Heróis, lideres, demagogos
George Blecher
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Infeliz da terra que tem necessidade
de heróis.
Galileu, em Vida de Galileu, de Brecht |
Aversão ao tema
Como disse certa vez a poeta americana Marianne
Moore acerca da poesia, "Também não gosto.” Pelos
vistos, Brecht também não gostava. E eu também não
posso dizer que seja louco pelo tema.
Para qualquer pessoa que se agarre à
crença na ideia frágil e imperfeita que está no centro
da democracia – que podemos confiar razoavelmente num grupo de nossos
“pares” para tomar decisões que promoverão o
interesse da sociedade em geral – o conceito de herói causará
arrepios. Sabe a sistemas sociais hierárquicos antigos; cheira
a sangue e tripas, em vez de compromisso pacífico; reduz o sentido
do seu próprio valor do cidadão democrático, em favor
de um ser vago e abstracto que é, por definição,
superior. “Não gosto de heróis”, murmura para
os seus botões o cidadão democrático. “Serei
o meu próprio herói”.
No entanto, quer isso nos agrade ou não,
acreditamos em heróis desde o dia em que nascemos: os pais irreais,
um professor benevolente, uma personagem numa canção ou
num livro infantil, uma estrela do desporto – todos figuras mais
ou menos remotas, que cederão lugar ao mais alto, mais bonito,
mais competente e socialmente mais talentoso dos companheiros de escola.
(E isto nem inclui os super-heróis insuflados dos desenhos animados
e da televisão, que amortecem a dor genuína da admiração,
e que nos projectam num mundo de fantasia solipsística.) Embora
por vezes a inveja gerada pela adoração de heróis
da infância seja quase insuportável, se não se acaba
paralisado, aprende-se com eles, experimentando-lhes a pele, para ver
que partes servem, e que partes não prestam.
Existe
uma diferença qualitativa – esperamos – entre os heróis
da infância e os heróis da idade adulta, que confere algum
crédito ao cliché segundo o qual a idade traz a sabedoria.
À medida que vamos envelhecendo, deixamos de admirar simplesmente
o poder, a riqueza, a beleza e a força. Se, digamos que por volta
dos 25 anos, atingimos um bom nível de autoestima, a natureza dos
nossos heróis muda. Da mesma forma que descobrimos que a vida nos
obriga a lutar pela concretização dos nossos desejos, e
que grande parte dessa luta passa pela descoberta de um equilíbrio
entre fazer aquilo que nos apetece e o que somos obrigados a fazer para
sobreviver, também os nossos heróis adquirem uma forma mais
modalizada, talvez mesmo mais humilde. Começamos a admirar qualidades
como a coragem, a integridade, o idealismo e, principalmente, a persistência,
a capacidade para preservar em situações adversas. Os nossos
heróis ficam assim mais parecidos connosco.
Tudo isto é, no entanto, sobre heróis
pessoais; não remete para o aviso de Brecht. Todos sabemos a que
tipos Brecht se referia quando pôs estas palavras na voz do seu
protagonista e, tal como ele, sabemos bem que devemos abordar a questão
dos heróis nacionais com todas as cautelas. Porém, quando
olhamos para a situação política presente, o que
vemos é muito diferente daquilo que ele via. Em vez de termos os
líderes poderosos e selvagens, do tipo que o preocupava a ele,
somos, na maior parte dos casos, liderados por Zés-Ninguém,
figuras que são mais ou menos competentes a gerir o governo, a
brincar à política ou a agitar a turba, mas às quais
falta o que se costumava chamar visão. A nossa capacidade
técnica para colocar a cara de alguém em milhões
de t-shirts não produziu nenhum herói novo: nem George W.
Bush nem Osama Bin Laden atingiram o estatuto de um Che.
Na verdade, a questão dos heróis
nacionais pode ser bem diferente daquela implicitamente colocada por Brecht.
Dada a complexidade bizantina das instituições democráticas
actuais, será possível – e esqueçamos o desejável
– encontrar líderes que sejam mais do que comandantes embriagados
de transatlânticos à deriva? Poderão existir
heróis nacionais, num tempo em que os navios do Estado –
ou, mais exactamente, o ídolo do capitalismo internacional –
não são controlados por ninguém?
