O medo colectivo e o terrorismo
como produto de consumo
Joe Lockard
Publicado em Bad Subjects, Nº 59, Fevereiro, 2003
Não se preocupem, vamos em frente!
A economia dos Estados Unidos da América
(EUA) transformou-se após o 11 de Setembro numa paisagem cautelosa
e invadida pelo medo. As empresas de segurança nacional, ou outras
dentro do mesmo ramo, são as principais fontes de crescimento económico.
Outros sectores empresariais sem qualquer ligação visível
com a área da segurança tentam também integrar a
consciência de segurança nacional na sua imagem institucional.
Um patriotismo optimista, determinado e ameaçador é usado
para vender qualquer produto que se queira vender.
As campanhas publicitárias tentam
adaptar-se a esta sobriedade económica, como ficou demonstrado
pelo bem sucedido anúncio da General Motors: “Mantém
a América a rodar”. George Bush, parafraseando um passageiro
de um avião*, e fazendo eco do slogan
da General Motors, incita o país: “Vamos em frente!”.
Inseguranças colectivas e bens duráveis,
estadistas e comerciantes, aliaram-se através de um discurso consumista.
É ao volante que se controla o destino nacional face ao terrorismo.
Empresas com posições determinantes
na economia dos EUA, como as companhias aéreas, perfilaram-se para
pedir apoios financeiros ao governo, guardando no bolso o discurso do
“livre mercado da intervenção governamental”.
Uma vez que a função do capitalismo é a protecção
do capital e não do trabalho, os desempregados não obtêm
qualquer apoio substancial do governo. As despesas sociais destinam-se
então a atenuar os receios empresariais, enquanto os medos dos
cidadãos se mantêm uma questão de carácter
privado.
Esta economia baseada no medo ilude uma verdade
central da realidade económica: os medos de uma sociedade são
uma fonte constante de lucro. Sem o medo e a insegurança, o capitalismo
nunca poderia pôr em prática as sanções económicas
que lhe asseguram o lucro. Desde o séc. XIX, as políticas
progressistas encarregaram-se de aliviar a insegurança social,
substituindo o medo pela segurança social, com ou sem maiúsculas.
O capitalismo ocidental pós-anos 60 continuou a orientar-se pelo
pensamento económico de Friedman, que acentua a importância
da diminuição das despesas sociais e do aumento das sanções
sobre o trabalho como instrumento regulador do mercado. As políticas
de”liberalização” económica orientadas
pelo Fundo Monetário Internacional, como aquelas que encontramos
na Europa de leste e noutras regiões, reduzem os sistemas de protecção
social existentes, em nome da eficiência e competitividade económicas,
aumentando assim a prevalência do medo colectivo.
Contudo,
se na esfera económica o medo constitui um modo convincente de
coerção social, pode também funcionar como um instrumento
de consumo. O consumo preventivo é uma resposta provocada pelo
medo, no sentido de evitar as consequências da falta de preparação
ou da inacção. O consumo, em si mesmo, torna-se uma defesa
contra os medos, racionais ou irracionais. O espectro do terrorismo islâmico,
posterior ao 11 de Setembro, gerou um mercado para produtos que se enquadram
justamente no contexto do consumo preventivo. Uma relação
precisa entre o produto e o fenómeno político é irrelevante.
No mercado do medo, as técnicas de marketing baseiam-se em associações
de ideias. Subitamente, o risco, sempre presente no cálculo económico,
tem uma face à qual se pode imputar responsabilidades. O consumo
preventivo usa as situações de perigo vindas do exterior,
dos “estrangeiros” odiados e dá-lhes a forma das feições
dóceis.
O próprio medo tornou-se um produto
de consumo e as empresas que dele dependem alimentam a paranóia
criada pelos ataques terroristas. Desde a publicidade a seguros de saúde
até anúncios a serviços financeiros com ênfase
na segurança, os meios de comunicação social multiplicaram-se
em apelos para a prevenção de algo que é quase impossível
de prevenir através do consumo. O terrorismo islâmico tornou-se
uma marca invisível que agrega produtos diversificados. O medo
dos seguidores de Alá, animados de intenções de morte
e guiados por distantes mulahs, é a indizível razão
dissimulada que permite que companhias de seguros e a “Florsheim
Shoes” usem a Estátua da Liberdade como um novo-velho estandarte
publicitário, ou que a Ralph Lauren misture as T-Shirts com a bandeira
americana. Todas estas campanhas afirmam uma liberdade reformulada enquanto
liberdade de consumo. As imagens dos símbolos sagrados americanos
e a invocação comercial do “E Pluribus Unum”
nacionalizam o poder de compra dos consumidores. Comprar o que é
americano é enfrentar o inimigo.
