| IDEIAS ENVIE DEBATA | ![]() |
Cultura global e barbárie local |
|
| Juan
Mayorga
"Globalização" é um conceito mágico do nosso tempo. Mas chega também o momento de falar da sua cultura. Diz-se que, muito em breve, todos participaremos de uma cultura global. Mas afinal que cultura é essa que iremos partilhar? Por acaso as velhas experiências estarão a fundir-se numa súmula colossal, na qual cada experiência particular permanecerá intacta? Ou será antes que uma experiência particular se está a impor a todas as outras? Presenciamos o nascimento de uma cultura global ou a globalização de uma única cultura? Justamente aquela cultura que melhor acompanha o mercado no seu alargamento? Acaso a chamada "cultura global" será mais do que uma experiência particular, a qual, desconhecendo os seus próprios limites, se apresenta como súmula de todas as experiências? E fora dessa "cultura global" ficarão todas as experiências não susceptíveis de serem convertidas em mercadoria? Se assim for, estão em perigo áreas imensas, tanto no domínio da tradição como no da criação. De facto, actualmente toda a obra cultural que não contribua para o crescimento do mercado pode já ser eliminada como supérflua. A obra cultural que não seja convertível em mercadoria tende a ser descartada pelos seus criadores antes da sua exibição ou mesmo da sua execução. Para obter este efeito, o mercado não precisa exercer nenhuma intimidação especial. Geralmente, são os criadores de cultura os primeiros que olham o receptor de cultura como um consumidor inserido no mercado. É verdade que não faltam criadores que procuram fundar espaços culturais autónomos em relação ao mercado. Tratam-se de tentativas para fazer "a cultura pela cultura", recordando os velhos esforços decadentistas de produzir uma "arte pela arte". Em regra, tais experiências acabam por cortar o seu cordão umbilical não só com o mercado mas também com a sociedade. Em qualquer caso, essas tentativas são excepcionais. Os produtores de cultura, tal como todos os outros produtores, acabam por aceitar o mercado como a mais importante fonte de reconhecimento. Inversamente, uma sociedade em que o mercado funcione com alguma eficácia é também eficaz na produção e na distribuição de determinados bens culturais. O que pode levá-la a olhar-se a si mesma como uma sociedade culta. Em regra, essa sociedade que se autocaracteriza como culta dedica alguns recursos a revisitar as obras culturais do seu passado, no sentido de construir um relato que apresente a sua actualidade como o culminar de um processo crescente. Tal exige um enorme esforço de desmemoria, uma vez que devem ser excluídas todas as obras inassimiláveis por um relato cujo princípio constitutivo é a ideia de progresso. Cada obra que não encontra lugar dentro desse relato evolutivo, desaparece então do museu do fim da história. Nesse museu, as vítimas do progresso apenas são mostradas na vitrina dos sacrifícios necessários. No chamado "primeiro mundo", produtores e consumidores da cultura podem participar no relato que apresenta a actualidade como consequência necessária de um processo inevitável. De acordo com tal descrição, o mercado é um fenómeno natural, como naturais são a sua evolução e a sua crise. De acordo com esse relato, o homem deve viver no mercado como numa segunda natureza. E diante da natureza não cabem valorações morais. "Bem" ou "mal" são palavras "demasiado humanas" no mundo do natural. À natureza não se pode pedir responsabilidade, justiça ou compaixão. Diante da natureza, não há lugar para a crítica. Vivemos, então, maus tempos para a crítica. A ruína de uma alternativa exterior debilitou também a dissidência interior. Como se a derrota daquela alternativa global às contradições houvesse impossibilitado a súbita solução de toda a contradição. Convirá porém recordar que a crise da crítica é a antecâmara da barbárie. E que a luta contra a barbárie começa pelo gesto crítico dentro da cultura e perante a cultura. Durante algum tempo, pensou-se que cultura e barbárie se excluíam mutuamente. Pensou-se que o homem rico em experiências culturais não podia ser um homem bárbaro. Todavia, já antes do Holocausto alguém se atreveu a dizer que todo o documento de cultura é, ao mesmo tempo, um documento de barbárie. Depois do Holocausto, contrapor cultura a barbárie é uma perigosa ingenuidade. Pode escutar-se a melhor música pela manhã e torturar-se à noite. Pode chorar-se de emoção ante um corpo pintado ou esculpido e contemplar com indiferença a dor de um ser humano. Uma sociedade de leitores, uma sociedade que encha os museus, uma sociedade que atulhe os teatros, pode aplaudir o genocídio. A menos que essa sociedade se situe Críticamente a respeito da sua cultura. Sem crítica, a cultura prepara a barbárie. Ela mesma é barbárie. Uma pessoa educada na aceitação acrítica da cultura está educada para a barbárie. Está educada para ser dominada ou para dominar. Ao invés, uma cultura crítica trabalha contra a barbárie. Uma cultura crítica cria espaços nos quais um homem pode abrir aos outros a sua experiência, e abrir a sua experiência à de outros homens, incluindo a experiência de homens de outros tempos. Uma cultura crítica prepara a pessoa para se relacionar com as outras e não para dominar as outras ou para se resignar diante do domínio de outros. Uma cultura crítica educa contra o sacrifício do homem ao mito, seja este