O herói como mito e mau dançarino
Neste ponto poderá ser-nos útil
tentar distinguir heróis de líderes. (É uma distinção
particularmente necessária em língua alemã, dadas
as conotações pesadas da palavra "Führer.")
Se procurarmos um padrão para o comportamento
heróico, veremos que os heróis são figuras solitárias
que enfrentam uma série de provas simples e complexas. No decurso
destas provas, chegam à conclusão de que têm um dom
particular ou uma mensagem a transmitir, e passam o resto das suas vidas
a lutar para convencer os outros da justiça da sua causa. Em geral,
os heróis estão mais à vontade no mundo do mito do
que no mundo da “realidade”. Quando ultrapassam os seus limites
e se tornam homens de estado, como Nelson Mandela ou Vaclav Havel, podem
encontrar problemas inesperados. Ocasionalmente um líder –
Lincoln talvez seja o melhor exemplo – confronta-se com uma série
de provas que o transformam num herói involuntário, que
o arrancam a um mundo relativamente seguro e o lançam num mundo
de grande solidão e poder, mas o herói/líder é
um caso muito raro. A maior parte dos heróis não é
bom líder – pelo menos a longo prazo – e a maior parte
dos líderes nem chega perto de se tornar um herói. Num certo
sentido, é mais fácil falar de heróis do que de líderes,
porque os heróis são geralmente permutáveis, enquanto
ser ou não ser um bom líder depende de quem se lidera, e
em que circunstâncias.
No clássico The Hero with a Thousand
Faces (1953) o mitologista Joseph Campbell divide a demanda do herói
em diversas fases. De acordo com Campbell, o herói inicialmente
resiste à sua “chamada”, é persuadido pelas
diferentes figuras de guardiães das passagens a entrar num mundo
de escuridão e perigo, luta com deuses e deusas malévolos,
até que absorve o seu poder e vê os seus lados mais benévolos.
Ao enfrentar o perigo frontalmente, a psique do herói liberta-se
dos medos e das dependências da infância, e ele emerge como
um adulto, com sentido de missão. Mas a sua prova não terminou.
Armado com uma recém-encontrada auto-confiança, é-lhe
exigido que regresse a um mundo que lhe é ou indiferente ou hostil,
ou então descobre que a bênção da sua revelação
tornou o mundo “real” pouco atraente. Se consegue ultrapassar
a depressão ou sentido de rejeição, tem o poder de
fazer passar a sua mensagem a uma sociedade que a pode utilizar para recuperar
um sentido de renovação e rumo.
Mesmo sendo demasiado esquemático,
este paradigma ajuda-nos a ver as relações entre os heróis
clássicos – os Cristos, os Moisés, os Budas, os Ulisses.
Parece-me que Campbell e os seus colegas junguianos argumentam de forma
convincente que o padrão é arquetípico; demonstram
que, se nem toda a gente vive uma vida na qual sente ter um destino mais
elevado, cada um de nós o sente ocasionalmente, e esforça-se,
ainda que inconscientemente, para atingir os parâmetros desse destino.
Apesar de todo o seu entusiasmo com a mitologia,
Campbell revela algum desalento perante a sua pouca importância
para a vida contemporânea:
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Hoje em dia, todos estes mistérios
perderam o seu poder; os seus símbolos já não
interessam à nossa psique. A ideia de uma lei cósmica,
que toda a existência serve e à qual todo o homem deve
obedecer, já há muito que passou pelos estádios
místicos preliminares representados na astrologia antiga,
e é agora aceite naturalmente em termos mecânicos.
A descida das ciências ocidentais dos céus à
terra (da astrologia do século XVII à biologia do
século XIX), e a sua convergência hoje, por fim, no
próprio homem (na antropologia e psicologia do século
XX) assinalam o caminho de uma transferência prodigiosa do
ponto de enfoque da curiosidade humana. Agora, o mistério
crucial já não é o mundo animal, nem o mundo
das plantas, nem o milagre das esferas, mas o próprio homem.
