Da Inquietação à Melancolia:
Risco de Vida ou a Introspecção de Walter
Benjamin

Ivonaldo Leite

Existe um quadro de Klee que se intitula Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar do local em que se mantém imóvel. Os seus olhos estão escancarados, a boca está aberta, as asas desfraldadas. Tal é o aspecto que necessariamente deve ter o anjo da história. O seu rosto está voltado para o passado. Ali onde para nós parece haver uma cadeia de acontecimentos, ele vê apenas uma única e só catástrofe, que não pára de amontoar ruínas sobre ruínas e as lança a seus pés. Ele quereria ficar, despertar os mortos e reunir os vencidos. Mas do Paraíso sopra uma tempestade que se apodera das suas asas, e é tão forte que o anjo não é capaz de voltar a fechá-las. Esta tempestade impele-o incessantemente para o futuro ao qual volta as costas, enquanto diante dele e até ao céu se acumulam ruínas. Esta tempestade é aquilo que nós chamamos progresso.

(Benjamin, in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política)

Algures no lado espanhol da fronteira entre França e Espanha, num dia qualquer de 1940, um grupo de intelectuais alemães, fugindo da Gestapo, viu-se impedido de prosseguir o seu itinerário. No grupo, estava um homem de intelecto fecundo e inquieto, mas cuja face também estampava sinais de profunda melancolia. Ao ver-se impedido de seguir o seu percurso, ele não resistiu à tensão psicológica e lançou mão do acto que tanto pode ser considerado um absurdo como também, por outra parte, é passível de racionalização: o suicídio. Foi assim que Walter Benjamin pôs termo à sua própria vida e, ao mesmo tempo, com a sua atitude, mostrou quão inesperados são os abismos dessa coisa chamada condição humana.

Como bem nos diz Adorno, Benjamin era uma pessoa de personalidade enigmática, com uma conduta que oscilava entre a intransigência quase rígida e a polidez oriental. Uma maneira de ser que aparentava mais o temperamento vibrante de um artista do que a frieza do cientista, e ele todavia não rejeitava a racionalidade. Seu pensamento parecia nascer de um impulso de natureza artística que, transformado em teoria, liberta-se da aparência e anuncia a “promessa da felicidade”. E entretanto, como relatou o seu amigo Gerschom Scholem, após o conhecer na Primavera de 1915, metia impressão a profunda sensação de melancolia de que ele parecia estar permanentemente possuído. Assim era Walter Benjamin. Não menos real para mim é a sua imagem de poeta e místico heresiarca. E ela perpassa toda a sua filosofia.

Benjamin nada tinha de filósofo no sentido tradicional. A subjectividade do seu pensamento era exagerada até a caricatura, o momento idiossincrático do seu espírito, o seu singular, era um recurso constritivo. Pode dizer-se que a frase segundo a qual o conhecimento individual é o mais universal parece ter sido feita a pensar nele. Se não fosse o caso de as convenções terem oficializado a radical divergência entre a consciência social e a científico-natural, tornando impróprias as metáforas físicas nas ciências sociais, poder-se-ia afirmar que nele operava a energia de uma decomposição atómica intelectual. A sua insistência dissolvia e o indissolúvel, o que o levava a apoderar-se da essência das coisas precisamente nos pontos em que o muro da simples factualidade esconde e defende raivosamente tudo o que é essencial.

De forma sintética, penso que não se pode senão destacar que o que motivava Benjamin era, por exemplo, o impulso para romper com a lógica que aborda limitativamente o universal e o individual. O que o impulsionava era o inquieto desejo de compreender a essência sem a destilar com operações automáticas e sem a contemplar em duvidoso êxtase imediato: adivinhação metódica, partindo da configuração de elementos distantes da significativdade. É isto. A adivinhação. Ela era o seu modelo de filosofia. A sua terna irresistibilidade caminha a par de uma premeditada e planeada singularidade. Ela, a irresistibilidade, não reside no afã de produzir um efeito mágico, nem na “objectividade”, no que se refere a uma simples submersão do sujeito em tais climas. Advém, sim, de um rasgo que a especialização e a divisão do espírito, de maneira geral, só permitem na arte e que, transformado em teoria, se liberta da aparência e assume uma incomparável dignidade. Não tenhamos dúvidas: aqui estamos diante da promessa da felicidade.