Quanto mais comprarmos, mais andamos em frente.
A indústria do medo
São os pequenos “empresários”
do medo que expressam aquilo que as grandes empresas de publicidade, com
maiores constrangimentos sociais, não estão em condições
de afirmar directamente. Não estamos perante os já esperados
charlatães da Internet que vendem vitaminas contra o antrax. Fora
do mundo das marcas de renome e com raízes populistas, emergiu
um empresariado do medo, para acalmar e consolidar o medo enquanto consumo
útil. Os pequenos empresários, que há cinquenta anos
construíram abrigos caseiros contra a radioactividade, têm
agora os seus seguidores que vendem fatos de borracha para a guerra biológica
e manuais de instruções de sobrevivência.
Contudo, estes são oportunistas ao
nível de um produto ou serviço para vender, e não
com premissas ideológicas próprias. A esse nível
mais profundo, a revista “Terrorism Survival Guide”, cara
e atraente, cumpre a sua função, tal como o “Whole
Earth Catalogue” cumpriu a sua, nos anos 60. Recheada de publicidade
da Rugers e de escolas de tiro, constitui o segundo número de uma
série intitulada “Operação de Fortalecimento
da Liberdade” (Operation Enduring Freedom, publicada pelo “Pantheon
International”. A capa apresenta inúmeros artigos, desde
o “Guia do senso comum para manter-se seguro” (“The
Common Sense Guide to Staying Safe”), de índole informativa,
até ao alarmista “Perigos Actuais! Saiba o que pode fazer
para enfrentar as ameaças!” (“Dangers we face now!
What You Can Do to Meet the Threats!”).
Esta é uma revista da defesa civil,
imagens de pessoas com fatos de borracha e outro artigo, “Antrax
e o Bio-terrorismo: Factos versus Medos! Realidade versus Boatos!”
Até a “Casa e Jardim” se ocupa com a guerra biológica.
A “Terrorism Survival Guide” reequaciona a actividade económica
em direcção à sobrevivência; as suas páginas
indicam-nos como consumir para sobreviver. A segurança do país
e da própria casa fundiram-se numa só.
A
‘Terrorism Survival Guide” é o testemunho eloquente
de como o medo é, em si, um artigo doméstico. A sua extensa
publicidade a armas e guias de sobrevivência tira partido do medo
colectivo, das ameaças sociais, e do caos social geral para aumentar
as vendas. Os produtos anunciados destinam-se a tornar a residência
num local imune ao medo do terrorismo. Um par de fotografias de uma mulher
loura de meia-idade ilustra demonstrações de técnicas
de defesa doméstica. Numa delas, reveladora da nova hospitalidade
suburbana, a matrona, empunhando uma pistola, rasteja em direcção
à porta de entrada, bem preparada para receber um convidado inesperado.
Na outra fotografia, a mesma mulher, numa varanda de um 2º andar, perscruta
a entrada da casa com uma espingarda, mostrando como a proteger de intrusos.
Um artigo sobre a psicologia da criança pós 11 de Setembro
é complementado por uma fotografia de página inteira em
que uma miúda com os dentes todos à mostra enverga uma máscara
de gás de plástico transparente com um microfone e traz
consigo uma Barbie, também com uma máscara de gás.
Os artigos identificam as causas do medo e a publicidade apresenta as
soluções.
Assim como a casa se constitui num alvo principal
que é preciso defender, também a zona onde se vive se torna
vulnerável. Tal como foi expresso pelo autor de um artigo, neste
novo mundo de ameaça interna, as infra-estruturas locais são
um alvo principal. “Por exemplo, antes de toda esta loucura, poderíamos
não reparar no carro mal estacionado junto à central eléctrica
local. Agora, anote o facto e informe as autoridades. Antes do 11 de Setembro,
poderíamos não pensar duas vezes sobre comportamentos estranhos
que observássemos na zona dos reservatórios de água.