O homem é a presença alienígena com as quais
as forças do egoísmo têm de chegar a acordo,
através do qual o ego tem de ser crucificado e ressuscitado,
e em cuja imagem a sociedade será reformada. |
Se considerarmos encarnações
um pouco mais recentes de heróis e anti-heróis – estou
a pensar em Dom Quixote e em Assim Falou Zaratustra
– o pessimismo contido de Campbell parece convincente. Junto dos
mitos corpulentos dos heróis antigos, estas figuras anémicas
mostram-nos os obstáculos que um autor tem de transpor na tentativa
de renovação do conceito de herói. Dom Quixote e
Zaratustra poderiam parecer muito pouco heróicos a Homero ou aos
autores dos Evangelhos, e não os poderíamos culpar se não
reconhecessem semelhanças entre os seus ícones e os seus
sucedâneos modernos.
O próprio Cervantes tem sido fustigado
pelos críticos literários por ser demasiado duro com o seu
“herói.” Num ensaio de 1998 no New York Review
of Books, o escritor belga Simon Leys descreveu a tentativa de Cervantes
como a escrita de um best-seller à custa da destruição
das novelas de Cavalaria, populares no seu tempo, e críticos vários,
de Montherlant a Unamuno e a Nabokov, atacaram-no por se deter no ridículo
de Quixote a expensas da sua humanidade. Se Quixote não fosse amável,
como poderíamos explicar a persistência do encanto do livro
que é, na verdade, apenas uma infindável série de
variações sobre o tema da tolice de Quixote?
Parece-me que a persistência da atracção
por Don Quixote se deve, em parte, ao valor da “sinceridade”
que os nossos tempos acrescentaram ao heróico. Por muito “iludido”
que seja Quixote – e podemos argumentar que Cervantes, no fundo,
acaba por provar aquilo que se propõe desmentir, justamente que
a Cavalaria existe – Don Quixote, para além de acreditar
nos princípios que apregoa, age segundo esses mesmos princípios.
Não julgamos o Bom Don pelo sucesso, mas pela sinceridade dos seus
esforços; e pode justamente ser a futilidade dos seus gestos –
lembremos a frase de Beckett: “Não me interessa o sucesso.
Apenas me interessa o fracasso.” – que faz com que o amemos
e nos identifiquemos com ele.
Isto sugere uma outra vertente do herói
que se tornou mais óbvia nos tempos modernos, quando a nossa atitude
para com a força e o poder mudou, e muitos de nós consideram
maus por natureza esses atributos. Leys classifica Quixote como um “falhado”,
dizendo que “o homem de sucesso adapta-se ao mundo. O falhado persiste
em tentar que o mundo se adapte a ele. Por isso, todo o progresso depende
do falhado.” Se nos lembrarmos de Cristo na cruz, da solidão
de Buda, ou das muitas vezes que Ulisses escapa à morte certa,
apenas pelo capricho de um deus ou deusa entediados, é evidente
que a vertente de “falhado” explica uma grande parte do seu
encanto, e que, no nosso meio dominado pela ideia de sucesso, a originalidade
e a lucidez podem ser ainda mais impopulares do que eram na Caverna de
Platão.
Mas que fazer do saco de vento fanfarrão
da marioneta com o nome estranho de Zaratustra, cujo criador bonecreiro,
atormentado por maleitas físicas e uma timidez atroz, muito dificilmente
será o modelo de um fazedor de heróis de quem quer que seja?
Em primeiro lugar, a obra-prima de Nietzsche
mostra-nos como a nossa capacidade para imaginar heróis empobreceu.
Embora Nietzsche tente investir a sua “história” com
alguns dos adereços do mito (o ancião que inicia Zaratustra
nos Mistérios, os animais que o rodeiam e apoiam, o período
de isolamento e o desejo de regressar ao mundo, o seu sentido de um “destino
mais alto”), enquanto ficção, o livro é ruidoso
como uma velha armadura, e algumas das suas afirmações mais
incisivas são lidas hoje como alguma da pior psicologia em versão
popular. Ao ler o parágrafo que se segue, quem poderá evitar
imaginar um bando de americanos privilegiados dos anos sessenta, aos saltos
em volta de uma fogueira em Esalen?
