Da História à Psicanálise: um mútuo encontro com a história de vida

Ivonaldo Leite

A Psicanálise propõe mostrar que o Eu não somente não é senhor na sua própria casa, mas também está reduzido a contentar-se com informações raras e fragmentadas daquilo que se passa fora da consciência, no restante da vida psíquica (...). A divisão do psíquico num psíquico consciente e num psíquico inconsciente constitui a premissa fundamental da Psicanálise, sem a qual ela seria incapaz de compreender os processos patológicos, tão freqüentes quanto graves, da vida psíquica e faze-los entrar no quadro da ciência (...). A Psicanálise recusa-se a considerar a consciência como constituindo a essência da vida psíquica, mas nela vê apenas uma qualidade desta, podendo coexistir com outras qualidades e até mesmo faltar.

Freud


Foi consagrado pelo "cariz médico", na abordagem psicanalítica, o ritual da clínica. De um lado, o paciente, pronto a ser psicanalizado, e do outro, o psicanalista, a postos para colocar ao primeiro as "sagradas" questões que deverão levar-lhe às raízes do seu mal, e assim iniciar a sua cura. Afinal, na Psicanálise, o remédio para a cura, de facto, não é uma coisa exterior ao paciente, não é algo a ser comprado numa farmácia. O que é o caso de se dizer que, na "consulta psicanalítica", o paciente entra ao mesmo tempo com o dinheiro e com o remédio.

Ora, desde que o método freudiano foi institucionalizado que os profissionais do campo tornaram-se especialistas especialmente especializados em clinicar, em fazer o diagnostico do paciente referenciado em bases totalmente individualizadas. Nisto reside um considerável grau de contradição, principalmente quando se considera premissas centrais no pensamento freudiano, lembrando-se ainda que Freud, como mostra a História da Filosofia, é definido com um filósofo da cultura - sem que com isso se desconheça que ele era um médico psiquiatra. Mas não é apenas por conta da contradição aludida que se pode levar adiante um questionamento ao comportamento estritamente médico da clínica psicanalítica. O que está em causa é que tal procedimento apresenta-se como limitado para que o responsável pela clínica desempenhe o seu papel. Que não é de médico em sentido estrito, mas sim de mediador.

A abordagem deste breve artigo leva em conta menos os procedimentos médicos da clínica psicanalítica e mais as considerações do próprio Freud. Razão pela qual preliminarmente tenho em conta o seu background - com as limitações próprias de um texto como o presente. Devo dizer ainda que não estou disposto a dar atenção às apressadas considerações dos que, tendo em vista as mutações paradigmáticas da atualidade, pretendem "atirar o patrimônio teórico freudianao pela janela".

Como os médicos da sua época, Freud usava a hipnose e a sugestão no tratamento das doenças mentais, todavia os resultados não lhe satisfaziam. A técnica de associação livre começaria a ser esboçada quando ele recebeu uma paciente com sintomas de histeria, apresentando distúrbios físicos - como paralisias, enxaquecas, dores de estômago -, sem que houvesse causas físicas para eles, posto que eram manifestações corporais de problemas psíquicos. Em vez de usar as técnicas tradicionais (hipnose e sugestão), Freud lançou mão de um novo procedimento, fazendo com que a paciente relaxasse num divã e falasse. Falava-lhe palavras soltas e pedia-lhe que dissesse a primeira palavra que lhe viesse à mente ao ouvir o que ele falava.

Descobriu que, em certos momentos, ela reagia a certas palavras e não pronunciava aquela que lhe vinha à mente, censurando-a por algum motivo ignorado por ambos. Freud também percebeu que, em certos momentos, depois de fazer a associação livre de palavras, ela ficava muito agitada e falava muito: Algumas vezes, certas palavras a faziam chorar sem motivo aparente e, outras, a faziam lembrar de factos da infância, descrever um sonho da noite anterior, etc. As conclusões freudianas foram, por exemplo: 1) A vida consciente da paciente era determinada por uma vida inconsciente; 2) que somente interpretando as palavras, os sonhos, as lembranças e os gestos da paciente chegar-se-ia à essa vida inconsciente; 3) que os sintomas histéricos tinham três finalidades: Primeira, contar indirectamente a si mesma e aos outros os sentimentos inconscientes; segunda, punir-se por tais sentimentos; terceira, realizar, pela doença e pelo sofrimento, um desejo inconsciente intolerável.

Com outros pacientes, Freud descobriu que, embora conscientemente muitas vezes eles quisessem a cura, alguma coisa neles criava uma barreira, uma resistência inconsciente à mesma. Explicou isto como sendo resultado do facto de os pacientes sentirem-se interiormente ameaçados por alguma coisa penosa e temida, algo que haviam dolorosamente esquecido e que não suportavam lembrar. Pelo que então sublinhou que o esquecimento consciente operava simultaneamente em duas direcções: como resistência à terapia e sob a forma de doença psíquica, visto que o inconsciente não esquece e obriga o esquecido a reaparecer sob a forma da neurose e psicose.

É verdade que, ao longo de sua vida, Freud reformulou e abandonou conceitos e técnicas terapêuticas. Contudo, pode apresentar-se algumas das principais idéias na história da formação da psicanálise. Dessa maneira, conforme o entendimento freudiano, a vida psíquica é composta por três dimensões: o id, o super-ego e o ego.