Agora, será melhor pensar duas vezes.” George W. Bush conferiu
a estes sentimentos um tom presidencial ao pedir aos cidadãos que
vigiassem pessoas que “agissem de modo suspeito” junto a centrais
químicas.
Uma vez que as fontes de alimentação
doméstica estão em perigo, as pessoas precisam de definir
uma estratégia regional de defesa. Paralelamente a uma procura
de explicação do desconhecido, existe uma desconfiança
de todos os que se afastem da norma, ou dos que fazem demasiadas perguntas.
“Tenham cuidado com os que façam perguntas inconvenientes
sobre horários, métodos de comunicação, encontros
sociais” é o conselho expresso na Nota #3 do Guia básico
para o anti-terrorismo, a que se segue a nota #5 “Atenção
às pessoas cujos movimentos e comportamentos não aparentam
seguir uma motivação lógica”. De acordo com
esta filosofia antiterrorista caseira, uma lógica culturalmente
diferente suscita o medo e requer investigação e acção.
Em todos os artigos e anúncios publicitários
desta revista encontramos a mesma resposta a estas inseguranças:
compre uma arma! Embora uma arma de fogo seja inútil contra as
ameaças de carácter químico, biológico e nuclear
que a revista “Terrorism Survival Guide” assinala, a falta
de lógica não parece incomodar os seus editores. Pelo contrário,
uma arma é um instrumento de defesa palpável, mesmo que
não ofereça protecção alguma. Comprar uma
arma é, assim, o oposto da submissão. O editor, Michael
Bane, equaciona esta atitude como uma escolha de carácter moral.
“Como muitos americanos, depois d’O Ataque, cheguei a um ponto
de viragem ao nível moral e ético. Creio que, no mundo real,
existem momentos em que nos devemos submeter; contudo, como cultura e
como nação, chegámos ao ponto de encarar a submissão
como a escolha preferencial.”
Segundo aquela revista, uma recusa em reconhecer
a necessidade de cada pessoa ter armas próprias equivale a capitular
e a aceitar a vitimização. A ideia de que existem outros
meios de defesa pessoal, eventualmente mais adequados e eficazes, nunca
é abordada nesta revista. À semelhança de tantas
outras ideias aqui veiculadas à sombra da defesa pessoal anti-terrorista,
a propriedade de armas de fogo representa apenas uma aquisição
simbólica. Essa necessidade de um símbolo físico
de resistência, uma nova Remington escondida debaixo da cama, como
defesa contra incipientes ameaças estrangeiras, pertence ao mesmo
mecanismo social operacional que leva os consumidores a adquirir bens
duráveis como resposta ao terrorismo. O consumismo gerado pelo
pânico constitui uma resposta de crise à violência,
um meio de gerir o excesso do medo colectivo E, neste campo, não
faltam oportunidades de lucro.
Insegurança nacional
Dado que a ideologia proporciona as condições
para o consumo, os artigos da “Terrorism Survival Guide” definem
uma ideologia que redirecciona os leitores para um consumo orientado para
a segurança. Michael Bane assina um artigo intitulado “Ten
Ways Our Lives Have Changed” (“Dez aspectos em que a nossa
vida mudou”) no qual propõe um novo sentido para a coesão
nacional americana. A estratégia desta nova coesão social
reside na redescoberta nacional do espírito guerreiro americano.
O lobby anti-armas de fogo conduziu aqueles que adoptaram uma atitude
derrotista de submissão que se estendeu a todo o país, nas
últimas décadas. A coragem e a honra emergem agora de uma
ampla rejeição popular da submissão, e a nação
toma outro rumo, a partir de uma nova orientação social
assente em valores absolutos. “Enterramos os nossos mortos com a
certeza indubitável de que o bem e o mal absolutos existem de facto,
e que o nosso valor enquanto indivíduos e enquanto um povo reside
na posição que assumirmos nesse combate épico.”
Foi a belas palavras como estas que Jack
London respondeu, uma vez, da seguinte forma, “ (…) a magia
das suas palavras leva-o a convencer-se do seu patriotismo. O seu desejo
de lucro, que é puro egoísmo, é assim metamorfoseado
em solicitude altruísta por aqueles que sofrem.”