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“Zaratustra, o dançarino, Zaratustra
o ligeiro, batendo as asas, pronto para o voo, acenando aos pássaros,
preparado e capaz, de uma volubilidade feliz, eu, Zaratustra o profeta,
Zaratustra o do riso profético, nem impaciente nem intransigente,
aquele que gosta dos saltos para cima e para o lado: eu próprio
poisei sobre a minha cabeça esta coroa!” (Parte IV,
18) |
E, no entanto, Zaratustra comove-nos
tanto quanto Quixote, porque, parece-me, a vontade do autor por
detrás da sua personagem é muito palpável. Se Don
Quixote transpira sinceridade enquanto o seu criador transpira ironia,
o oposto acontece em Zaratustra. Enquanto Zaratustra fala muitas
vezes num modo que poderíamos classificar de quase irónico
– “O homem deve tornar-se melhor e pior, esta é a minha
doutrina … Pode ter sido um bem para aquele pregador dos humildes
sofrer e tentar arcar com o pecado do homem. Mas eu alegro-me com o grande
pecado, é a minha consolação.” (IV, 5) –
não existe ironia alguma na voz de Zaratustra.
Nietzsche vocifera contra a religião
organizada, a razão, tudo aquilo que considera estar no caminho
de uma existência mais impulsiva e livre – se não para
toda a gente, pelo menos para ele e para uns quantos amigos escolhidos.
Sentimos-lhe a raiva, e sentimos a sinceridade: ambas são tão
intensas que se tornam inspiradoras. Este homem, com todas as suas maleitas
físicas ou psicossomáticas, os períodos longos de
isolamento, as suas lutas com figuras femininas tentadoras e perigosas
a que Campbell poderia chamar “feiticeiras” e, acima de tudo,
a audácia da sua convicção, tem, na verdade, os traços
distintivos do herói clássico. É duvidoso que Nietzsche
quisesse ser visto como herói; mais provavelmente, ele teria visto
a sua transformação em ídolo como a adoração
de mais um Deus falso, e teria derrubado a sua própria estátua.
Parece que nos tempos modernos e pós-modernos, se já não
conseguimos inventar mitos heróicos, alguns de nós podem
ainda viver vidas heróicas.
À procura de um bom líder: um olhar sobre Vidas
de Plutarco
Para além de qualquer outra coisa
que possa ser, o herói parece ser “aquele que pensa pela
própria cabeça”. Este paradigma emergiu provavelmente
numa altura em que a sociedade passou a ser constituída por mais
do que uma pessoa, e tem persistido como um ideal até no mais vulgar
dos slogans de publicidade contemporânea americana, como “thinking
outside the box”, “marching to the beat of a different drummer”,
etc., etc., ad nauseaum. É notável como cada era
encontra a sua forma de expressar o anseio pelo heroísmo, e que
este permanece tão raro como sempre.
Isto deve-se, em parte, ao sofrimento que
acompanha a demanda heróica. A maior parte de nós intui
isto muito cedo, seja no incómodo e no tormento das aulas de violino,
seja no medo em contrariar os desejos dos pais para dar continuidade ao
negócio da família e, em vez disso, tornar-se actor ou cantor
de hip-hop. É compreensível que prefiramos agradar
e continuar sossegados, em vez de sofrer pelos nossos ideais, e que, muitos
de nós, tendo uma vocação – o desejo heróico
de fazer qualquer coisa com paixão – seja vencido até
que atrofia ou morre. Outros, substituem ideias convencionais de ambição
e sucesso pela dor da solidão heróica, e tendem a olhar
com suspeita e desprezo aqueles que entre nós se assemelham a heróis.
Não é fácil ser herói: por muito que os idealizemos
nas histórias, nunca nos sentimos confortáveis quando os
temos por vizinhos.
Porém, continuamos com a questão
mais imediata da distinção entre bons e maus líderes
por resolver, bem como se será que tem alguma coisa a ver com heróis.
Pensei que fosse útil dar uma vista de olhos por um dos grandes
estudiosos dos líderes da história, Plutarco, particularmente
a sua Vida dos Gregos. (Embora tenha feito corresponder às
suas biografias gregas algumas romanas, parece-me que o coração
de Plutarco estava mais com os seus compatriotas – o latim dele
parece que nem sequer era fluente – e é muito mais desenvolto
e perspicaz sobre os gregos, hedonistas e voláteis, do que sobre
os romanos pesadões.)
Esquecemos quanto das Vidas de Plutarco
é sobre o poder, o sangue, as lutas e a guerra. ( Claro que, como
já vimos, um herói também luta, mas as suas lutas
são idiossincráticas, e as derrotas podem ser tão
admiráveis como as vitórias.) Mas para o bom líder,
na avaliação de Plutarco ou de outra pessoa qualquer, a
vitória é necessária, e assim uma grande parte das
Vidas é dedicada à estratégia militar, à
intriga, à preparação para a batalha, à coragem
pessoal e à procura do equilíbrio exacto entre a inspiração
da lealdade nas próprias tropas e o apaziguamento da polis.
