A tribo da empatia

Luís Carlos Lopes


É possível sentir o mesmo que outros seres humanos sentem, estando em situação ou posição diferente? É factível que a dor ou a alegria dos outros seja também a nossa dor ou alegria, mesmo se o que os exasperam ou estimulam positivamente não é igual ao que vivenciamos? O nome dado a este sentimento, que se discute a possibilidade, é a empatia. A idéia de que podemos perceber, compreender e mesmo sentir no lugar dos outros.

Este problema é de natureza moral. Está, portanto, no lugar onde acumulamos nossas crenças sobre o justo e o injusto, o certo e o errado. A moral, obviamente, não é natural. Faz parte dos edifícios simbólicos que compartilhamos socialmente, historicamente e adotamos sob o ponto de vista coletivo e individual. Perpassa o conjunto do que acreditamos, o que tem sempre algum aspecto normativo: uma ‘escolha’ dentro das possibilidades da vida.

A empatia aparece como um problema para inúmeros filósofos. Alguns crêem que ela é plenamente possível. Sentiríamos a dor ou alegria de terceiros, mas sempre o exemplo dado é o da dor, como se fosse um problema nosso. Outros pensam que é impossível sentir o mesmo que os outros. Rejeitam a empatia e a caracterizam como um mito metafísico.

Colocar-se no lugar dos outros não é tarefa fácil, assim como, não é simples compreender como terceiros percebem, aprendem e se postam diante da vida. Se isto é impossível, como querem alguns, não haveria solução para os paradoxos humanos. Não haveria possibilidade de entendimento e de mudanças. Venceria a idéia de que não há como fazer algo por quem sofre e nem estar próximo de quem consegue superar as agruras da vida e conseguir alguma felicidade.

Os que se ofereceram como escudos humanos no Iraque, ‘protegendo’ escolas, hospitais etc estariam entre os que são empáticos por natureza. Aqueles que lutam nos países ricos contra a opressão política e econômica nos países pobres estão no mesmo rol. Os que se solidarizam com os excluídos, vivendo em qualquer parte da Terra, fazem parte do mesmo grupo. Os militantes anti-racistas de qualquer parte, principalmente, os que não são alvos do racismo dão o mesmo exemplo.

Então, é possível ser empático? Há condições para a empatia? Não há uma empatia a priori, como qualquer sentimento, ela precisa ser aprendida até ser sentida. Existiriam duas formas básicas e entrelaçadas de se aprendê-la. A primeira delas, a mais fácil, é a da semelhança de condições. Somos ou podemos ser solidários aos nossos iguais. A segunda, mais difícil, ocorre quando compreendemos, por meio do acesso ao conhecimento, as condições a que são submetidos outros seres humanos. Este conhecimento faz-nos compreender que estas são injustas ou justas e podemos, assim, colocarmo-nos no lugar dos outros.

No mundo presente, assolado pela maior onda de individualismo que a humanidade já conheceu, é surpreendente que ainda exista espaço para a empatia. Os sensos comuns dominantes pressionam para cuidarmos de nossos narizes. A generosidade de gerações passadas, como a dos anos 60, desapareceu. Muitos generosos daquela época, hoje estão integrados à sociedade de consumo, quando não corrompidos pelo poder e o servindo acriticamente.

Porém, isto não é irreversível historicamente, mesmo que o seja para indivíduos que renegaram seus passados e passaram a servir ao poder, sempre encontrando justificativas e razões para isto. Alguns destes, podem até refletir e reformular suas posições. Outros, venderam como Fausto, suas almas ao diabo de nosso tempo: o capital. Dificilmente, serão redimidos e pagarão o preço estabelecido por seus percursos. Novas gerações estão surgindo, refazendo e recriando as bases da rebeldia. Estes julgarão os que os precederam, como em outras épocas do passado. Se para um indivíduo o tempo da vida é curto, para as coletividades tudo sempre se renova e velhas questões terminam por aflorar para todos.

Ser empático não é pensar que o assistencialismo – a velha esmola – é capaz de alterar profundas injustiças sociais. O assistencialismo é algo profundamente conservador, não sendo casual suas origens aristocráticas e clericais. Sua verdadeira função é manter a diferença, atenuá-la um pouco sem mudar as estruturas que geram os problemas. Se medidas assistenciais são tomadas em caráter emergencial e combinadas com alterações efetivas nas raízes dos problemas, pode-se aceitá-las como um mal necessário e transitório. Se a proposta é apenas dar assistência, o que se está produzindo é a reprodução da ordem. O pão e o circo foram instrumentos de todas as sociedades baseadas em estruturas verticalizadas de opressão. Moralmente mais correto é, ao invés de dar comida e diversão, dar emprego ou salário-desemprego.

A empatia tem uma dimensão política e não pode ser apenas um artifício de retórica. Não adianta se dizer que os pobres sofrem e não se tomar nenhuma medida que altere as razões profundas do sofrimento. Sendo política, a empatia também tem uma dimensão pessoal. Dizer-se que se sente muito, quando nos confrontamos com a dor de uma pessoa, pode ser apenas uma forma polida de não se dar a mínima importância. Isto é mais grave quando quem sofre é alguém próximo, com quem se tem afinidades e interesses comuns.

Não é possível ser empático com inimigos, com quem produz sofrimentos ou impede a felicidade de outros. A empatia é um sentimento nobre, uma das coisas por quais vale a pena viver e até morrer. É algo que nos torna humanos e nos faz vencer o embrutecimento de nosso tempo. Quando nos tornamos insensíveis aos outros, viramos autômatos, máquinas a serviço do mesmo poder que nos oprime, mesmo quando nos paga algumas migalhas para que pensemos assim.

Se existisse um lugar metafísico onde se reunisse a tribo dos empáticos, nele seria proibida a entrada dos que abdicam de sua humanidade, empinam o nariz e só cuidam de si. Não se acredita que tal lugar seja possível de existir. Mas, isto não impede que sejamos empáticos, ou pelo menos tentemos o ser. Há espaço, neste mundo tão frio e voltado para o consumo, para a solidariedade humana. Há como lutar para que esta solidariedade seja praticada no cotidiano, para longe da idéia de que ser solidário é fazer qualquer coisa medíocre, mantendo tudo em seu lugar.

02-03-2003