Dos escritos benjaminianos há o soar de um pensamento que recolhe as promessas dos contos infantis, em vez de as recusar por conta de uma presumivelmente depreciativa maturidade do adulto. Isto é assumido tão literalmente, que torna até perceptível o pleno cumprimento real do conhecimento. E desde o início a sua topografia filosófica diz-nos o que não assimila: a renúncia. Qualquer coisa que nos faz sentir como a criança que vislumbra, pelas frestas da porta, as luzes da árvore de Natal. Mas não estamos diante de um pensamento surgido do nada. Não. Ele é uma oferta a partir da plenitude. O que Benjamin deseja é devolver-nos a satisfação que a adaptação e a autoconservação nos impedem de ter, o prazer em que se articulam os sentidos e o espírito. Na avenida da tristeza, olhemos o seu barroco. Aí a tristeza é construída como última alegoria de transmutação, a alegoria da salvação. A subjectividade precipitada no labirinto das significações faz-se formal garantia do milagre. Porque foi isso que Benjamin sempre pensou simultaneamente: o ocaso do sujeito e a salvação do ser humano.

Um homem de ideação inquieta, com renovados esforços e pontos de partida. O nome das coisas e dos seres humanos é para ele o protótipo de toda a esperança. É o que a sua reflexão faz: procura reconstruir um tal nome. E o faz estiolando a máscara da “ideologia dos dados”, encontrando por trás dela a face do conceito extraviado. Nessa démarche, também repeliu o conceito existencial-ontológico da história como mero produto de uma dialéctica histórica evaporada. Aproveitou a crítica e a compreensão do último Nietzsche, para o qual a verdade não é idêntica ao universal atemporal, apenas o histórico dando estrutura ao absoluto.
Ficámos com a impressão que Benjamin, quase nunca jogando com cartas descobertas, também utilizou a técnica da pseudografia, tão cara aos místicos para surpreender a verdade, suspeitando ser esta inacessível à mediação autónoma directa. Ele leva a cabo um ensaísmo que consiste em tratar textos profanos como se fossem sagrados. De algum modo, esperava que a radical profanização sem reservas fosse a última oportunidade para uma certa “herança teológica”. Dissipou-se a chave que interpretava as imagens enigmáticas. Mesmo estas, como se diz no barroco poema sobre a melancolia, têm que pôr-se a falar.

E por estes e outros caminhos, somos informados que o preço da esperança é a vida. Logo, é central no pensamento benjaminiano a ideia de salvação do que está morto ou quase morto. Paradoxo da possibilidade do impossível: reúnem-se assim mística e ilustração.

Um tal perfil desagradava igrejas intelectuais, e Benjamin se sentia atraído pela academia com a ironia análoga à de Kafka na sua atracção pelas empresas de seguro. Para seu próprio desabono, o dito mundo académico, envolto na pasmaceira das convenções e nas intrigas que lhe são próprias, o rejeitou. Supertalento, foi uma divisa a ele endereçada, e um bonzo existencial atreveu-se a condená-lo por endemoninhado, como se o sofrimento daquele que é possuído pelo espírito tivesse de causar a sua metafísica condenação à morte apenas pelo facto de perturbar a simples relação tu-eu. Contudo, e talvez possa até parecer paradoxal, Benjamin evitava a violência com as palavras. Se despertava ódio era porque, sem querer, desprovido de qualquer intencionalidade polémica, o seu olhar introspectivo, oscilando da inquietação à melancolia, mostrava sempre o mundo usual no eclipse que é a sua luz permanente.


Recomendação Bibliográfica:
ADORNO, Theodor W. (1992). “Caracterização de Walter Benjamin”, in BENJAMIN, Walter (1992). Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Relógio D’Água.

LOWY, Michael (2003). Walter Benjamin – Avertissement D’incendie. Paris: Payot.

28-07-2003