Mas se lermos as Vidas com algum
cuidado, descobre-se que as pessoas que Plutarco mais admirava mais –
pessoas como Licurgo, Sólon, Cimon, Péricles – são
não apenas generais vitoriosos, mas ainda todos eles caracterizados
pelo auto-controle e a contenção – a virtude cardeal
da filosofia grega. Sólon merece o elogio de Plutarco quando, enquanto
o primeiro grande líder de Atenas, resiste a tornar-se déspota,
tendo supostamente dito aos amigos que “enquanto a tirania pode
ser um momento delicioso, não há dela regresso” (Sólon,
14). Cimon é elogiado pela sua calma, e a atmosfera de urbanidade
cortês entre ele e Péricles “mostrava justamente como,
nesse tempo, as discussões eram conduzidas com civilidade, as emoções
eram moderadas, e as pessoas não tinham dificuldade em controlá-las
quando estava em causa o bem da comunidade; até a ambição,
que é a emoção humana mais poderosa e indomável,
estava então subordinada às necessidades humanas”
(Cimon, 17) A aparência de Péricles reflecte uma compostura
perfeita:
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... a tranquilidade das suas feições
que nunca se distorciam em risota, o seu passo controlado, a maneira
como as suas roupas estavam arranjadas de forma a não se
descomporem pela emoção enquanto falava, o calmo tom
da sua voz, tudo isto produzia uma impressão notável
em toda a gente.” (Péricles, 5) |
É claro que a principal razão
para Plutarco admirar a contenção é o facto de ele
e os seus compatriotas se preocuparem com a possibilidade de os seus líderes
se tornarem demasiado poderosos; sabiam muito bem com que facilidade a
democracia podia resvalar para o despotismo. Um dos pormenores mais notáveis
da vida política grega que emerge da leitura das Vidas
é a quantidade de vezes que um líder é enviado para
o exílio por se ter tornado demasiado popular, apenas para ser
chamado de volta em altura de crise.
No entanto, por muito que Plutarco admirasse
a contenção, tal como Cervantes ou qualquer outro bom escritor,
também ele por vezes transmite o oposto do que se propunha. Por
muito admiráveis que a consciência e a paciência sejam
em teoria, Plutarco nunca consegue transformá-las em algo mais
que medianamente interessante. Os dois líderes que se destacam
das suas biografias são justamente os mais controversos, Alcibíades
e Alexandre. Lembremos que Alcíbiades era o desordeiro garboso
com o qual Sócrates brinca em Symposium, que desfigurou
as hermas na Ágora de Atenas, instigou a campanha desastrosa
na Sicília e mudou de lealdade a Atenas e a Esparta com a frequência
com que um jogador de ténis troca de t-shirt; e Alexandre era o
jovem conquistador que morreu aos trinta e dois anos, tendo trazido aos
Macedónios a glória, mas também o despotismo e o
caos.
O facto de estas figuras serem mais atraentes
do que as outras leva-nos a um problema que conhecemos da vida pessoal,
mas que não costumamos aplicar à questão mais lata
da democracia: mais exactamente, que aquilo de que precisamos e aquilo
que queremos podem ser coisas diversas. Quem discordará que virtudes
como a generosidade (megalophrosyne), a filantropia (philanthropia),
o brio (philotimia) e a moderação (praotes)
– qualidades que, como Plilip Stadter nos diz na edição
da Oxford de Plutarco, se encontram em centenas de inscrições
em sítios públicos da Roma e da Grécia Antigas –
são exactamente as que cada sociedade valorizará nos seus
líderes? Dada a natureza burocrática do governo, podemos
precisar destas virtudes modestas e acessíveis, muito mais do que
das virtudes heróicas, e os nossos melhores líderes, pelo
menos em tempos de paz, poderão ser simplesmente aqueles que percebem
a máquina burocrática e a administram com compaixão
e inteligência.