Nesta Nova América, que acorda todos
os dias cheia de patriotismo renovado, o absolutismo moral enterrou o
relativismo e a atitude crítica numa campa sem honra e distante.
É o triunfo de uma unidade nacional em que os problemas sociais
são reduzidos a problemas familiares sem importância, ao
nível de uma disputa por mais uma dose de sobremesa. As profundas
diferenças a nível histórico e social desaparecem
neste cenário ideológico; tornam-se, pelo contrário,
a expressão do exuberante individualismo partilhado por todos.
O resultado final é: “ Somos a tribo guerreira que conseguiu
o impossível – criar um governo forte que enalteceu e continua
a enaltecer o nosso individualismo controverso.”
Trata-se da ilusão clássica
do nacionalismo, a crença de que uma tribo-nação
mística convocou os seus espíritos, para os fazer renascer.
De acordo com esta ilusão, as divisões raciais, de sexo
ou de classe são meramente “ocasionais”, sendo completamente
ignorada a contradição evidente na própria tese de
Bane, de que as divisões sociais originadas pela submissão
permaneceram por muito tempo. Assim, a escrita da História serve
para mitificar e unir e não para documentar, analisar e explicar.
A função do Estado-nação é a de transpor
o espírito guerreiro para um plano operacional. Contudo, o que
Bane está a usar é uma clássica técnica de
marketing: fazer os consumidores sentirem-se felizes com a transformação
pessoal que lhes é sugerida. Eis a América ressuscitada,
uma nação-produto pelo qual vale a pena lutar – e
eis aqui também os instrumentos de luta e de partilha do espírito
guerreiro. É um apelo ao renascimento de uma fé no tribalismo,
onde a partilha da condição de guerreiro se substitui a
um desvalorizado combate social. Ou, segundo um dos articulistas, a mudança
necessária, “Temos que adoptar a mentalidade israelita, segundo
a qual todos somos companheiros na defesa do país.”
O medo funciona simultaneamente como obstáculo
e como facilitador deste esquema ideológico. Num dos diversos artigos
que escreveu para a “Terrorism Survival Guide”, Bane aborda
o medo. Bane configura o medo como mais um instrumento táctico,
uma emoção que, correctamente gerida, provoca contínuas
avaliações da situação e respostas imediatas.
Para existir medo, deve haver um estímulo específico e imediatamente
identificável; um medo “sem forma” é uma mera
intuição, defende Bane, esquecendo-se da lógica da
inferência. Tem havido uma utilização cultural excessiva
do medo e do seu discurso, o que conduz a uma incapacidade de identificação
dos sinais reais de perigo e diminuição da resposta imediata
às ameaças, afirma Bane.
Contudo, a proliferação dos
medos é um fenómeno endémico a uma economia capitalista
eficaz. O medo é a técnica de marketing de bens e serviços
e, a um nível social, da nação-produto. O maior medo
e, consequentemente, a melhor técnica de marketing consiste num
ataque à própria comunidade americana.
Desaprender o medo
Em 1927, no contexto do caso Whitney,
sobre a liberdade de expressão, Louis Brandeis afirmou “Aqueles
que conquistaram a nossa independência sabiam que o medo gera a
repressão; que a repressão gera o ódio; que o ódio
é uma ameaça a um governo estável.” Brandeis
evidencia o ciclo social provocado pelo alastramento do medo, um ciclo
em que um governo opressor e uma oposição violenta crescem
lado a lado. Brandeis expressa o clássico medo dos iluministas
de um Estado degenerado, o medo de que a intolerância do governo
provoque o ódio e tumultos de rua. Assim, as liberdades civis constituíam
um mecanismo de escape, um meio de assegurar que a repressão não
suscitasse consequências mais graves.
Contudo, a mesquinhez de John Ashcroft e
a viciação das liberdades civis não provocou tumultos
de rua. Tal como o pior Procurador-Geral da República na história
americana, A. Mitchell Palmer, Ashcroft surge num ambiente dominado por
uma mentalidade limitada que receia a diversidade do mundo, um provincianismo
McGuffyista de quintais bem cercados e valores americanos do século
XIX. Apesar da semelhança entre o medo vermelho de Palmer e o medo
dos muçulmanos de Ashcroft, os oitenta anos que os separam foram
marcados pelas alterações introduzidas, no panorama político,
pela comunicação social e por uma cultura visual global.
