Moral, poder e navios-fantasma
Luís Carlos Lopes
Desde que a humanidade organizou-se por meio da agricultura e da
pecuária, construiu cidades, melhorou suas armas e ferramentas, inventou
as religiões, o Estado e a divisão da sociedade em classes;
em suma, desde que o homem virou o lobo do próprio homem, a moral
ganhou um lugar destacado. Este ‘lugar’, como em muitos outros
casos, está na ordem simbólica do mundo. O senso moral indica
o que é certo ou errado, justo ou injusto, o que está no domínio
do bem e no do mal.
Algumas pesquisas das neurociências
encontraram uma região no cérebro onde os conceitos morais
seriam armazenados. Quando há lesões ou outros problemas
neste bendito lugar, dizem os cientistas que os padrões morais
consensuais são alterados ou, simplesmente, não podem ser
devidamente acumulados. Haveria pessoas que já teriam nascido assim,
deles não se poderia esperar um comportamento moral aceitável
consensualmente. Suas sensibilidades não captariam as regras básicas
de sobrevivência da espécie produzidas pelo entorno social.
Estariam sempre na posição de algozes, não sendo
possível para eles a empatia com os outros.
Admitindo-se
que a moral teria base neurológica, em nada se altera o problema
da produção dos conceitos morais. Estes são princípios
normativos que se inspiram nas culturas e nos costumes, nada tendo a ver
com a capacidade individual de armazená-los e operacionalizá-los.
A moral e sua filha dileta, a ética, parece, nos casos mais dramáticos,
com um navio-fantasma que navega nos oceanos turbulentos das subjetividades.
Está presente em qualquer pensamento ou ato humano. Estes se desenvolvem
tendo em conta a norma acreditada coletivamente e/ou individualmente como
aceitável ou reprovável, com inúmeras gradações
de possibilidades. Mesmo quando individual, a moral precisa da validação
social, que pode ser obtida até de modo positivo – o mais usual
– ou de modo negativo – menos comum – pela negação
do que é consensual. Kant
acreditava em uma moral universal, como parte dos resquícios metafísicos
de sua filosofia. Esta seria aplicável a todos e para todos. As regras
que definia como justas e injustas eram as mesmas do poder político
e social de seu tempo. Autores mais contemporâneos, tais como Habermas,
acompanharam, na análise deste problema, a crítica contundente
da moral tradicional feita pelo marxismo clássico, que indicou a
contextualização e o poder como geradores dos princípios
normativos. Habermas foi um pouco mais longe, apontando o caráter
pragmático da moral, isto é, sua relação com
o que ocorre no mundo da vida. A moral seria uma expressão da forma
que as relações sociais se articulariam e de como as coletividades
e os indivíduos desenvolveriam suas crenças. A
moral é uma crença, como todas as crenças, uma representação.
Isto não quer dizer que as crenças sejam espelhos perfeitos
da realidade material. Ao contrário, a realidade simbólica
tem alguma autonomia em relação ao material. Mas é
bom lembrar que se trata de alguma, e não de total liberdade frente
ao que ocorre. A moral seria um resultado, tendo a participação
da tradição, inclusive a religiosa, dos sensos comuns acreditados
em determinada época e das adaptações pragmáticas
do pensamento às necessidades dos poderes políticos e sociais
do momento. Intriga ao mundo o caso
do Iraque, de aliado número um a vilão preferencial como parte
do tal “Eixo do Mal”. A existência do navio-fantasma da
moral permite essa navegação a portos e direções
extremas. O caso dos governos que foram eleitos com bandeiras mudancistas
e, no poder, comportam-se como continuístas do que diziam combater,
é um outro exemplo. A política seria um poderoso vetor capaz
de promover alterações nos paradigmas morais. As mudanças
de posição acarretariam mudanças morais, fazendo-nos
compreender as oscilações, por mais que as repudiemos.
A moral é, ao mesmo tempo, um preconceito
herdado de determinada formação cultural do indivíduo
e das coletividades, e uma forma de se inserir nas questões mais
essenciais da vida cotidiana. Haveria um lado tradicional da moral e um
outro nos limites, muitas vezes pequenos, das margens de opções
pessoais. O seu poder reside também no fato de que ela não
precisa aparecer como moral. Pode transcender fantasmagoricamente como,
por exemplo, em uma decisão tomada ao sabor das circunstâncias.
Entretanto, não há decisão que se tome que não
tenha implicações de ordem moral, nos mais diversos campos
da vida. Em outra possibilidade, a moral aparece apenas pós-fato,
isto é, como regra de justificação do que se fez ou
se está fazendo. Trata-se da forma mais usada pelo cinismo e a hipocrisia
de nosso tempo.
O julgamento moral é tarefa complexa,
tal como a de avaliar embarcações-fantasma e encontrar a
melhor rota no domínio do subjetivo. Mesmo assim, os seres humanos
sempre fazem tal tipo de julgamento, realizado a partir de suas crenças
morais e de suas posições materiais. Na verdade, quando
usamos a moral para julgar e condenar, por exemplo, a atual proposição
de guerra, se está mais preocupado com o modo como vemos a realidade,
e menos com as justificativas morais de quem combatemos. Assim deve ser.
Na maioria dos casos, as justificativas morais são castelos no
ar, e o que realmente fica é o resultado das práticas realizadas,
a partir das crenças morais esposadas.
A dinâmica do mundo é
inclemente. Regras pós-fato usadas hoje podem ser abandonadas amanhã,
esquecidas propositalmente como um pesadelo. O navio-fantasma de hoje pode
se transformar em transatlântico ou em um mero escaler. A única
coisa que une estas embarcações simbólicas é
o seu caráter muitas vezes fantasmagórico e horripilante.
Não há manual para se acertar
na melhor opção moral possível. Porém, há
como se fazer esforços para se combater os preconceitos, denunciando-os
e compreendendo-os. Desejando-se saber a procedência de algum princípio
normativo, devem-se buscar as suas origens, conformação atual
e, sobretudo, a quem servem determinadas idéias morais. Com isto
podemos, se assim se quiser, construir novos paradigmas morais menos fantasmagóricos
e cruéis.
29-03-2003

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