No entanto, o que queremos – e, certamente,
em tempos de crise precisamos – pode muito bem estar mais próximo
de um Alexandre ou de um Alcibíades, mais do que de um Sólon
ou de um Péricles. Tipos carismáticos próximos do
déspota. Napoleão. Bolívar. Roosevelt. Castro. Homens
cheios de um sentido de auto-importância gigantesco, e mesmo megalomania,
mas também de uma energia sem limites. Homens (e, no futuro, também
mulheres) que criem grandes sistemas que apenas funcionem bem sob a sua
liderança e que tombem quando desaparecerem, mas que façam
com que a história avance alguns passos. Em resumo, pessoas com
uma visão histórica – mas que também ameaçam
o controle e o equilíbrio da democracia. O que nos leva de novo
a Campbell, pelo menos àquela vertente do herói que sabe
algo que mais ninguém sabe, e que insiste em vendê-lo ao
resto do mundo.
Na prática, parece não haver
uma linha clara que separe os heróis dos demagogos, e isto coloca-nos
problemas. Queremos realmente demagogos para líderes? Infelizmente,
gostemos ou não, parece que neste momento da história, caminhamos
nesse sentido neste momento. Le Pen, Haider, Bin Laden, as forças
que se agrupam em torno de George Bush – todos sugerem uma diminuição
da participação democrática e um anseio por déspotas
por parte de segmentos significativos da população.
Sem dúvida que isto resulta de uma
sensação de instabilidade e de precariedade disseminadas,
pelo mundo. Os nossos sistemas económico e político parecem
estar gastos, e talvez mesmo corroídos por falhas orgânicas.
Não estão apenas ameaçados a partir de dentro, também
nos sentimos ameaçados por um inimigo vago mas palpável
– pessoas a Oriente, que têm sido abandonadas por nós
e exploradas pelos seus líderes e que se estão aglomerando
junto aos nossos portões. Ninguém sabe exactamente quem
nos devia liderar. Não haverá ninguém que nos diga
o que fazer?
Pode muito bem ser que, a curto prazo, o
melhor que podemos esperar num líder é que ele seja uma
figura de compromisso, alguém entre um gestor corporativo
e um déspota – um tirano com compaixão, o visionário
que é também um rapaz simpático. Ocorre-me de novo
Lincoln: aparentemente um homem amável e divertido, com uma vida
privada trágica, durante a guerra descobriu fontes interiores de
vigor, e uma capacidade para planear estratégias militares bem
superior à dos seus generais titubeantes.
Em tempos mais recentes, para alguma inspiração
e alguma esperança, podemos olhar para Martin Luther King e Nelson
Mandela. Muito mais heróis do que líderes, chegam perto
de combinar o sofrimento e a visão do herói de Campbell
com a contenção e a auto-consciência dos líderes
de Plutarco. As suas histórias já são uma combinação
de facto e lenda: os longos períodos na prisão, a capacidade
para transformar a visão pessoal em visão universal, a notável
mistura de compromisso e recusa do compromisso. O lugar de encontro entre
Aquiles e Maquiavel – estas qualidades, entre outras, fazem deles
acidentes divinos, produtos dos momentos raros quando uma causa justa
encontra o seu paladino. Não exactamente heróis, nem exactamente
santos, enquanto líderes (no caso de Mandela, pelo menos) apenas
adequados, pensando bem talvez não sejam ideais para ser admirados
e imitados, mas mais para serem colocados em selos – exemplos da
capacidade humana para, ocasionalmente, fazer alguma coisa bem feita.
O herói do quotidiano: uma memória pessoal
Se os heróis tais como Campbell os
descreve estão praticamente extintos, e as sociedades modernas
não conseguem descortinar quem querem para as liderar, quem poderemos
admirar para além do CEO* e de jogadores
de basquetebol com salários obscenos, ou estrelas de cinema com
menos de 1% de tecido adiposo?
Suspeito que a certa altura a resposta se
encontra nos heróis quotidianos – pessoas a quem nós,
enquanto indivíduos, precisamos e queremos admirar.
Há alguns anos, durante uma sessão
de psicanálise particularmente marcada pela auto-comiseração,
o meu terapeuta perguntou-me quem é que eu mais admirava. Deu-me
alguns minutos e acrescentou: “Aposto que essa pessoa não
nasceu em berço de oiro. Aposto que teve de lutar e ultrapassar
tempos difíceis para se tornar na pessoa que você admira.”