traduzido numa fé, numa ideia, numa pátria ou no mercado. O produtor cultural deveria ter consciência de que as suas obras podem convocar a crítica ou limitá-la. De que as suas obras podem abrir o diálogo ou suspendê-lo. O produtor cultural pode trabalhar para justificar o presente estado das coisas ou para se interrogar acerca do presente estado das cosas. Pode trabalhar para a evasão ou para a consciência. O produtor cultural pode aderir à tradição vencedora ou fazer com que na sua obra ecoe o silêncio das tradições vencidas. O produtor cultural pode trabalhar para o dissimular da fragmentação da sua sociedade ou tornar a sua sociedade consciente dessa fragmentação. O produtor cultural pode contribuir para que a sua sociedade represente a sua própria experiência como uma experiência completa ou fazer com que a sua sociedade reconheça a sua incompletude a respeito dessa soma de toda a experiência que apenas possui o conjunto da humanidade. O produtor cultural pode apresentar a sua obra como resultado da necessidade ou abrir o debate acerca da justificação da sua obra. Pode camuflar a sua própria dependência em relação ao mercado ou tornar visível essa dependência. Pode esconder as condições sociais que tornam possível o seu trabalho ou suscitar uma meditação sobre essas condições. Pode mostrar o que se sacrificou para produzir a sua obra ou alimentar a hipnose do progresso. Uma obra de cultura contribui para a crítica quando é capaz de dirigir o gesto crítico: primeiro diante de si mesma; segundo, para o seu produtor; terceiro, para a tradição em que se inscreve; quarto, perante essa experiência incompleta a que hoje chamamos cultura. Uma obra de cultura crítica mostra que nem ela, nem o seu autor, nem a sua tradição, nem aquilo que hoje reconhecemos como cultura, acolhem mais do que fragmento da experiência humana. Uma obra de cultura crítica mostra os limites da nossa experiência. Todavia, para falarmos com rigor, nenhuma obra cultural é, por si mesma, crítica, tal como qualquer uma pode sê-lo. Porque o fundamental numa cultura crítica não é a intenção do produtor de uma obra cultural, mas sim a atitude com a qual os receptores dessa obra se situam perante ela. Essa atitude nunca será demasiado crítica. O fundamental para uma cultura crítica não é que os produtores de cultura sejam críticos, mas sim que o sejam os seus receptores. O verdadeiro criador de uma cultura crítica é a comunidade. Uma cultura crítica é uma cultura sem guardiães. Não há nela nomes sagrados, nem lugares sagrados, nem tempos sagrados. Não há nela santos nem igrejas. Não há nela âmbitos fora do alcance da crítica. Daí que uma cultura crítica possa encontrar resistências no narcisismo dos produtores de cultura. Mas uma comunidade crítica sabe que a cultura é demasiado importante para deixá-la apenas nas mãos dos seus produtores. Uma comunidade crítica sabe que, chegado o momento, os líderes da produção cultural podem ser líderes da barbárie. Em contrapartida, se é capaz de conter a sua infantil propensão para o egocentrismo, o produtor de cultura pode contribuir muito activamente para a formação de uma comunidade cujo eixo seja o diálogo crítico. Pode ajudar a fazer democracia. Pode ajudar a romper a alienação de alguns seres humanos em relação a outros que é suscitada pelo mercado. A imagem do mundo futuro como "aldeia global" não deve confundir-nos. Utiliza-se essa imagem como se a globalização trouxesse consigo a extensão da comunidade. Mas se é apenas o mercado que vai estender-se, a imagem mais provável do futuro é uma atomização máxima, na qual cada ser humano verá a todos os demais como seus concorrentes. Pelo contrário, a extensão do diálogo crítico pode produzir comunidade. No lugar de frágeis agregados de produtores/consumidores, o diálogo crítico pode formar comunidades de consciência e de experiência. Quando uma obra de cultura é capaz de provocar nos seus receptores não apenas a adesão ou a recusa, mas também o diálogo crítico, então essa obra introduz-se num texto cujo autor é a comunidade. Através da discussão pública, a obra cultural deixa de ser um mero elo da cadeia de produção-consumo para se integrar num tecido colectivo de consciência e de experiência. Não a mera acumulação de cultura, mas uma relação crítica com a cultura, poderia constituir o eixo de um humanismo capaz de fazer frente à barbárie. Uma cultura crítica não educa para o pessimismo, mas contra o fatal optimismo do progresso. É cultura que afirma a vida humana diante da natureza. Cultura para a felicidade. Por isso, antes de ser reclamada pelos produtores
culturais, uma cultura crítica deveria ser reclamada pelos cidadãos.
Mais como cidadão do que como produtor cultural, interessa-me o
êxito dessa cultura capaz de gerar uma comunidade de experiências
e de consciências. Como cidadão, interessa-me que se escutem
outras vozes para além do redundante monólogo autoapologético
do mercado. Vozes a contracorrente. Como cidadão, interessa-me
que existam meios para a dissidência, sobretudo para aquela dissidência
que está em perigo porque não sabe converter-se em mercadoria.
Sei que da autonomia de uma cultura crítica depende a minha própria
autonomia. Por isso, nada me interessa tanto como uma cultura que faça
de mim e dos meus concidadãos uma comunidade crítica. E,
como cidadão, reclamo-a para a minha cidade. Trad. de Rui Bebiano 11-12-2002 |
|