Gradações das formas e dos conteúdos

Luís Carlos Lopes

A realidade material, assim como a simbólica, consiste em um mosaico de gradações contidas na organização social. Suas possibilidades, variações e tons estão muito além da oposição entre o céu e o inferno, dia e noite, vida e morte, luz e sombra, amor e ódio etc. Quando se insiste em se opor extremos, cai-se no dilema da dialética formal. As essências estão para além do ‘pão, pão, queijo, queijo’. São nelas que as gradações determinam seus conteúdos e organizam a vida. As formas, que podem ser enganosas, expressam as silhuetas dos fenômenos do homem, tal como na famosa caverna de Platão. A aparência e o conteúdo destes podem ser opostos, mesmo que não sejam assim entendidos.

Na América Ibérica ainda muito se acredita, por efeito da base filosófica tomista de nossa cultura, em extremos absolutos, do oito ao oitenta e do sim e do não. A primeira providência para se aprender a pensar fora deste esquema simplificador é a de se aceitar que existe sempre mais do que uma possibilidade de se responder às questões da vida. Tem que se ter cuidado com o sim incondicional e o não absoluto. Ambos escondem as gradações e podem levar a que se compreendam os problemas por seus aspectos formais e não por seus conteúdos mais profundos.

Agir nos limites do formalismo implica descartar os fundamentos dos problemas e acreditar que só existe uma solução e uma posição a tomar, quase sempre a mais conservadora. Este é o primeiro passo para se cair na armadilha da naturalização, isto é, de se achar que o que está posto, assim deve ser deixado, e que não podemos mudar o curso dos fenômenos da sociedade humana ou de nossas vidas pessoais. A partir daí justificamos a mediocridade dos que querem simplesmente sublinhar o que existe sem ousar tentar qualquer alteração.

Nada mais formalista do que a linguagem, que não é um simples espelho da práxis humana. Construímos argumentos, proferimos discursos, emitimos palavras e construções gramaticais na tentativa de dar forma aos nossos pensamentos. Tentamos por meio da escrita e da fala expressar sentimentos, tecer considerações racionais, em suma, dizer o que pensamos sempre considerando a que público estamos nos dirigindo. A linguagem não é conteúdo, consiste basicamente em formatos discursivos que, não raro, traem o que realmente pensamos e fazemos.

Em nossa cultura atual, especialmente no plano da política, considera-se o ato de ser radical como algo negativo. Criticar em profundidade, indo-se além dos limites formais da linguagem protocolar, é visto como algo imprudente. É comum que se tente impor a lei do silêncio, o emudecimento dos ‘radicais’ porque eles incomodam para além da formalidade do poder. A retórica do poder faz de tudo para não ser desmascarada, não deseja revelar os seus conteúdos e por isso ser criticada. Isto é bem antigo. O poder convencional precisa tentar calar qualquer inflexão que desnude suas mazelas. Obviamente, existe um radicalismo retórico, fraseológico, formalista e inconseqüente. Assim como, pensar de modo radical pode significar a tentativa, não obrigatoriamente bem-sucedida, de se ir adiante dos limites protocolares permitido pelas aparências e se chegar às essências.

No plano da vida dos indivíduos não é muito distinto. Se realmente desejar-se ir na direção da compreensão dos fenômenos dos homens e das mulheres, precisar-se-á da coragem de todos que se aventuram a romper os limites formais da linguagem. Por meio da língua escrita ou falada obtêm-se a reificação do mundo ou sua crítica, usando-se argumentos, discursos, palavras, gestos e comportamentos. Para confirmar determinado problema, basta repetir seus argumentos já constituídos, mesmo que um pouco alterados, para não se dar a imagem da cópia. Negá-lo implica criatividade, ruptura e uso da língua de modo inovador. A linguagem, sendo forma, pode ser alterada, expressando as infinitas variações do pensamento, da ordem simbólica e da realidade material onde ele se insere.

A vida só muda quando somos radicais, isto é, quando deixamos de nos enganar pelas aparências dos fenômenos e conseguimos observar suas essências. Isto não quer dizer que devamos sair quebrando tudo, discordando de todos e desconfiando até de nossa sombra. Mas, é preciso suspeitar das verdades estabelecidas e sobretudo de nossas certezas. Elas podem nos estar conduzindo para o abismo, sem que nos apercebamos ou mesmo desejemos. Nada no mundo dos homens e das mulheres é natural, nem mais as nossas mais recônditas certezas. Uma mente aberta é capaz de examinar o que está em torno e, fundamentalmente, voltar o mesmo exame, ainda com maior intensidade, para o autoconhecimento socrático.

O problema que sempre se coloca é porque pensamos de jeito ‘X’ ou ‘Y’. A que senhores servem nossas idéias e qual as implicações de nos comportamos de determinada forma. Por mais que a experiência passada possa ajudar, o mundo está sempre mudando e, por isso, é preciso estar atentos para não sermos derrubados pelas ondas das mudanças do simbólico e do material. Não há fórmula perfeita e nem manual de sobrevivência na mata fechada da vida humana. Temos que, a cada momento, projetarmos nossas vidas nos demais, fazer escolhas e ousarmos ir além do que se diz que devemos fazer.

Os sensos comuns compartilhados são inimigos da liberdade. Ao agirmos de acordo com eles, estamos apenas mantendo tudo onde está. Os sensos comuns são formalistas, desprezam os conteúdos dos fenômenos e fornecem a comodidade das respostas prontas e das verdades já pré-definidas. Talvez por isso sejam muito atraentes. Tornam o cotidiano mais fácil e economizam nossa coragem e necessidade de pensar. Por outro lado, nos enterram vivos, por não nos deixarem perceber as essências dos fenômenos. Dentre seus efeitos perversos, destaca-se o dano as nossas sensibilidades, impedindo que possamos ver à luz do dia quem são os que nos cercam e nos empurrando em direção ao oportunismo e a mediocridade.

16-02-2003