Tratava-se de Seymour Krim! E eu nem suspeitava
que era a pessoa que eu mais admirava. Conhecia-lhe os lados maus –
a língua afiada, o traço misógino – como poderia
ele ser o meu herói? Mas o meu Inconsciente tinha falado, e eu
tinha de o escutar.
Pode dar-se o caso de nunca terem ouvido
falar do escritor nova-iorquino Seymour Krim. Dez anos após a sua
morte está praticamente esquecido, e mesmo durante a sua vida o
trabalho dele manteve-se numa relativa obscuridade, à sombra de
contemporâneos mais famosos como Norman Mailer ou Tom Wolfe. No
entanto, pode argumentar-se com justeza que Krim foi o pai do “Novo
Jornalismo” (aquilo que hoje em dia os departamentos de Inglês
chamam “Escrita não-ficcional criativa), e que a sua visão
da Nova Iorque de meados do século é autêntica e duradoura.
Conheci-o – não, já o
conhecia antes de o conhecer, conhecia-o mesmo antes de o ter lido.
Conheci-o no momento em que vi a capa do seu livro de 1961, Views
of a Nearsighted Cannoneer – um título estranhíssimo,
acoplado a uma foto igualmente estranha de um homem jovem, de caracóis
e óculos, agachado atrás de um canhão velho; ao longo
da capa, na vertical, encontrava-se uma lista dos tópicos mais
quentes da época: Sexo, Suicídio, Homossexualidade, Escrita
desportiva, Jazz, Negros, Génio, Insanidade, Nova Iorque: o sub-mundo
literário. Quem poderia resistir ao tom confessional e modernaço
logo na primeira página?
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Deixem-me dizer desde já
que o meu ponto de vista evoluiu desde que estes ensaios foram escritos,
que hoje não poderia escrevê-los da mesma forma, e
que penso que os golpes de verdade são por vezes enfraquecidos,
de forma subtil ou óbvia, pela frustração pessoal,
pelo exagero, pela auto-defesa – pela fanática fome
de ego do homem que eu era então. Não posso corrigir
estes defeitos. Estou orgulhoso de ter feito o que podia. Mas tenho
fé que isto é apenas o princípio de uma postura. |
O
que se seguia era uma mistura de observação lúcida
e de prosa energética, por um jovem que queria ter sucesso com
as mulheres e como escritor, mas que teve de lutar contra a timidez, a
depressão, e uma estadia num hospital psiquiátrico depois
de uma tentativa de suicídio, para se tornar num pouco daquilo
que queria ser. Alguns dos ensaios autobiográficos estão
escritos num jargão semi-Beat (Krim editou a primeira
antologia de escrita Beat) que estava condenada a tornar-se datada;
mas sob a escrita elaborada estava uma sinceridade tão crua quanto
alguma vez encontrei. Ao ler alguns parágrafos de Krim pareceu-me
então possível que também eu me tornasse escritor.
Conheci-o pessoalmente alguns anos mais tarde,
passei alguns serões no estúdio minúsculo da Rua
East 10th (uma vez mostrou-me com orgulho um pedaço gasto de tapete
onde uma Elizabeth Taylor jovem um dia se sentara), e muito mais tarde
vi-o suportar, sem auto-comiseração, o início de
uma doença do coração que havia de o impossibilitar
de continuar a escrever. Embora tenha publicado relativamente pouca coisa
em vida, vivia para escrever – teve uma série de namoradas,
nunca casou, era a pessoa mais mal vestida do mundo: em resumo, a imagem
perfeita do Boémio – e assim, quando perdeu a capacidade
para escrever, contou a alguns amigos próximos o seu plano, tomou
comprimidos para dormir e deixou-nos. Na cerimónia em sua memória
deviam estar umas 300 pessoas. Todos quantos falaram disseram o mesmo:
quando estavam com ele, sentiam que ele lhes falava directamente, intimamente,
exclusivamente para eles. Tinha na vida o mesmo dom que tinha na escrita
– fazer-nos sentir que estava a falar do coração.
Quero contar uma história sobre Krim
que é, no fundo, uma história sobre histórias, a
única forma que temos de conhecer os nossos heróis. Algures
no início da década de 80, Krim disse-me que estava com
problemas em decidir que tipo de óculos usar. Reconhecia que era
o sintoma de uma doença profunda que ele não conseguia reconhecer.
