãos na perda dramática
da sua identidade e objectos de lealdade primordiais. A perda de um objecto
primordial de amor, lealdade, pertença e memória, antecipa
a chegada dos objectos forjados do ódio e do amor colectivos. Se
começarmos a forjar um enquadramento interpretativo para uma verdade
móvel e facilmente reajustável, e a criar um padrão
do eu que apenas deixa espaço para lealdades transferíveis
e permutáveis, ou para identidades de algum modo forjadas, mais
cedo ou mais tarde acabaremos na ideocracia. Perderemos inevitavelmente
as nossas tradições, as nossas pequenas coisas favoritas,
amigos, família e, finalmente, língua e memória.
Perderemos aquilo que nos torna humanos – identidade, liberdade
e sensibilidade. Tendo sacrificado a fé, a história e a
cultura, à glória dos fantasmas da imaginação
perturbada, acabaremos inexoravelmente num terrível travesti de
Verdade, Liberdade, Igualdade e Justiça.
Foi este o aviso de Orwell à humanidade
no pós-guerra. Afirmar que, nos nossos dias, este aviso está
desactualizado, seria uma forma de auto-engano.
(1) George Orwell, “Notes on Nationalism”, in George Orwell,
Decline of the English Murder and Other Essays (Harmondsworth,
Middlesex, England: Penguin Books, 1970), pp 155-156.
(2) Para uma discussão sobre a morfologia do nacionalismo e sobre
o potencial modernizador e crítico do nacionalismo liberal, veja-se
Leonidas Donskis, Identity and Freedom: Mapping Nacionalism and Social
Criticism in Twentieth-Century Lithuania (London & New York:
Routledge, 2002.)
(3) Aleksandras Shtromas propõe uma interpretação
estimulante do nacionalismo vis-à-vis patriotismo. As suas observações
brilhantes sobre as diferenças entre os dois são um bom
exemplo de como um estudo reflectido sobre estas questões pode
proporcionar uma reconsideração destes fenómenos.
Veja-se Aleksandras Shtromas, “Ideological Politics and the Contemporary
World: Have we seen the Last of ‘Isms’?”, in Aleksandras
Shtromas, (ed.) The End of ‘Isms’? Reflections on the
Fate of Ideological Politics after Communism’s Collapse (Oxford
& Cambridge, M.A.: Blackwell, 1994), pp. 185-225.
(4) Sobre esta questão, veja-se Donskis, Identity and Freedom,
op. cit.
(5) Veja-se Timothy Garton Ash, The Uses of Adversity: Essays on
the Fate of Central Europa (London: Penguin Books, 1999), p. 154;
p. 157; p. 191.
(6) Orwell, “Notes on Nationalism”, op. Cit., p. 163.
(7) Veja-se Eric Hoffer, The True Believer: Thoughts on the Nature
of Mass Movements (New York: Time, 1963). Por razões óbvias,
não subscrevo muitas das leituras feitas por Hoffer no seu ensaio
seminal e provocatório sobre o ódio e o fanatismo, escrito
em 1953. Apesar de uma simplificação grave de toda a questão
e de algumas distorções históricas evidentes no que
diz respeito aos movimentos de massas e do seu papel na história,
The True Believer permanece um trabalho de clareza e lucidez excepcionais.
Do ponto de vista da acuidade da sua percepção sobre a natureza
do auto-desprezo, incerteza, ambivalência, fanatismo e ódio,
o ensaio de Hoffner é ainda o melhor até a data, nas áreas
da filosofia moral, social e política.
(8) Zygmunt Bauman, “Making and Unmaking of Strangers”, in
Sandro Fridlizius and Abby Peterson, eds., Stranger or Guest? Racism
and Nationalism in Contemporary Europe (Stockholm: Almqvist &
Wiksell International, 1996), p. 62.
(9) Vytaustas Kavolis, “Nationalism, Modernization, and the Polylogue
of Civilizations”, Comparative Civilizations Review, 25
(1991), p. 136.
(10) Leslek Kolakowski, Freedom, Fame, Lying and Betrayal: Essays
on Everyday Life. Tradução Agnieszka Kolakowska (Boulder,
CO: Westview Press, 1999), p. 139.
(11) Hoffer, The True Believer, op. cit., p. 83.
(12) Raymond Aron, The Century of Total War (Boston, MA: Beacon
Press, 1959), p.44.
(13) Para além do já mencionado livro de Aron, para o estudo
do totalitarismo como religião ou ideocracia abrangente, é
ainda importante o seguinte livro de Aron, Democracy and Totalitarism,
Translation Valence Ionescu (London: Weidenfeld & Nicolson, 1968).
(14) Sobre esta questão, ver Thomas J. Scheff & Suzanne M.
Retzinger, Emotions and Violence: Shame and Rage in Desctructive Conflicts
(Lexington, MA: Lexington Books, 1991).
(15) Sobre a teoria dos dois genocídios e a teoria da simetria
entre os sofrimentos Lituano e Judeu, ambos disfarçados sob a forma
de anti-semitismo Lituano, ver Donskis, Identity and Freedom,
op. cit.
(16) Hoffer, The True Believer, op. cit., p.86. É importante
notar que Hoffer define claramente o termo “frustrado”, que
não é usado num sentido clínico. In ibid., p. 179,
o autor escreve que “refere pessoas que, por uma razão ou
por outra, sentem que as suas vidas degeneram ou são desperdiçadas.”
(17) Vytautas Kavolis, “NeaiBkumo patologijos” [The Pathology
of Ambiguity], in Virginijus Gasiliunas, ed., Metmen laisvieji svarstymai:
1959-1989 [Free Debates of the Metmenys, 1959-19899 (Vilnus: Lietuvos
raBytoj” sajungos leidykla, 1993, p. 126. Sobre o conceito da ambiguidade
humana em Kavolis, veja-se ainda Leonidas Donskis, The End of Ideology
and Utopia? Moral Imagination and Cultural Criticism in the Twentieth
Century (New York: Peter Lang, 2000).
(18) Sobre o conceito de modulação humana, veja-se Ernest
Gellner, Conditions of Liberty: Civil Society and Its Rivals
(London: Penguin Books, 1996).
Tradução: Adriana Bebiano
25-07-2003

|