O passado sempre presente:
A prisão do tempo e a vida
Ivonaldo Leite É em torno
da existência, do devenir, que algumas modas intelectuais
contemporâneas têm feito correr rios de tinta. Indo-se ao
extremo, num quadro tomado por um caos irracionalista chega-se
mesmo a abonar posturas eivadas de cinismo. Apesar das demonstrações
em sentido inverso, não são poucos, por exemplo, os que
não se cansam de celebrar o “fim da história”.
Se é verdade que as modas têm
o valor que lhe é próprio (desaparecem com menos bazófia
do que como surgem), no caso referido, há que se dizer que elas
são atravessadas por uma particular curiosidade: focam uma questão
que é central no seio da história da filosofia como se ela
nunca tivesse sido tratada por esta. Não há nenhuma novidade
em determinadas discussões que actualmente rejubilam alguns círculos
académicos e que mais parecem sessões de cariz psicanalítico.
Nada que Nietzsche e Heidegger já não nos tenham bosquejado.
Foi o primeiro que, com o seu grito solitário, quebrou o espelho
da razão.
A
existência, contudo, é um assunto deveras importante e como
tal a sua abordagem não pode continuar sendo monopolizada pelos
salamaleques de ocasião. Não faríamos mal se voltássemos
a olhar os apontamentos sartreanos. E se se quiser ver como as coisas
se passam com a carcaça e o espírito dos próprios
que teorizam, considere-se Althusser. Este amou e destruiu. Teve grandes
esperanças e bebeu o cálice da vida até ao último
travo da angústia, da lacinante dor, do crime e do remorso, da
perseverança, enfim dos olhos secos. Depois de estrangular a sua
esposa Hélène em 1980, esta “mulher muito velha, de
mãos sem recurso nem esperança e que contudo dela podiam
dar-lhe tudo” - como nos conta ele nas desesperadas notas autobiográficas
de L’Avenir dure longtemps -, Althusser viveu até
1990, conforme a sua própria definição, como um “morto
vivo”. Paisagens maníaco-depressivas, crises de melancolia
aguda. Assim aconteceu com o célebre pensant da École
Normale Supérieure de Paris, conhecido em todo o mundo pela
via intelectual que descortinou. 1980-1990. Sobre despojos e ruínas,
a noite maligna do anjo.
Mas isto é assim porque assim é
a realidade, e não de outro modo. Não foi outra coisa que
nos disse Albert Camus, ao assinalar que só há um problema
filosófico digno de seriedade: é o suicídio. Julgar
se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão
fundamental da filosofia. O resto (se o mundo tem três dimensões;
se o espírito tem nove ou dez categorias; se o casamento é
a pedra angular da sociedade...) vem depois. E Camus bem sabia do que
falava. Quantas vezes viu-se ele próprio embrenhado nos abismos
da vida espiritual! Era portador de uma consciência de si que, a
qualquer momento, podia lhe assaltar com um profundo vislumbre vertiginoso
e irrecusável, levando-lhe à totalidade do absurdo,
este nada que enforma o derradeiro estágio do que metafisicamente
aprendemos a chamar de condição humana. Tomado
constantemente pela ideia de suicídio, Camus relacionou-se com
ela quase que de forma amorosa. Não sem perder o tino analítico
na avaliação dos seus interstícios. Eis o triunfador
da sua obra. O herói camusiano sente um calafrio na espinha, embriagado
pela perca de sentido: o destino capturado por um túmulo que ri
ironicamente e que apenas diz “não consegues fugir, eu sou
o tempo”.
É
o tempo que contudo não é tempo intemporal, tempo abstracto,
sem nenhuma referência à estrutura de acontecimentos concretos.
É tempo histórico. Por certo, é por esta via que
o recalcado freudiano sempre regressa. Somos prisioneiros de
algum passado que para não o vivermos, fugimos, ou que o vivemos
inconclusamente. Somos prisioneiros de algum passado que, não o
querendo ou não estando totalmente convencidos de o querer, as
circunstâncias fizeram com que ele se tornasse parte indissociável
do nosso quotidiano presente. São estas questões de natureza
microestrutural na formulação da pergunta sobre se a vida
vale a pena ser vivida. Em alguns aspectos, chegam a ser até mais
dolorosas do que às de cariz macroestrutural, porque aquelas pertencem
só ao ser que as sente, enquanto estas outras têm
uma dimensão colectiva, como, por exemplo, o pessimismo diante
de uma catástrofe ecológica global. Não se perca
de vista entretanto a articulação entre ambas.
Prisioneiros do tempo, abismos da nostalgia.
Determinados tipos de depressões têm a razão do seu
emergir por demais conhecida de quem com elas sofre. E se os
conselhos da clínica psicanalítica ou dos amigos
(que vêem quase a ser a mesma) não produzem a “cura”,
é porque ela só pode ser produzida com um regresso à
materialidade, à situação que ficou inconclusa, ou,
noutro caso, com a pessoa livrando-se do passado que, sem estar convencida
de o prolongar, se tornou parte indissociável do seu quotidiano
presente – o que também é um regresso à materialidade.
Aqui o que importa é o ser humano ser entregue a si mesmo.
Importa entregar-se à práxis,
que não se trata apenas de uma experiência que serve de base
para toda a vida teórica e prática do ser humano, mas de
uma experiência que emerge do próprio questionamento da vida.
A experiência originária é a experiência
de constituição, onde o ser humano surge
como ser contrário do ente simplesmente dado.
Eis a práxis: a forma própria de um ente que cria
o seu próprio ser a partir da sua realidade primeira, buscando
autosatisfazer-se.
Convém pensar neste ser praxiológico
como elemento que estiola a prisão do tempo e liberta o destino.
Durante as insónias, a dúvida: vale a pena? Ora, em meio
a madrugada, metendo-se no carro e indo-se à praia, pode-se aí
olhar as estrelas, pensar no longo caminho que levaram as moléculas
de hidrogénio, subindo a escada da complexidade, até atingir
o nível de organização da estrutura de quem se encontra
a pensar se a vida vale a pena ser vivida... então a pergunta fundamental
da filosofia está respondida: não desperdice a vida!
O ser humano é um ser
que se experimenta a si próprio como um ser a se construir,
histórico, e a história é o espaço e o tempo
do possível. Para se realizar, ele precisa sair de si, pois, em
si, é necessidade e carência. Um ser sofredor.
Que por ser tenso e inquieto, tem uma necessidade permanente
de vida, desde que o seu quotidiano não seja tomado pela massificação
que a impede de brotar.
Fazê-la brotar sempre, eis o acto através
do qual o tempo presente é transposto como prisioneiro do passado.
Desafiar com a luz da existência o temor de mistério
que a vida encerra. Construir a realidade, ao invés de apenas reproduzi-la.
Ivonaldo Leite é professor da Universidade do Estado
do Rio Grande do Norte (UERN)/Brasil, e doutorando na Faculdade de Psicologia
e de Ciências da Educação - Universidade do Porto/Portugal.
INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS
NOVO, Ângelo (2000). “Althusser: Perigo de Vida”, in
O Estranho Caso da Morte de Karl Marx. Porto: Edições Mortas.
LEITE, Ivonaldo (2000). “Relembrando Sartre: O Vigésimo Aniversário
da sua Partida”, in Jornal Universitário do Porto –
JUP. Porto: Outubro/2000.
SARTRE, Jean-Paul (2002). O Ser e o Nada. Petropólis: Vozes.>
25-05-2003

|