Como eu fizera uma observação arrogante sobre o facto de
estar a fazer psicanálise há tanto tempo que faria um bom
analista, olhou-me fixamente com um olhar directo, vagamente malandro,
os lábios franzidos num sorriso nervoso, e perguntou-me se aceitava
ser o analista dele. Era vinte anos mais velho, estava na verdade a convidar-me
para ser Aprendiz de Feiticeiro.
Quando contei isto ao meu analista, ele perdeu
a cabeça: “O quê? Você está louco?!”
Mas às vezes há que ser louco
para ser herói.
O Krim e eu encontrávamo-nos uma vez
por semana. Fui suficientemente sensato para estabelecer um acordo com
ele que estipulava que, se ao fim de seis semanas, um de nós quisesse
acabar com aquilo, o faríamos, sem problemas. Em vez de me pagar,
ele colocava de lado todas as semanas uma certa quantia de dinheiro, para
um amigo escritor pobre. Encontrávamo-nos no meu apartamento ou
no dele, e seguíamos todas as regras da terapia, quero dizer, tal
como eu as conhecia. Não revelou grandes segredos: isso pelo menos
posso dizer. Em todos os aspectos estava em muito melhor forma do que
eu, o que não quer dizer que eu não o pudesse ajudar. E
desde o início que sentiu que eu estava a ajudá-lo, e estava
satisfeito e grato de uma forma comovente. Mas eu estava aterrado. Não
queria a responsabilidade da vida deste homem nas minhas mãos.
Adivinhava o suficiente sobre o conceito de “transferência”
para saber que tinha de encorajá-lo a zangar-se comigo, e não
queria fazê-lo: queria o meu mentor de volta, ainda queria ser discípulo
dele. Ao fim das seis semanas, pus fim à situação.
Durante algum tempo ele esteve magoado e zangado, e não me falava.
Mas com o passar dos anos fomos construindo uma nova relação,
mais igualitária do que a antiga.
Hoje é-me fácil perceber porque
é que Krim era o meu herói. De muitas formas, ele encaixa-se
no molde heróico: o isolamento, o sofrimento, a convicção
de que ouvir a sua voz pessoal e usá-la honestamente era o sentido
da vida. Mas o meu papel nesta história é menos claro. Porque
fiz eu uma coisa tão tola?
Ocorre-me a hipótese de que podia
estar a fazer o que Campbell denomina “reconciliação
com o Pai”. De acordo com Campbell, no estágio mais negro
da vida do herói, ele confronta-se com toda a masculinidade do
pai edipiano. Na mitologia, isto pode tomar a forma de monstros, dragões,
qualquer coisa que o herói duvide que possa superar. Em vez de
usar a força bruta, é requerido do herói que “abandone
a ligação ao próprio ego, e é isso que é
difícil. Tem de acreditar que o pai é misericordioso, e
de ter confiança nessa misericórdia.”
Estranhamente, parece-me que era justamente
isso que eu estava a fazer: a lutar com o pai assustador, e a submeter-me
a ele.
Lembro-me bem de estar sentado a ouvi-lo,
simultaneamente assustado e entusiasmado, como se estivesse a olhar o
perigo nos olhos. A cada sessão fui ficando um pouco mais seguro,
até que, por fim estava suficientemente descontraído para
perceber que ele, como qualquer um de nós, era apenas uma pessoa
vulnerável a fazer o seu melhor. Isto não me fez respeitá-lo
menos, mas tornou-o mais acessível e talvez menos colossal. Talvez
no fim eu já pudesse dar-me ao luxo de ser também misericordioso,
quando admiti não ser a pessoa certa para o ajudar – não
porque fosse incompetente, mas porque estava a brincar com o fogo.
É possível que me tenha enganado,
que estivesse a comportar-me como um rapazinho atrevido. Mas acabei por
sentir que, por causa dessas seis “sessões”, tinha
absorvido um pouco de Krim. A longo prazo, pode muito bem ser que os heróis
sejam afinal figuras na nossa vida, ou da nossa imaginação,
que fazem com que cada um de nós possa ficar mais perto de se tornar
um herói.

*CEO: Chief Executive Officer.
Trad. de Adriana Bebiano
Texto publicado com permissão de Wespennest
e de Eurozine
© Wespennest © eurozine
01-02-2003

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