Enquanto que, no início do século XX, os medos poderiam
enquadrar a política do estado ou os produtos de mercado, nos últimos
tempos, o medo tornou-se um produto público e alindado. O que é
anunciado pelo governo é apresentado, interpretado e ampliado pelos
programas noticiosos de televisão.
Neste regime económico sobredeterminado
pelos media, as consequências do medo colectivo já não
assentam essencialmente num ataque às liberdades cívicas.
O medo como objecto de consumo e o marketing dos seus produtos e das nações-produto,
ultrapassou em muito a criação e defesa dos direitos cívicos.
A América consome as liberdades cívicas e o consumo constitui
a sua principal liberdade cívica.
Este marketing e consumo do medo colectivo
assenta numa ideologia insidiosa, que emerge de uma variante xenófoba
da política de identidade nacional. Neste contexto de crença
paranóide de ameaça contínua, todas as manifestações
de diferença são interpretadas como fontes de perigo. Um
mundo fecha-se sobre si próprio, sobre os seus medos e abriga-se
por detrás dos muros luxuosos da economia dos EUA, com armas apontadas
para o exterior. A política externa transformou-se na defesa desta
identidade hegemónica triunfal e na exigência que outros
países se submetam a esta supremacia global dos Estados Unidos.
Surge uma identidade de auto-defesa nacional cuja preocupação
principal reside em eliminar as ameaças à existência
sob o estandarte “Procura-se Vivo ou Morto” dirigido às
fontes de ameaça. As políticas de identidade étnica
desenterram o machado de guerra, reduzindo-se as identidades possíveis
ao Bem visível e ao Mal oculto. A auto-identificação
americana com a prosperidade é a única identidade boa e
a única que tem valor.
Walter Benn Michaels afirma que o capitalismo
fornece quer os objectos de medo, quer os de desejo, assim como os consumidores
para ambos os gostos. “A lógica do capitalismo produz objectos
de desejo apenas na medida em que produz sujeitos, uma vez que o que torna
os objectos desejáveis é apenas o traço de subjectividade
inerente a esses objectos.” Hoje, a subjectividade americana caracteriza-se
pelo medo e os objectos de desejo são os que compram a protecção
contra o medo. A revista “Terrorism Survival Guide” representa
uma síntese perfeita desta transformação do medo
em, simultaneamente, produto e subjectividade, uma síntese cujas
características ideológicas sobressaem no seu extremismo,
mascarado de uma banal auto-defesa. Este extremismo maniqueísta
na suposta defesa da liberdade requer um Mal transcendente, capaz de resistir
ao pensamento crítico e que permaneça irredutível,
sem precisar de explicação. A transformação
do medo em objecto de consumo assenta, em última análise,
na manipulação através de panaceias e da ignorância.
Não obstante, existe uma verdadeira
linha da frente na defesa nacional: professores que se recusam a veicular
as dicotomias oficiais do Bem e do Mal, estudantes que recusam aceitar
perspectivas acríticas e pais que se recusam a barricar as suas
casas contra ideias e pessoas estrangeiras. Na essência desta defesa
nacional encontra-se uma rejeição radical da alienação
social. Estamos perante um conceito alargado de defesa nacional que reconhece
que o actual medo colectivo dos americanos tem a sua origem no medo dos
pobres e despojados a nível global, daqueles que têm razões
para o ressentimento. As economias ocidentais privilegiaram o capital
em detrimento do trabalho e exportaram os medos colectivos inerentes ao
capitalismo – desemprego, empobrecimento, cuidados de saúde
e educação deficientes – para atingir a prosperidade
do Ocidente.
Uma defesa nacional que se recuse a reconhecer
os medos globais e a cólera não é, de nenhuma forma,
defesa. O medo não começa nem acaba nas fronteiras dos Estados
Unidos: já há muito que foi globalizado.
* Uma referência à
atitude de revolta de um dos passageiros dos aviões no ataque de
11 de Setembro.
Joe Lockard é membro do conselho de redacção
de “Bad Subjects" e é professor na "Arizona State
University". Obrigado a Joe Schalit, Aaron Shuman, e Jonathan Sterne
pelos seus comentários.
Trad. de Conceição Carvalho e revisão de Adriana
Bebiano
Texto publicado com permissão de
Joe Lockard.
09-02-2003

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