Abril
Dentro de Nós
António Alberto Silva
Publicado
no Jornal A Voz de Ermesinde, edição da 2ª quinzena de Abril.
Onde estava no 25 de Abril?
Lembra-se, precisamente, do que fazia no
25 de Abril de 1953, dia da publicação na Nature do artigo
de Crick e Watson?, perguntou em Abril de 2003 um jornalista do Le
Monde a François Jacob. A resposta foi, deveria estar a efectuar
uma experiência num canto do sótão do Instituto Pasteur,
mas atente-se na pergunta: foi num 25 de Abril, há precisamente
50 anos, que foi publicado o célebre artigo de Francis Crick e
James Watson que descreve a estrutura em dupla hélice do ADN.
E
é precisamente neste Abril de 2003, Abril De Nós, que um
consórcio internacional que integra Alemanha, China, Estados Unidos,
França, Japão e Reino Unido proclama formalmente que a descodificação
do genoma humano está terminada.
E é ainda precisamente neste Abril
De Nós que o cinquentenário dogma central da biologia molecular
é radicalmente abalado: o ADN não escapa às leis
da Física e Química, não é o livro sagrado
onde está inscrita a vida toda e todos os futuros escritos; os
genes nada são sem o seu ambiente celular; os seres vivos são
feitos de genes mas também de ambiente, relações,
culturas, desgraças que não escolhem, graças que
procuram colher, opções que fazem em livre arbítrio
que é seu, dinâmicas individuais e colectivas, auto-organização,
caos na ordem e ordem no caos. Afinal, nem os actores físicos,
nem os humanos e sociais, são fatalisticamente determinados e monotonamente
estúpidos.
Pelos anos 50 e depois, dominavam visões
reducionistas. Estávamos, claro, antes do 25 de Abril, Do Nosso.
Se Hitler tivesse lido “a tempo” o artigo de Crick e Watson,
Ai De Nós!, teria explicado a superioridade ariana com uma dupla
hélice... embora para isso tivesse que fazer batota, perdão,
manipulação, genética. Pelos anos de hoje —claro,
depois de Abril, Do Nosso— noções como a de raça
foram destroçadas. Podem verificar-se mais diferenças genéticas
entre um louro nórdico e um seu louro vizinho, do que entre um
deles e um negro africano. Aliás, do ponto de vista genético,
todos os humanos são africanos: ou vivem em África... ou
estão no exílio (S. Paäbo, Instituto Max Planck - Alemanha).
Misturando uns Ares De Nós: tem muita
força Abril.
Nos anos 60, a palavra ecossistema ainda
não tinha conquistado um lugar no vocabulário político
das nações industrializadas. Nos anos 80, já se faziam
estudos de impacte ambiental, já era clara a necessidade de uma
visão ecológica do mundo, de um mundo simultaneamente humano
e natural. Claro, entre os 60 e os 80 estão os 70, e logo o Abril
De Nós, misturei mais Ares De Nós, o caso não é
para menos, passo a misturar uns venenos.
Escreve Fourez (1996): hoje em dia, na sua
maior parte, a investigação científica no mundo continua
a ser directa ou indirectamente subsidiada por forças armadas.
Escreve Heloísa G. Santos, no Número Especial de 25 de Abril
de 2003 do Boletim da Sociedade Portuguesa de Genética Humana:
existem hoje poderosos protagonistas —multinacionais, grupos financeiros,
jogos bolsistas— que programam a investigação e criam
controlos perversos a um ponto tal que, se assim fosse então, teriam
destruído o espírito de aventura de Watson e a independência
intelectual de Crick e, provavelmente, impedido a sua criação.
Disse hoje o Presidente da República, na sessão solene de
comemoração do 25 de Abril, Do Nosso: nunca como hoje foi
tão necessária uma regulação das relações
internacionais, assente no respeito do direito, que recuse posições
hegemónicas e decisões unilaterais (concordo e resmungo
eu: não vamos nós ficar reduzidos a... América Do
Norte).
As democracias políticas do chamado
1º mundo são mais formais do que reais. Temos dores e desgraças
e guerras. Somos moldados pelo contexto, pela vida vivida. Muito o genoma
determina. Mas até conjecturo que no genoma humano está
inscrita uma humana pulsão, a da liberdade!... E, para além
dele, muitas são outras coisas que muitas mais determinam. O livre
arbítrio tem restrições; mas existe. Nada está
terminado, determinado não está tudo.