O id, inconsciente, é formado por instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes, quer dizer, pelas pulsões, que são regidas pelo princípio do prazer e exigem satisfação imediata. No centro do id, determinando toda a vida psíquica, segundo Freud, encontra-se o que ele chamou de complexo de Édipo, ou seja, o desejo incestuoso pelo pai ou pela mãe. O super-ego, que também é inconsciente, consubstancia-se na censura das pulsões que a sociedade e a cultura impõem ao id, impedindo este de satisfazer plenamente os instintos e desejos. Traduz-se na repressão, nomeadamente na repressão sexual. Ele manifesta-se à consciência indirectamente, sob o registo da moral, como um conjunto de interdições e de deveres, e por via da educação, através da produção da imagem do "eu ideal" ou, dito de outro modo, da "pessoa moral". Por fim, last but not least, o ego apresenta-se como a consciência, sendo portanto uma dimensão consciente. É a pequena parte da vida psíquica, submetido aos desejos do id e à repressão do super-ego: Obedece ao "princípio da realidade", procurando encontrar objectos que satisfaçam ao id sem transgredir as exigências do super-ego.

Há algo aqui que faz lembrar um elemento do existencialismo sartreano: A angústia humana. Isto porque a forma fundamental para a existência do ego é a angústia: submetendo-se ao id, torna-se imoral e destrutivo; ao super-ego, enlouquece de desespero, na medida em que viverá numa insatisfação insuportável; se não se submeter à realidade do mundo, será destruído por ele. O ego está incumbido de encontrar caminhos para a angústia existencial. À consciência, que o mesmo é dizer ao ego, é atribuída a dupla função de, ao mesmo tempo, recalcar o id, satisfazendo o super-ego, e satisfazer o id, limitando o poderio do super-ego. A "vida consciente normal" é o equilíbrio encontrado pela consciência para realizar esta dupla função - a incapacidade do ego para dar conta da mesma resulta na loucura (neuroses e psicoses).

Ora, ao se assumir, conforme está bem evidenciado, que a consciência não constitui a essência da vida psíquica, pondo em realce dimensões preenchidas por elementos produzidas no passado e que têm uma existência oculta no presente, influenciando/condicionando a vida dos indivíduos, apela-se para a valorização, na narrativa psicanalítica, não apenas de dispositivos meramente de natureza psicológica, estruturados cognitivamente de forma individualizada e centrados tão-somente em processos mentais, mas apela-se também para a compreensão da forma histórica dos dispositivos das estruturas materiais e simbólicas às quais o psicanalizado esteve (e está) vinculado. Aqui, trata-se de realçar o óbvio: que, nas questões relativas aos tipos de estruturas sociais presentes e passadas - onde se desenvolveu e se desenvolve a socialização do psicanalizado -, a História apresenta-se com propriedade para explicar como as mesmas surgiram e evoluíram/evoluem. Sendo estas, de resto, considerações válidas também para a Sociologia, tendo-se todavia que o espaço da longa narrativa é um espaço eminentemente historiográfico.

Se a cura psicanalítica passa por um processo onde o paciente faz a sua narrativa estimulado pelas palavras do psicanalista, onde este pauta-se como mediador - ou pelo menos deve - para levar o paciente a assumir uma postura onde ele, paciente, autonomiza-se e faz um discurso sobre a sua anomalia, então tal perspectiva assimila premissas, embora não se revele, daquilo que, por sua relevância epistemológica, contemporaneamente tem-se configurado como um campo promissor no interior das Ciências Sociais - entendidas estas em sentido amplo -, sendo o mesmo categorizado como História de Vida.

Pressupondo algumas condições para com ele se trabalhar, o "método" História de Vida afirma-se como um instrumento analítico que, diferente da factualidade da história tradicional ou de determinadas "concepções do reflexo", ao voltar-se para o passado, não apenas o revive ou o diz descritivamente. O passado já não é dito apenas como um retrato estático. Ele já não é contado por alguém que se encontra imóvel noutra dimensão do tempo histórico: o presente. Já não se apresenta na voz do narrador como o que foi. Trata-se, pois, de um procedimento que funde o passado e o presente no momento em que o narrador conta-se e, ao contar-se, ele recria a sua história de vida. Ele, o narrador, produz um discurso que, autonomizando-lhe, proporciona-lhe um panorama retrospectivo sobre o seu percurso pessoal e, assim, permite-lhe pensar alguma coisa sobre o futuro. Talvez os depoimentos colhidos por Ecléa Bosi - do campo da Psicologia Social, mas que podem perfeitamente serem situados numa perspectiva sociológica ou da História Social -, reunidos no seu trabalho Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, constitua-se, no Brasil, um dos melhores exemplos do que estou a sublinhar.

Se o trabalhar com História de Vida implica que o investigador, tal como o psicanalista, assuma uma postura de mediação, levando, por exemplo, um(a) professor(a) a falar sobre o seu percurso profissional - no caso de uma pesquisa sobre formação de professores/construção identitária -, há então neste ponto uma necessidade inversa, isto é, a da História de Vida lançar mão de premissas psicanalíticas (sem que isso implique a anulação da presença de um ativo enfoque histórico-sociológico). Eis aqui, portanto, o mútuo encontro entre a História de Vida e a Psicanálise: A primeira como necessária à clínica psicanalítica e a segunda fornecendo premissas para que, no trabalho de investigação, não se tenha uma relação unidimensional entre quem pergunta e quem responde, mas sim de mediação.

Parece que é através de conexões dessa natureza que a fragmentação patrocinada pela modernidade positivista no conhecimento poderá ser ultrapassada, tendo-se ao mesmo tempo a possibilidade de se pensar uma nova cientificidade para o campo educativo, onde as fronteiras disciplinares sejam permanentemente transgredidas. Onde o ser humano, que não é senão o projecto que ele pensa para si, como diria Sartre, exista porque o realiza.

Ivonaldo Leite é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/Brasil, e doutorando na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação/Universidade do Porto/Portugal.

05-01-2003