O Entendimento
Luís Carlos Lopes Compreender
como os indivíduos e as coletividades conseguem entender a si mesmos
e ao mundo exterior é um desafio que aponta para uma das chaves
do conhecimento contemporâneo. Entender é uma das atribuições
humanas. Não é possível furtar-se a isto, sem abrir
mão da condição humana. Como temos consciência
de nós mesmos, o entendimento acaba sendo uma prática cotidiana,
uma das tarefas de nossas redes neurais e uma das formas de nos inserirmos
na vida.
Em
diversas tradições religiosas, o entendimento é algo
sobrenatural, possível pela existência de algo que anima
nossos corpos e dialoga com forças imateriais, capazes de nos propor
soluções para os nossos dilemas espirituais e morais. Estas
saídas seriam obtidas por sinais além dos sentidos conhecidos
e demandariam do habitus de rituais e das crenças em determinados
símbolos. A prece no altar, ao pé da cama ou voltada para
a Meca perseguem o desejo de entender. Não é muito diferente,
quando, seguindo estes padrões, pensamos o que devemos fazer. Trata-se
de um impulso incontrolável e impossível de destruir, canalizado
pelas mais diversas crenças religiosas.
O arbítrio humano pode ser livre,
mas quase sempre não o é, por ser muito influenciado pelo
que acreditamos e pela realidade material que nos envolve.
Nos sensos comuns contemporâneos, há
diversas interpretações – entendimentos do entendimento
– que naturalizam esta incrível capacidade de percebermos
o que nos rodeia e a nós mesmos, tomarmos decisões entre
o bem e o mal (moral) e, sobretudo, termos alguma certeza ou uma montanha
de dúvidas sobre o que entendemos. Conseqüentemente, nossas
ações estarão de acordo com a dificuldade humana
de lidar com seus próprios paradoxos. Pensaremos e tomaremos decisões,
que podem, em uma infinidade de gradações, até ser
a favor ou contra a nós mesmos ou que ajudem ou prejudiquem nossos
irmãos. Encontraremos mil e uma justificativas para tal –
racionalização – e estaremos ou não em paz
– concreta ou fictícia – com as nossas consciências.
Os argumentos científicos de nosso
tempo pretendem fugir da opinião (doxa) e encontrar respostas sobre
o entendimento. As ciências, mesmo quando rigorosas, não
são imunes aos paradoxos do senso comum e nem são sinônimos
de verdade. Um mesmo problema pode ser entendido de mais do que uma forma,
não menos ‘verdadeira’ do que a outra. A ‘verdade’
pura é um argumento que só interessa a quem ainda acredita
no determinismo positivista e, ainda mais, na sua versão mais pesada
de nosso tempo: a do neopositivismo.
Os ‘verdadeiros’ sábios
já há muito se libertaram desta herança, aceitando
o princípio da ‘indeterminação da ciência’,
o qual, de modo tosco, quer dizer que por mais que pesquisemos determinado
problema, algo ficará faltando e se estabelecerão os limites
que poderão ser superados por novas investigações.
No sociologismo, uma das versões do
neopositivismo contemporâneo, o entendimento obedeceria quase exclusivamente
à lógica do espelho. Entenderíamos o mundo estritamente
a partir dos padrões sociais hegemônicos. Nesta versão,
a percepção individual e a luta contra os tais ‘padrões’
submergiria e tornar-se-ia secundária, frente ao poder do social.
Seriamos assim no amor, na política e em inúmeros pensamentos
e ações dos homens e das mulheres de nosso tempo.
Os ‘sociologistas’ têm
bastante razão em suas observações da práxis
humana. Os tais padrões têm uma inexorável força
e catalisam os modos de pensar e de agir de muita gente. O que o sociologismo
não explica, são as rupturas completas, parciais ou seus
arremedos. No mundo fantástico das sociologias melhores e nem tão
boas de nosso tempo, o ser humano é apenas um ser social, sua ontologia
circunscreve-se a sua condição de membro de um corpus, diagnosticada
desde o século das luzes.
A este racionalismo asséptico, contrapõe-se
realidades multifacetadas da dialética infinita, positiva e negativa
entre os indivíduos e a totalidade social. Os regimes autoritários
tentaram suprimir a criação individual, acusando-a, dentre
outros chistes, de reacionária e pequeno-burguesa. Assim fez-se
e faz-se no ocidente burguês, como há pouco tempo, fez-se
no socialismo realmente existente, que hoje é passado. A potência
das mudanças ou de seu desejo alimenta-se desta dialética.
Sem ela, o entendimento não é nada mais do que a reificação
do mundo e a naturalização dos mais diversos preconceitos.
O individualismo nada tem a ver com esta
dialética. É, em nosso tempo, mais uma das concepções
que se afastam formalmente do compromisso dos indivíduos com suas
sociedades. Jamais concretiza-se por inteiro, a não ser como patologia
psíquica. O individualista vive do cultivo de suas quimeras e impossibilidades,
por não poder se projetar nos seus semelhantes e ao mesmo querer
a aprovação dos mesmos.
Interessa ao poder confundir as coisas e
banir das atuais ‘repúblicas’ a invenção
e a liberdade de pensar de modo criativo, longe da dominação
padronizada. O desejo de ser livre é o que impulsionou tanto a
criação artística como a científica. Os indivíduos
tornam-se livres – mesmo que por um átomo do tempo –
quando conseguem superar as amarras do social e do simbólico.
Isto implica, construindo-se
uma estratégia de resistência possível, sentir o mundo
de modo diferenciado, não se deixando seduzir pelos preconceitos
padronizados que nos escravizam. Implica, também, agir, buscando-se
o ideal certamente quixotesco de colocar o ‘sonho’ para além
da dura realidade, não se deixando domar por ela e aceitá-la
como natural. Consiste em preferir a ética, mesmo que utópica
em determinado contexto, do que o pragmatismo realista e conservador.
O que é hoje utópico poderá ser possível em
prazo por vezes mais breve do que se imagina. É melhor esperar
do que ceder em nome da tradição e da realpolitik.
Sem resistir e sonhar com os pés no
chão, corremos o risco de: nada entender, pensando que tudo estamos
entendendo; não agradecer quando é evidente que padrão
seguido foi rompido; não amar a quem nos ama e devotar interesse
aos que nada tem a ver conosco; rejeitar a afetividade, tal como estivéssemos
ainda na condição dos minerais – corações
de pedra – formados pelas poeiras das estrelas de onde viemos. Nestes
lugares, onde o sopro humano passa longe, mesmo que se considere e entenda
a origem, corre-se o risco de perder-se no cosmos a possibilidade de sermos
exatamente humanos.
É melhor ficar com Cervantes, Saramago,
Patativa do Assaré e outros homens de letras e de ciência
que jamais foram encantados pelas sereias do apocalipse e da conservação.
Pessoas que se mantiveram ‘sonhando’, sem tirar os pés
dos chão; amando a quem lhes amou, pode amar ou já ama;
odiando a injustiça, a miséria e a ignorância; mantendo
o sonho do “homem humano” do jovem Marx, ontem, hoje e amanhã.
Louva-se aqui a todas mulheres e homens que compartilham o desejo e a
luta por um entendimento para além das convenções
que nos aprisionam.
27-01-2003

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