Durante muito tempo, o determinismo foi o
símbolo da inteligibilidade científica. Hoje, reduz-se a
algo válido somente em casos limite. Com Ilya Prigogine e outros,
sabemos que instabilidade e a irreversibilidade não são
a excepção, o ruído: estão no cerne dos eventos
reais. A flecha do tempo, a irreversibilidade, existe. Foi necessária
para a criação da vida, é necessária para
a sua existência e evolução. Pequenas flutuações
originam bifurcações para futuros diferentes e irreversíveis.
Nem as leis governam o mundo, nem este é governado ao acaso: as
leis físicas descrevem eventos possíveis; e estes não
podem ser reduzidos a consequências dedutíveis de leis deterministas.
A irreversibilidade criou a vida. Fatalmente? Irreversibilidade e não
determinismo não são fatalidade, destino, fado, prisão:
em certo sentido, são precisamente o oposto. Se as coisas que eu
faço pudessem ser desfeitas, voltar a trás, ou se tudo o
que eu faço já estivesse decidido antes, isso sim, seria
fado sem liberdade. Enquanto escrevo estas linhas zumbe o computador e
cintila o seu monitor, ficaram eles mais velhos, que direi de mim, o mundo
ficou diferente, e não atendi um telefonema, que teria acontecido
se atendesse?, o mundo ficaria diferente de outra maneira, e agora vou
escrever que nada, ninguém, e isso não estava decidido,
decidi eu, escrevo, nada, ninguém, conseguirá fazer com
que eu não tenha escrito estas linhas, tenha atendido o telefonema,
e me limitasse a escrever o já escrito. Irreversibilidade liga
com liberdade, responsabilidade, comemoremos.
Não está nos meus genes inscrito
que vou pegar de novo no Número Especial de 25 de Abril de 2003
do Boletim da Sociedade Portuguesa de Genética Humana.
Mas pego. E leio, de ME Pembrey: o artigo de Crick e Watson revelou a
base molecular da evolução de Darwin; mas as sequências
de ADN não são, em si mesmas, o segredo da vida: são
notas de piano, não música; o desafio dos próximos
cinquenta anos, é o do complexo jogo de interacções
entre genes e ambiente. Leio também, de Maximina Pinto: a vida
não é simples, não se reduz a ATCG’s; e uma
das lições da escada feita da dupla hélice com degraus
de ATCG’s, é esta: a “raça” humana ficou
unificada, e também reduzida à sua real dimensão
no mundo vivo.
Reencontrada a nossa real dimensão;
sabendo que só temos 20 vezes mais genes do que a Helicobacter
pylori, e que se temos nós 30000 genes tem 40000 o arroz, e que
o genoma humano e o do chimpazé devem coincidir em 99 %, e que
priões sem gene algum tantos vivos enlouquecem; sabendo que mataremos
bactérias e que elas nos matarão a nós, que comeremos
grãos de arroz e que a nós nos comerão eles, que
humanos e macacos bem podem fazer caretas uns aos outros; comemoremos,
toquemos música, Andemos Dancemos Nademos, evoluamos, subamos escadas,
mais degraus, subamos mais, flutuemos.
Cada contributo pessoal pesa no macroscópico
social; e num mundo tão globalizado, mundializado, mais ainda qualquer
pequena melodia, microscópica flutuação, pode ter
macroscópicos efeitos, bifurcar mundos para outros destinos. Quais?
O futuro é um tecido de muitos nós
numa bola de cristal de Amálgamas De Nós.
Alguns De Nós já sabiam, Além
De Nós sabia o leitor, onde está o 25 de Abril.
25 de Abril de 2003
Referências
Le Monde
Fourez G. (1996) La construction des sciences (Bruxelles: DeBoeck)
Prigogine I. (1996) O fim das certezas (Lisboa: Gradiva)
Toulmin S. (1990) Cosmopolis (Chicago: Univ. Press)
Público
Boletim da Sociedade Portuguesa de Genética Humanna – Número
Especial, 25 Abril 2003.
01-05-2003

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